quinta-feira, 30 de março de 2017

DUQUES E CENAS - Por J.L.N.


                                                 
                       TPCs? Nem sempre, obrigado

Todos os meses são bons para discutir o tema que se tem avolumado em cima das secretárias dos professores e sobre as mesas de trabalho na casa de cada aluno. Os trabalhos de casa andam na ordem do dia. Se concordo com os tão célebres e badalados TPC’s? Concordaria se prevalecesse o bom senso e houvesse uma articulação entre os docentes, de modo a não prolongarem os longos dias que os alunos passam na escola em mais duas, três ou quatro horas de ocupação intelectual, em casa, envolvendo pais, tios, avós e explicadores.

É por isso que eu, no exercício da minha profissão, muito raramente (quase nunca) mando trabalhos para casa. Porquê? Porque os alunos têm de gozar momentos de pausa e descontracção, quer sozinhos, quer com os amigos e com a família e porque nunca sei quem é que vou ter de avaliar nestas circunstâncias: se o aluno, se o pai, se a mãe, se ambos, se a avó ou até mesmo se o primo afastado, poeta de longo curso, acabadinho de regressar de Espanha, depois de umas férias merecidas em Benidorm.

João Luís Nabo (In "O Montemorense", Março de 2017)

CRONICA DE OPINIÃO TRANSMITIDA HOJE NA RÁDIO DIANA/FM

                           PREOCUPAÇÕES IBÉRICAS
Esta é uma crónica feita a partir da Galiza e no intervalo do VI Encontro Ibérico de Gestores de Património Mundial.
O tema do encontro é aliciante e actual revelando as preocupações da generalidade dos gestores dos sítios classificados, com a massificação da presença de cidadãos de passagem e os resultados perniciosos que tal presença pode constituir para a protecção dos valores patrimoniais em causa.
Das intervenções que pudemos observar há um conjunto de preocupações comuns e que têm a ver com o comprometimento da identidade dos sítios.
Esse comprometimento advém essencialmente da pressão com a criação do maior número possível de alojamentos, expulsando para fora dos Centros Históricos os cidadãos que a habitariam, durante todo o ano.
A discussão em torno destes temas revela uma enorme capacidade para detectar problemas, diagnosticar patologias, encontrar causas e prever consequências.
Afirma-se que a opção central é viajar barato ou manter as cidades vivas, para logo de seguida se questionar se o encarecimento do exercício do turismo não é uma forma de o tornar apenas acessível a uma pequena minoria que se passearia pelo património sem grandes efeitos nocivos.
Afirma-se que a gentrificação é o mal maior da presença massiva da actividade turística, para de seguida nos questionarmos sobre se foi de facto o turismo que alterou as dinâmicas de ocupação do espaço, sabendo que, na maior parte dos casos, o alojamento turístico veio ocupar o vazio, porque as dinâmicas sociais locais já lá não estavam e o edificado se encontrava devoluto.
Concluímos que a divisão dos proveitos da actividade turística é injusta e concluímos que provoca um aumento do emprego, ainda que sem qualidade para os trabalhadores.
Entendemos que este caminho acabará por matar os destinos turísticos na medida em que perdem a sua identidade, transformando-se em parques temáticos compostos por pedras antigas e representações das pedras antigas, vendidas em lojas de souvenires, para logo de seguida alguém falar no valor total do negócio para uma cidade ou região.
É preciso proteger o património e a vida das cidades, que se vão transformando em espaços onde os autóctones perdem o direito à cidade, sem espaço público para usufruir, dizemos quase em uníssono, para logo de seguida tentar encontrar um equilíbrio que evite uma decisão, provavelmente errada.
Ouvimos dizer com amargura que não há um barcelonês nas Ramblas, que eram o sítio por excelência de apropriação do espaço público pelos habitantes de Barcelona.
Ouvimos dizer que durante 300 dias por ano, há um milhão de habitações vazias na Andaluzia, construídas apenas para os cidadãos de passagem.
Ouvimos muita gente a questionar se o turismo, pode ser sustentável ou meramente compassivo.
Todos afirmámos que deve ser dada prioridade à função habitacional, mas ninguém sabe como evitar a proliferação dos alojamentos locais que têm como efeito a diminuição do peso do factor trabalho no custo do alojamento a pagar.
Em dinâmicas e volumes diferentes, os gestores dos sítios apresentam muitas preocupações com o impacto desta actividade na preservação do património e na manutenção de cidades vivas.
No meio de toda esta discussão um geógrafo e economista espanhol, Juan Liberal, fez uma intervenção que nos pôs a pensar, apontando objectivos e princípios mas, ainda assim, reconhecendo não saber qual o caminho.
Afirmou ele que o problema base esteve na busca incessante de rentabilidade da existência de património histórico, quando se começou a pensar que este servia para os desígnios da rentabilidade.
Estou a citar de cor mas não andarei longe traduzindo a sua afirmação final. “O património serve para nos fazer melhorar, a rentabilidade é uma feliz coincidência”.
Por cá, estamos ainda longe dos dramas que ouvimos descrever neste encontro mas não nos faz mal nenhum começar a reflectir sobre caminhos que os possam evitar.
Até para a semana


