quarta-feira, 11 de março de 2015

ORELHUDOS DO CARAÇAS - Rubrica de A.N.B.

                        “O Azedo para todos os Gostos”
i)

O Azedo, um patrão de si mesmo
Começamos por dizer, sorridentes, que a alcunha de “Azedo” posta ao José Manuel S.B. Madeira, é muito própria das amizades de infâncias alentejanas e das grandes amizades de uma mesma geração. Todos temos uma, não é?...
Um amigo de quem sempre gostámos muito e do qual resolvemos, hoje, traçar-lhe, no Al tejo, “um breve retrato” enquanto for este o nosso tempo, de viver e de rir, ou de nos (re) encontrarmos na nossa terra, ainda envolvidos numa fraterna e já longa amizade.
Pois é. Vou lembrar-te que por dentro e por fora e entre o que é visto, dás a ver-nos e o que se vê, à distância, foste sempre um homem sem medo de ninguém. Muito menos da M.H./EDLS.
Com uns genes especiais para “os negócios puros e duros”, à Pablo Escobar, e para a arte de vender e comprar o que quer que seja e onde quer que fosse, de preferência, em voz alta, bem podíamos aplicar-te aquela distinção válida também em ti: “para o Azedo, nem tudo tem um preço mas tudo tem o seu valor e o que mais valor tem é precisamente aquilo que não tem preço”.
Ora bem.
Como a tarefa de saber vender e comprar na hora não é fácil, o Azedo, teve sempre, uma maneira muito própria de fazer comércio: nunca engana o parceiro de negócios completamente; engana-os apenas o necessário para voltarem a ser amigos. Assim era o pai Amílcar.
Quem já o viu como eu vi, na Feira semanal da Malveira, a vender e a comprar tudo o que está à mão, saberá do que estou a falar. Garanto-vos que é um espetáculo: a rapidez, o ar aberto e despachado com que começava a vender pintos e galinhas e acabava a comprar sucata para, no momento imediato, já estar a vender novamente patos e melões… era um espanto.
É por isso que confirmamos que é “um patrão de si mesmo com a sua arte de vender”. Sem pausas, sem preconceitos, sem superstições desnecessárias e sobretudo sem percas de tempo. É um “regalo social” senti-lo como patrão de si mesmo.

ii)
O Azedo, 1 Vendedor Ilimitado sem tempo a perder
Ver o Azedo a vender é, como já avisei, um gozo do caraças. Sinceramente aqui o descrevo: grita para um lado, levanta a voz para o outro, desafia o vendedor do lado ora a vender mais barato ora mais caro consoante a cara do freguês desorientando facilmente… os compradores O que pretende é vender sempre mais sem contudo se mostrar aborrecido se as coisas e o dia não lhe estava a correr bem.
Engana com matreira sinceridade, tem um certo carisma, é experiente e topa à distância quem julga que o quer enganar. Normalmente era o que acabava enganado!
E mais. Enquanto vendedor sem tempo a perder, tem a ousadia dos preços certos nos momentos de venda incertos, inspira uma humildade e, entretanto, vai fazendo da sua vocação de comerciante especial um exercício de simplicidade útil que é um prazer ver em acção.
Na Malveira, cada vez que o ouvia chamar-me por “Oh Dr. Quinze” (de resto, eu tremia com esta bela síntese, porque ficavam a olhar para mim…) eu sabia que uma ou duas horas depois acabada a refrega dura das vendas e compras do dia, ficava banzado com o cacau que fazia.
Banzado ficava também com o lugar que os outros vendedores lhe reservavam na Feira da Malveira. Um lugar próprio de desatinadas e infinitas aldrabices onde o Azedo tinha, aliás, guardado um posto de excelência. Agora se duvidam destes elogios e do que estou aqui a dizer-vos, reparem só que o Zé Manel  era admirado e visto como um vendedor especial. Daqueles que podem ser vendedores em qualquer parte do mundo: em Marrocos, na Líbia ou em qualquer das três Américas.
Sim, é uma verdade pura e internacionalizado isto que estou a afirmar-vos dele!

