NÃO HÁ FOME QUE NÃO DÊ EM FARTURA, MAS…TAMBÉM A FARTURA POR VEZES CONDUZ À FOME
Permitam-me recuar umas décadas. Finais dos anos 60, anos 70, 80 e muitos de 90.
As noites no Alandroal eram uma verdadeira “pasmaceira”. Ou copos de vinho na taberna até horas de recolher a casa, ou, os mais “afoitos” batota na velhinha Sociedade Artística.
Programas recreativos, nada, “casas abertas”: só tabernas, ou os cafés existentes, mas que pela meia-noite encerravam. Ainda me lembro do escândalo que provoquei, e os impropérios que ouvi, quando membro da Assembleia Municipal votei favoravelmente uma proposta para abertura de um espaço nocturno (proposto por um Fulano de Vila Viçosa) no Alandroal.
Acima de tudo, talvez por ser amante do cinema (vício que ainda conservo), custava-me ter que me deslocar a Vila Viçosa, ou mesmo Borba para ver o filme que tinha captado a minha atenção ao ler a crónica do mesmo.
Igualmente ver na TV os artistas da altura, e que no Alandroal só eram possíveis (e com grande arrojo) ver pela Festa de Setembro.
Tentei, dentro do possível remar contra tal infortúnio. Assim e enquanto Corpo Directivo dos B.V.A., e aproveitando o espaço proporcionado pela garagem dos veículos adsitritos aos Bombeiros consegui uma parceria com um empresário aqui de Montemor ( Senhor Piteira) que proporcionou a actuação de várias vedetas no Alandroal, assim como “bailaricos” entre os quais se escolheu (já passaram vários anos) a Miss Alentejo.
Mas a falta do cinema era uma espinha atravessada!
Assim e com um pedido ao Ministério da Cultura (e graças aos conhecimentos do Dr Berbem) arranjou-se a verba necessária para comprar a máquina de projectar ao Homem que levava o cinema ao Alandroal (Domingos Maria Peças). E, passou a haver cinema nos Bombeiros. Não foi o sucesso que esperava (máquina já obsoleta para a altura, nenhum conhecimento do método de escolher os distribuidores. Eram sempre os mesmos ( Bud Spencer e Terence Hill, ou Franco Franchini e Ciccio Igracias), projeccionistas ( José Pedro e José Ribeiro) sem qualquer formação profissional, mas sempre competentes a “desenrascar” problemas. Assentos em secretárias, refugadas da escola primária (por intermédio do Rato). Face aos fracos resultados alargamos a aventura a Terena (e lá ia eu ruas fora anunciando o filme da noite). E já na altura talvez a assistência em Terena fosse superior ao Alandroal . Mas, abro já um parêntesis para dar a conhecer um facto que ainda hoje trago atravessado: Comemoravam-se 5 anos da existência dos Bombeiros. Assinalou-se a data com pompa e circunstância. Houve jantar comemorativo à borla (ao qual ninguém faltou) . Programou-se para o dia seguinte um espectáculo (com entradas simbólicas) comemorativo no qual e graças a grandes diligências actuaram Grupo Coral de Portel e a Orquestra Juvenil de Ponte de Sôr (na altura do melhor no Alentejo), só que o público não compareceu no número desejado e a vergonha porque passei ainda hoje não a esqueço.
Vem tudo isto a propósito da forma abrupta como foi encerrado o Fórum Cultural do Alandroal e cancelados não só os programas que tinham lugar semanalmente como a projecção de cinema.
Senti uma mágoa tamanha quando há dias passei junto ao Fórum e vi tudo encerrado!
Verdade que, pese embora sentisse um certo orgulho quando em conversas de café dava a conhecer a programação daquele espaço, com orgulho dizia o filme X recentemente estreado já foi projectado no Alandroal, duvidava também como era possível tal acontecer. Agora sinto pena quando vejo por exemplo que localidades idênticas ao Alandroal vão projectar o “Agora” e que no Alandroal tão pouco se pode ver o “Pátio das Cantigas”.
Reconheço, após leitura da entrevista do Sr. Presidente Grilo que não era possível manter as coisas tal como estavam (a pouca afluência da população aos eventos, por mim comprovada, o que fazia um custo de 250€ por espectador).
Afinal…o ex- Presidente fez tudo para trazer para o Alandroal as condições necessárias para proporcionar com conforto e qualidade uma equiparação às grandes localidades deste Portugal do interior. Talvez exagerasse na quantidade.
A população não soube dar o devido valor, comparecendo no número desejável a tais eventos. É triste ter que colocar um comentário que diz “no Alandroal eram 50 ou 60, aqui a casa estava cheia, dançou-se e houve vários encores”.
Face a tais circunstâncias, compreendo perfeitamente que a atitude tomada pelo actual Presidente não podia ser outra. No entanto também me parece que “cortar o mal pela raiz” assim abruptamente não foi a melhor solução.
Chico Manuel
ASSIM NÃO
ASSIM SIM. ABERTO, MAS COM CONTEÚDO
Fotos:F.Tata