Eduardo Luciano


IMPRENSA REGIONAL


DIVULGAÇÃO - C.M. REDONDO


quarta-feira, 29 de março de 2017

NO ALANDROAL PODE VER (MONTE DA FONTE SANTA) UMA OBRA DESTE CONCEITUADO ARTISTA.

Documentário de Marina Watson Pelaez, Mariza Braggion e Ricardo               Vieira da Silva – Editado no  “THE ATLANTIC”





MEMÓRIAS DO LUÍS DE MATOS

         Pequena homenagem ao meu primo Alberto
Éramos praticamente da mesma idade. Ele com menos um ano do que eu. Nos nossos tempos de meninos brincávamos e fazíamos as nossas diabrices, sempre juntos. Desde esse tempo que nasceu uma cumplicidade para o resto vida. Fazíamos os nossos próprios brinquedos. Não podíamos passar um sem o outro. Naquela época, não havia brinquedos. Eram as crianças que tinham que os fazer, o que nos dava gozo. Fazíamos as nossas próprias espingardas de cana para brincar às guerras. Saltávamos as paredes das tapadas e quintais para nos escondermos atrás das mesmas, para daí atingirmos o nosso amigo ou imaginário inimigo. “Estás preso”, gritávamos e aparecíamos com ar triunfante.
Quando chegava o Natal, lá íamos nós ao musgo para o Presépio da Escola Primária. O musgo era retirado dos troncos das centenárias oliveiras do cerrado ou das paredes de xisto. Como conhecíamos muito bem o terreno que pisávamos, já sabíamos onde poderíamos ir buscar o melhor musgo. Não só porque nos dava um grande prazer mas porque queríamos apresentar o melhor que havia. Penso que queríamos que a nossa participação no Presépio fosse ao mais alto nível. Naturalmente, quem sabe se era até para contentarmos um pouco o professor Cláudio. Nessa época havia muito musgo, pois havia muita humidade. Havia anos que chovia todo o Inverno. As invernias eram grandes. Chovia meses seguidos. Lembro-me bem que chovia ininterruptamente entre os meses de Novembro e Fevereiro. Os homens não podiam trabalhar no campo para ganhar o sustento da família. Hoje, devido à incúria do homem e ao progresso, está a provocar ao aquecimento global do planeta, é o que se vê.
Vou empregar um termo muito usual.
Um mouro de trabalho. Este termo assenta perfeitamente no meu primo Alberto. Trabalhou dia e noite, como se costuma dizer. A maior parte das vezes sempre acompanhado pela sua mulher, a Joana. De madrugada, ainda mal se via, lá estavam eles a ordenhar as primeiras quinze vacas leiteiras que entretanto tinham mandado vir da Holanda. Ao princípio as vacas eram ordenhadas à mão lá na horta, e tinham que ir entregar o leite ao depósito nas Hortinhas, na sua carrinha Mazda vermelha que possuía. Mais tarde, reforçaram a dose com mais cinquenta que importaram do país das tulipas e mudaram-se para o Monte Outeiro, também de sua propriedade, porque lá na Horta já não havia espaço. Adquiriram um moderno equipamento de ordenha mecânica. Mas os trabalhos nunca acabavam, antes pelo contrário. A vida era muito dura. O Alberto era novo, tinha força, tinha saúde. Acabada a ordenha, de uma maneira geral tomava o pequeno almoço, punha o tractor a trabalhar e lá ia ele lavrar as suas terras ou de alguém que lhe pedia que fosse lavrar ou semear uma courela ou olival.
Recordo-me no início de ter as vacas, fui passar um ou dois dias com ele lá ao monte, Outeiro, onde residiam. Sempre acompanhei de perto como ele, a Joana e os filhos (quando não estavam a estudar) trabalhavam na sua actividade agrícola.
Num desse dias, estava a família reunida à hora do jantar. Vai um café e um Wisky e mais outro. A conversa estava animada.
Bem, amanhã tenho que ir para Évora, disse-lhe.
Já? Ainda só cá estás há dois dias!
Sim, que a minha vida não é a tua, desabafei.
Não. Amanhã vás ajudar-me a carregar fardos, que os gaiatos estão na escola, no outro dia vamos apanhar peixe para fazermos uma caldeta e depois já te podes ir embora.
Nem pensar. Carregar fardos? Então não vez que não tenho força para isso, compadre?
Diz-me ele:
Pronto está bem, com um ar um pouco triste mas sempre com um sorriso. Mas tens que me levar o tractor para Évora.