iii)
O Azedo, 1 Cidadão em qualquer parte do mundo
Por estranho que possa parecer-vos, vou aqui deixar escrito o testemunho seguinte: - embora avesso aos estudos e em especial ao “politicamente correcto”, o Zé Manel, reuniu sempre condições de inteligência prática e de muita esperteza sadia bastante genuínas e motivadoras.
Dou um exemplo: era capaz de “negociar comigo” a protecção fisica que me dispensava em troca de eu lhe fazer e passar “as traduções de francês” no Colégio onde andámos e fomos companheiros de carteira.
Além disso, na sua postura de cidadão contestatário, não conheci nem conheço até hoje um cidadão com ideias tão claras e frases curtas tão enérgicas sobre as pessoas que não lhe agradavam ou sobre as situações incómodas que lhe desagradavam.
Ía e vai directo aos Palavrões, usa-os e qualifica certos factos sem pejo nenhum, sem remorsos falsos, e por vezes sem nenhuma piedade. Manso é que não é!
Para ele os políticos são o que são: (a) uns aldrabões; (b) a Segurança Social nem chega a ser uma insegurança, é antes uma merd@ que o P.P.Coelho decidiu agora roubar e infantilizar; (c) votar não vota; (d) ver televisão não vê; (e) perder tempo com a bola nem pensar; e, por fim, jamais gastou tempo com grandes ou pequenas divagações, etc.
Digamos que é “um ser deste e de outros mundos” a quem fazer certas perguntas se torna um exercício deveras arriscado e de resposta imprevisível.  
 Exemplo: Zé Manel leste algum livro do Eça e do Camilo e acreditas em Deus, pergunto-lhe eu? Não, nunca na vida; Oh Azedo, costumas ler jornais? Não perco tempo com esses pantomineiros. E assim sucessivamente. Que eu saiba apenas condescendeu com o uso dos telemóveis, carros velhos e carripanas todas a darem para o ilegal em termos de inspecção e impostos, claro.
E, no entanto, se dizemos que o Zé Manel é um inteiro cidadão do mundo fazemo-lo nós, porquê?...
Fazemo-lo porque o Azedo não precisa de dizer que é português do Landroal para se perceber que venderia bem em Marrocos; fazemo-lo porque o Azedo não precisa de ter os impostos em dia para ser um cidadão que é livre de não os pagar e vai usando essa mesma liberdade.
Em síntese, já nasceu livre e livre se sente do« lixo civilizado» que, de facto, só faz daqueles que, por vezes, se julgam mais  cidadãos do que ele, meros objectos de uso das sociedades e dos governos actuais. O Azedo, diria eu, é um cidadão arejado, desafogado,  despoluído, Ambientalista!
Neste sentido, podemos dizer que o Azedo é «um cidadão do mundo» em muito bom estado de conservação. Esteja no Alandroal, esteja onde estiver nas suas estradas da vida, é uma “ave de um bando de gaivotas sem poiso certo ” onde não entra quem quer. E só voa assim quem sabe que com ele vai ter muito gozo no voo.
Ao procurar viver a vida da maneira que o faz e sempre fez: sem fantasmas, sem visões inúteis, sem paixões assombradas, com tantas diabruras à mistura, dá-nos conta dos seu valor e muita curiosidade por aquilo que sabe que é. Nunca deixando de o ser.
Chega a dar a impressão que é assim, a modos que, “um quase fora de lei” com a pistola à cinta, tapada das caraças arriba.
Assim seja Azedo. E se, por acaso leres isto, Zé Manel, acredita que há, no Alandroal, quem te admira muito. Toma aí nota, caraças, que eu sou um deles. Mas há mais gente a pensar o mesmo!
Melhores Saudações
          António Neves Berbem
               (11/3/2015)



4 comentários:

Anónimo disse...

O Azedo é amigo do seu amigo.è capaz de despir a camisa para dar ao amigo.
Já comi e dormi na sua casa,tal como ele na minha.De quando em quando telefona se eu o não fizer só para saber da saúde dos de cá.Claro que à mistura vem uma série de desabafos dos que lhe fazem,ou tentam fazer,mal.
Temos peripécias juntos que não lembram ao diabo.Desde o irmos para Andorra num carro que tinha sido expulso de Portugal e que não podia entrar em França por ter matricula desse pais,mas não ter o seguro pago.De irmos para Portalegre para as festas dos aventais,etc,etc.
Se neste mundo houvesse mais pessoas como o Azedo seria muito melhor

Francisco Tata disse...

A mim chama-me o "Plínio", vá lá saber-se porquê.
Na nossa juventude íamos muitas vezes armar ao tordos. Cada loisa seu tordo.
Uma vez armei-as à tarde na tapada do Neris e de manhã quando fui por elas nem uma. O Frade (que já não está entre nós) levantou-se mais cedo e limpou-as todas. Quando me vinha embora dou com uma data delas, na tapada do Zé Cuco. Foi a minha vez de as limpar todas, ainda por cima com os pássaros.
Á tarde no poial da Fonte oiço o Azedo a queixar-se: "Se eu sei quem foi o cabrão que me limpou as armadilhas, nem a alma se lhe aproveita!».
Só passados muitos anos e que o Azedo , soube que fui eu...
Um abraço para ele
Chico Manel

Helder Salgado disse...


Como neto mais velho (éramos três somos dois) de José Ferandes Salgado, o velho Azedo, alcunha que o José Manuel Salgado B Madeira dele herdou, forçozamente teria que deixar aqui um pequeno apontamento.
Quando comecei a ter algum préstimo e a confiança dos meus pais, ia todas as segundas-feiras a Vila Viçosa, à Sofal carregar farinha para a padaria. Partia à tardinha de Terena e ia dormir ao monte dos meus avós. ao Alandroal
O meu primo lá aparecia e lã jantava, vindo comigo, que não perdia um cinema, para casa.
Desenfiava-se da casa dos pais, nada dizia e quando chegávamos o meu tio Amilcar com a anuência da minha tia Elisa descarregava-lhe uma tareia de tábua de caixote de sabão. Sucedeu isto algumas vezes.
Eu devia ter catorze, quinze anos e este ato serviu-me de reflexão.
Ora
se o rapaz, aqui o Azedo, estava em casa dos avós, no monte, se ia comigo, apenas por não ter pedido aos pais, haveria razão para aqueles maus tratos?
Deixem-me lembrar o saudoso Rato, Antonio J Salgado, que mais tarde já no tempo de colégio, também aparecia no monte para irmos ao cinema.
Um abraço de agradecimento ao Tozé por esta oportunidade recordativa. Outro ao F. Manuel por a ter permitido.
Helder


L. Mira disse...

Parabéns ao nosso amigo ANB pelo retrato feito ao "Azedo". Apeteceu-me acrescentar que era o único rapaz na época que entrava e saía em todas as casas onde havia miúdas. Sempre visitas muito rápidas e faço questão de salientar que as mães não se opunham.
Vá lá saber-se o porquê ...