Olha! Então eu não digo que o rapaz não está bom da cabeça? Já não bebes mais. À não bebes não.
Sim. Levas o tractor à Lagril para fazerem a revisão.
Era Verão, mas as manhãs eram frescas.
Disse-lhe:
Tu estás maluco. Então não sabes que nunca conduzi um tractor na minha vida? Já viste que tenho que estar às nove horas no trabalho, levo duas horas até Évora, deixar o tractor na oficina, ir a pé para casa, tomar banho e estar a horas no trabalho? A que horas é que tenho de partir aqui do monte?
Tudo isto era verdade, dizia-me ele. E continuou.
Então não tens a carta de pesados?
Sim, mas nunca conduzi um tractor, não tenho prática. E voltou à carga.
Deixa-te de brincadeira. Aquilo não tem nada que saber. Empresto-te o meu blusão para não teres frio. Olha, levas também um boné para não teres frio à careca. Vás, deixas o tractor na oficina que eu depois combino para o ir buscar.
Bom, a muito custo, lá me convenceu.
Mas, por outro lado, eu também queria ter o prazer de fazer uma viagem de tractor. Queria saber como era conduzir aquele pequeno monstro. Pensei. Então se vou para Évora, que diabo, porque carga d’agua não hei-de fazer este pequeno jeito ao meu primo? Para mais é um gajo que até gosto como se fosse o irmão, que nunca tive? Acertámos então que levaria o tractor para Évora. Fomos deitar. Por volta das cinco da manhã enfiei os sapatos castanhos que tinha levado para a viagem, calça vincada, camisa de manga curta, blusão bem forte para me proteger do frio, boné da Caixa Agrícola e assim iniciei a viagem numa linda figura. Está-se mesmo a ver pelas minhas vestes. Despedimo-nos. Subi para o tractor pronto a receber a última lição de condução e tratei de me pôr a caminho em direcção Hortinhas, Orvalhos, Foros da Fonte Seca, Redondo e finalmente Évora. Em toda a viagem raspei um frio desgraçado, apesar do blusão que me havia emprestado ter dado muito jeito, mas não foi o suficiente. Foi uma viagem emocionante e única. Uma boa experiência, também. Porque é que ele havia de perder tempo, quando tinha lá tanto trabalho no monte?
Entretanto, passaram-se cerca de vinte anos. Nós nunca pensamos na doença, mas quando ela vem a sério, não há nada a fazer. O Alberto era o irmão que eu gostaria de ter tido.
Não houve cura para o teu mal. Estejas onde estiveres, os herdeiros do teu trabalho, manterão o fruto na oliveira e a bolota na azinheira. Os teus campos continuarão a produzir cereal e o teu rebanho continuará a ser alimentado e a reproduzir-se.
Algum tempo antes de lhe aparecer aquela maldita doença, ainda tínhamos brincadeiras com se fôssemos crianças. Não daquelas de brincar às espingardas mas de outra já mais próprias para a nossa idade, ou pensávamos nós que o eram. As nossas mulheres, filhos e outros familiares que por ventura estivessem presentes nos inúmeros convívios familiares, achavam muita graça. Era uma amizade genuína e diria até, legítima de uma vida. Sempre acompanhei o seu sofrimento. Mas, já na fase final da sua doença, quando lhe pegava na mão e ele me a apertava, ao mesmo tempo que me fazia carícias na mão, como a querer falar sem poder e eu, beijando-o na face ou na cabeça, já sem cabelo como eu, devido à idade e as lágrimas a caírem-me ininterruptamente, tal como neste momento, que tenho dificuldade em ver o teclado do computador. Era um grande sofrimento. Sem o querer perturbar, mas dizem que ele se devia aperceber. Ninguém podia imaginar o sofrimento e a dor que me ia na alma e que me vai marcar para o resto dos meus dias. Nunca poderei esquecer aqueles tristes momentos. Alguns poderão dizer: Mas que gajo de manteiga. A esses, simplesmente, digo: Estou-me nas tintas para vocês. É o que sinto, e pronto. Ao escrever estas simples palavras, são a melhor homenagem, sentida, que posso fazer ao meu querido primo Alberto, meu irmão.
Finalmente, para a sua esposa. Obrigado por tudo, Joana. Esposa e Mãe. Grande Mulher.
Bem haja!

Luís de Matos

CRONICA DE OPINIÃO TRANSMITIDA HOJE NA DIANA/FM

                                    A QUADRATURA DO CIRCO
A líder do bloco de esquerda um dia após a evocação da celebração dos sessenta anos sobre o Tratado de Roma, veio dizer que o país devia preparar-se para a saída do euro. Vivemos num regime que consagra na sua fundação a liberdade de expressão, por isso, somo livres de dizer o que nos apetece. Mas também devemos ser responsabilizados pelo que dizemos, sobretudo, quando aquilo que afirmamos é uma incoerência.
Com efeito, não consigo entender, nem perceber a posição do bloco de esquerda no que toca às matérias que dizem respeito à união europeia. Às segundas, quartas e sextas, são a favor dos direitos consagrados nos tratados que regulam as relações entre os países que integram a União Europeia. Nos restantes dias são contra os deveres. São, portanto, a favor dos fundos de coesão que nos são atribuídos e são contra as regras comunitárias que impõem a disciplina orçamental.
Na verdade, esta posição é reveladora de grande incoerência e de oportunismo politico por parte das forças partidárias que apoiam o governo. O PCP também não está isento de culpas nesta forma de fazer política. O pior é que estes partidos defendem a saída do euro e no limite da união europeia, todavia, não explicam aos portugueses quais são as consequências desta decisão no rendimento das famílias e das empresas. No mínimo, segundo alguns estudos, a previsão andaria na ordem dos cinquenta por cento de perda de rendimento. E, sobre isto, quedam-se muito caladinhos, porque a ignorância sempre deu alguns votos no nosso país.
Ora, de duas, uma: ou estes partidos nos estão a falar de forma séria, e, a questão é grave para a generalidades das famílias e das empresas portuguesas. Ou, o populismo vai tão longe, que, recorrem as estas matérias, só para apanhar uns votos dos mais distraídos.
Mas uma coisa é absolutamente incontornável: como é que um governo que se diz pró Europa e euro, consegue governar com o apoio parlamentar destas forças radicais de esquerda? Se isto não é um circo, é, seguramente, puro oportunismo político.



José Policarpo

DIVULGAÇÃO


DA HISTÓRIA DE VILA VIÇOSA – Textos de Tiago Salgueiro

A RODA E O PALRATÓRIO DO CONVENTO DAS CHAGAS

Na antiga portaria do espaço conventual, podemos identificar a roda e o palratório. Eram estes elementos que permitiam o contacto das monjas com o “resto do mundo”. A comunidade religiosa, era por essência, invisível… A vida no interior do convento era contemplativa e de penitência e a ligação ao mundo exterior era sempre bastante controlada.





O palratório (neste caso de duplo gradeamento) servia para as freiras conversarem com quem as procurava. As rodas eram cilindros giratórios com aberturas laterais, onde se colocavam crianças enjeitadas ou fruto de ligações "inconvenientes”. Quem entregava as crianças não era visto por quem as recebia…


De tanto ser usada, a roda acabou por se tornar legítima, chegando a ser legalizada nos finais do século XVIII.
Existiam sobretudo nos mosteiros de clausura, como era o caso do Convento das Chagas de Vila Viçosa, onde se encontrava uma comunidade de clarissas, desde a primeira metade do século XVI.

As imagens com os azulejos da segunda metade do século XVIII identificam a área exterior pública, junto da portaria e as restantes, o espaço interior do convento, área utilizada pela comunidade religiosa.





Tiago Salgueiro

terça-feira, 28 de março de 2017

O ALANDROAL EM DESTAQUE NO CORREIO DA MANHÃ

É o rio 
Guadiana que faz a fronteira do concelho do Alandroal e espanha. Conta a História que nesta região raiana do Alentejo eram constantes as invasões espanholas. Houve, por isso, a necessidade de construir o maior número de defesas para o território português. Hoje, é dos poucos concelhos com três castelos, todos de visita obrigatória. 



CRONICA DE OPINIÃO TRANSMITIDA HOJE NA DIANA/FM

                                      METÁFORAS
Não podia deixar de falar sobre as indefensáveis declarações do ainda Ministro das Finanças holandês e Presidente do Eurogrupo, bem como das reacções, talvez agora já menos exaltadas, que geraram. A polémica é, para quem ainda tivesse dúvidas, mais uma prova da importância das metáforas, e do seu uso, na vida de todos nós. E também, está visto, uma maneira de deleitar jornalistas e políticos ávidos de desviar atenções de índole necrófaga destes mesmos profissionais.
Arrumemos já a questão estilística: a metáfora usada não é bonita. Como não tinha sido aqui há uns tempos a que aproximava a concertação social com uma feira de gado, por muito que quem o tenha dito tivesse pedido as óbvias desculpas e respeitasse, efectivamente, uma e outras. O discurso político, em várias épocas de que há registo, nunca se pautou sempre e só pelo uso rebuscado e elegante das palavras. Aqui, também não há novidade.
A crítica à imagem das “mulheres e vinho” faço-a pela desigualdade de género, completamente desfasada dos tempos contemporâneos. Se tivesse usado “prostituição”, que até está, e eu concordo, a ser matéria de discussão, regulamentação e despenalização em Portugal, estaria a ser igualmente moralista mas não sexista. Acrescento que a metáfora, assim corrigida e polida para “safe sex e bom vinho”, pode até ser um bom slogan para atrair investimento na região mediterrânica onde as safras são normalmente de excelência e as relações humanas calorosas. Tudo qualidades, portanto, e que podemos devolver ao senhor holandês. Ele sabe do que fala, também nesta área, porque tem lá na terra dele um Red District que é atracção turística, bem como umas coffee-shops que lhe dão algum nacional reconhecimento identitário e económico.
Relativamente ao essencial da questão – o mau uso de dinheiros públicos europeus por determinados países – o Ministro e Presidente de um Eurogrupo, em vésperas de sair dos seus cargos, a bem ou a mal, sabe do que fala, mas escolhe só falar do que lhe interessa. Qualquer pessoa desentendida em políticas públicas perceberá muito bem a metáfora e, se calhar, até já a usou caso tenha a felicidade de ter tido para emprestar e a infelicidade de ter amigos mais avessos às economias domésticas.
A indignação dos políticos responsáveis de cada nação ofendida é compreensível, e pode sê-lo realmente, se comprovarem que os fundos europeus foram bem geridos e aplicados e, portanto, a metáfora não se lhes aplica. Parece-me que é coisa que deve ser possível fazer, com tantos formulários e relatórios a que estas medidas obrigam. Força! Estou convosco nessa luta! Acho até que o senhor holandês, e para vermos o lado positivo da coisa, pode contribuir para o incremento (ou talvez seja mesmo implementação) da prática assídua e generalizada da prestação pública de contas, que tem em inglês a bonita palavra accountability. Não fazia mal nenhum a muita gente e instituições…
Ah, claro! Depois há a questão da solidariedade, valor em que assenta a União Europeia e que, essa de facto, tem estado muito maltratada, não só em discursos de palanque ou púlpito, mas em atitudes expressas em documentos oficiais. Mas também devo dizer que, para quem já ouviu um Presidente de Câmara comunista afirmar que não lhe parecia justo que Câmaras bem geridas contribuíssem para um fundo financeiro de socorro a autarquias endividadas, nada disto é novidade. E usando a expressão que alguns políticos costumam utilizar para acabar com conversas: quanto a este assunto estamos conversados! Até para a semana


Claudia Sousa Pereira

RUBRICA DE CINEMA - Colaboração Dr. Egas Branco

       

Homenagem do Al Tejo a Domingos Maria Peças


                   
               TERRA DE NINGUÉM, de Salomé Lamas

Antes de ir ver o ELDORADO XXI, a segunda longa-metragem da Salomé Lamas e o filme actualmente em exibição dos que me interessam muito que ainda não vi, aqui fica uma pequena nota escrita a quando da exibição da sua primeira longa-metragem. 
A propósito, quanto aos hiper propagandeados "la-la" hesito em gastar o meu pouco tempo. É que gosto demasiado dos grandes clássicos do Musical...
                    TERRA DE NINGUÉM, de SALOMÉ LAMAS
 1-Já vi e achei interessante, também sob o aspecto da linguagem, o muito aplaudido "Terra de Ninguém", documentário da jovem realizadora, Salomé Lamas (na foto), primeiro prémio do DOCLIS de 2012. 
 Curiosamente assisti sozinho, numa sala completamente vazia dum multiplex, num horário nobre. Disse-me o pessoal de serviço que, em sessões anteriores, alguns espectadores abandonaram a sala ao intervalo
 Porque a obra é incómoda? Não sei. É a entrevista a um mercenário e assassino, nas próprias palavras do retratado. 
 Mas merece uma reflexão, pelo que revela aos menos informados, que o são por ignorância, por preconceito, às vezes por desmazelo, sobre a realidade que os cerca - os crimes contra a Humanidade cometidos pelas tropas ocupantes na Guerra Colonial Portuguesa, os atentados encomendados pela CIA na América do Sul, cujo objectivo era o terror, por isso tinham também por vezes por alvos os próprios apoiantes, os atentados dos GAL, em Espanha, encomendados durante o governo de Felipe Gonzalez. As seguranças de Kaulza e Sá Carneiro, de que o entrevistado fez parte.
 E obviamente para tentarmos perceber o que pode levar um ser humano a um trajecto de vida como este, que em fase terminal o transforma num sem-abrigo, debaixo de um viaduto qualquer de uma grande urbe (Lisboa).
 2-Uma longa entrevista a um mercenário e assassino, como ele próprio se define, admitindo que tudo o que conta é verdade. E pelos piores motivos, o que ele já não consegue admitir. 
 O Homem pode transformar-se num ser violento, sem piedade, por motivos vários. E ninguém estará à partida, livre disso. 
 O ódio, em primeiro lugar. O instinto de defesa em segundo lugar. E também o pode, por pensar que está do lado dos que têm razão, porque lhe disseram que os outros são “maus”. 
 O personagem deste documentário quer justificar-se assim. É que passou de soldado, voluntário é certo, mas integrado num exército regular, em guerra, injusta é certo, para alguém que é pago para combater e matar sem escrúpulos. Em ambos os casos actuou com selvajaria. Parece que na sua cabeça não existiram muitas dúvidas, segundo diz. Será talvez essa a justificação que julgam possível, os que participaram em massacres e crimes contra populações indefesas durante as Guerras Coloniais. E infelizmente já ouvi justificações semelhantes, que me impressionaram.
No entanto ele terminará a sua atribulada existência como sem-abrigo, depois de preso e condenado a 15 anos, em Espanha, por um único crime entre as centenas (?) de assassinatos que terá cometido, como soldado e mercenário, sempre do lado das forças de repressão, dos poderosos, contra os que lutaram pela liberdade dos seus povos, ou depois, como assassino contratado para matar, ainda pelos mesmos poderes (episódio dos GAL, criados durante o governo de Felipe Gonzalez, contra a ETA). E depois de ter sido segurança de Kaulza de Arriaga e de Sá Carneiro, segundo diz... Como se deixasse de ser útil para os que o utilizaram. 
 Um dos paradoxos desta existência seria o de, a acreditar no que ele conta, ele ter afinal alguma ética, já que, mesmo sendo capaz de matar sem pena nem remorso e cometendo as maiores barbaridades, na África Colonial Portuguesa ou em Salvador. (lembrar a propósito o impressionante e magnífico “Romero”, de John Duigan, na altura em que membros da “Igreja dos Pobres” apoiavam a guerrilha (Arcebispo Romero), filme que é a visão do outro lado da barricada, do lado das populações em luta contra a miséria, contra a fome, contra a repressão dos poderosos, relembrando a morte da guerrilheira, eventualmente assassinada por gente como este mercenário português ao serviço da CIA, segundo ele diz) 
 Ética por se recusar a matar os familiares das suas vítimas, mas só como assassino contratado, porque nas guerras, coloniais principalmente, velhos, mulheres e crianças eram abatidas também (Angola). O racismo também pesaria aí? 
 O que impressiona no filme de Salomé Lamas é a magnífica encenação, aparentemente muito económica de meios, e muito directa, que a jovem realizadora criou para a entrevista. A ideia também de cortar as perguntas, substituindo-as por um número, sequencial, que separa as respostas. Nunca ouvimos a voz de quem pergunta. Apenas breves comentários, da própria Salomé, entre cada um dos 5 ou 6 episódios, temporalmente bem definidos, que constituem o documentário. Esta forma acaba por nos ligar mais ao entrevistado e nos fazer quase acreditar que se trata afinal de um ser humano igual a muitos outros, com algumas fragilidades, com todas as suas limitações e contradições (a infância, feliz, em África). Nisso a obra está de facto muito conseguida.
 Os que defendem o filme referem-se obviamente a este aspecto e também ao facto dele acabar por mostrar que a Guerra Colonial, feita pelo governo português, foi muito mais cruel do que as versões oficiais, ainda hoje, querem fazer crer. É que não ignora os selváticos massacres cometidos pelas tropas coloniais, as aldeias queimadas, e as suas populações inteiras dizimadas, e as cabeças cortadas penduradas como troféus, nos cintos ou nas viaturas. Em Wiriamu, Nambuangongo ou noutro local qualquer. 
 Embora julgo que não foi esse objectivo principal de Salomé. Mostrar sim as contradições do ser humano. Que parece, em certas ocasiões, capaz de sentimentos vulgares, solidários até (a cena final dos sem-abrigo, debaixo da ponte) e ao mesmo tempo capaz de se deixar levar pelo ódio, pela irracionalidade, pelo interesse (o dinheiro – o episódio de Monte Carlo) e cometer com indiferença as maiores atrocidades contra os seus semelhantes.
 A justificação de um criminoso? Julgo que não. Antes um olhar para os que caem para o outro lado da barricada, por falta de inteligência e depois, utilizados, já não poderão regressar...
Egas Branco


DIVULGAÇÃO

                                      XXX

segunda-feira, 27 de março de 2017

VASCULHAR O PASSADO

Uma vez por mês Augusto Mesquita recorda-nos pessoas, monumentos, tradições usos e costumes de outros                                   tempos.
                                             Montemor-o-Novo medieval
                                     O primeiro foral foi concedido há 814 anos

 Quando o território português começou a expandir-se, ainda no tempo do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, houve a necessidade de destacar algumas localidades a quem era atribuído foral. Estas localidades, passavam a ser “sede” de um território à sua volta, a que se chamava “concelho”. Foral é um documento emanado do monarca pelo qual se constituía o concelho, se regulava a sua administração, e se indicavam os seus limites e privilégios.
Um pelourinho estava directamente associado à existência de um foral. Era erguido na praça principal da urbe quando o foral era concedido, e simbolizava o poder e autoridade municipais, uma vez que era junto ao pelourinho que se executavam sentenças judiciais de crimes públicos que consistissem em castigos físicos. Do nosso pelourinho, transferido do Castelo para ser colocado junto aos actuais Paços do Concelho, e destruído em data que se desconhece, apenas existem fotos.
            O foral de S. João da Pesqueira, outorgado por Fernando II de Leão em 1505, é o mais antigo foral respeitante ao território português. Mas, o primeiro foral escrito sobre pergaminho em latim, foi concedido no ano de 1179 à cidade de Lisboa por D. Afonso Henriques. Vinte e quatro anos depois, foi a vez de Montemor-o-Novo receber o seu foral. Este documento real, concedeu terras baldias para uso colectivo da comunidade montemorense, regulava impostos, portagens, taxas e multas, e ainda, estabelecia direitos de protecção e obrigações militares para o serviço real. Este foral, foi confirmado por D. Afonso II em 1218.
            Com D. Manuel I procedeu-se a uma reforma dos forais que, a partir deste período passaram a ser meros registo de isenções e encargos locais. O novo  foral de Montemor-o-Novo, concedido por D. Manuel I, ocorreu em 15 de Agosto de 1503 (infelizmente, este documento desapareceu dos Paços do Concelho, e foi posteriormente adquirido pela Casa de Bragança a um alfarrabista em Lisboa).
            Com o advento do liberalismo foram promulgadas várias leis tendentes à supressão dos forais, até por fim serem abolidos pelo Decreto de 13 de Agosto de 1832, confirmado pela Carta de Lei de 22 de Junho de 1846.
            Segue-se o texto do Foral de D. Sancho I à Vila de Montemor-o-Novo em 15 de Março de 1203:                                       
                Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amen.
            Eu, Rei Sancho, filho do grande Rei Afonso, juntamente com meus filhos, Rei Afonso, Rei Pedro, Rei Fernando, Rainha Teresa e Rainha Dulce, para honra de Deus, da sempre Virgem Santa Maria e de Todos os Santos, resolvemos povoar Montemor. Tanto para os presentes como para os vindouros vos concedemos o Foral: que duas partes dos cavaleiros vão para o fossado (1) e a terça parte permaneça na vila, fazendo fossado uma vez no ano. Aquele que não for ao fossado, pague pelo foro 5 soldos como fossadeira. E por homicídio pague 100 soldos ao palácio. E por casa rompida (invadida) com armas, escudos e espadas pague 300 soldos e a 7.ª parte para o palácio. E aquele que roubar, pague 9 por um e tenha o acusador 2 partes e 7 partes para o palácio. E mulher que forcem a ela gritando disser que foi forçada por aquele, e ele negar, dê ela declaração de 3 homens tais como aqueles: ele jurará com 12 testemunhas e se não tiver outorgamento, jurará ele só; e se não puder jurar, pagar-lhe-á a ela 300 soldos e a 7.ª parte para o palácio. E a testemunha mentirosa e o declarante mentiroso pagará 60 soldos e a 7.ª parte para o palácio e duplicará a multa. E aquele que ferir no concelho, no mercado ou na igreja, pagará 60 soldos, metade para o palácio e metade para o concelho. E da metade do concelho, a 7.ª parte para o palácio. E o homem que for gentil ou herdador (2) não seja meirinho (3), e quem na vila penhorar (4) o fiador, e o que for ao monte penhorar, duplicará a penhora e pagará 60 soldos e a 7.ª para o palácio. E aquele que não comparecer em juízo e atirar a penhora para o saião (5), pagará um soldo ao juiz. E aquele que não for ao apelido (chamamento), quer seja cavaleiro, quer seja peão (6), salvo aqueles que estão em serviço alheio, pague: 10 soldos o cavaleiro e 5 soldos o peão, aos vizinhos (7). E aquele que tiver uma propriedade e uma junta de bois e 40 ovelhas, um burro e dois leitos, comprará um cavalo. E aquele que quebrar o sinal com sua mulher, pague um soldo ao juiz; e a mulher que deixar o seu legítimo marido, pagará 300 soldos e a 7.ª para o palácio. E aquele que deixar sua mulher pagará um denário ao juiz. E aquele que montar um cavalo alheio durante um dia pagará um carneiro e se mais, pague o aluguer: por um dia 6 denários, por uma noite um soldo. E o que ferir com lança ou espada pagará 10 soldos. E se passar para outra parte, pagará 20 soldos ao queixoso. E quem ferir um olho, um braço ou um dente, por cada um dos membros pagará 30 soldos ao lesado e ele dará a 7.ª ao palácio. Aquele que ferir a mulher diante do seu marido pagará 30 soldos e a 7.ª para o palácio. E quem mudar um marco alheio para a sua terra, pague 5 soldos e a 7.ª para o palácio. E quem quebrar um marco alheio, pague 5 soldos e a 7.ª parte para o palácio. Aquele que matar um trabalhador alheio, responda por homicídio ao seu amo. Da mesma forma, do seu hortelão, caseiro (que lhe paga quartos), do seu moleiro e do seu solarengo. Aquele que tiver vassalos no seu solar ou na sua herdade; não sirvam eles a outros homens, mas somente ao dono do solar. As tendas, os moinhos, os fornos dos homens de Montemor sejam isentos de foro. Os militares de Montemor sejam levados a juízo só perante os potestados e infanções (8) de Portugal. Os clérigos, porém, tenham os costumes dos militares. Os peões sejam levados a juízo pelos cavaleiros vilãos de outra terra. Aquele que vier ao seu vizinho como vozeiro (9) por um homem de fora da vila, pague 10 soldos e a 7.ª ao palácio. O gado de Montemor não seja sujeito a montado (10) em nenhuma terra. E o homem a quem perigar o cavalo, embora tenha outro, seja dispensado até ao fim do ano. O mancebo que matar um homem e fugir para fora da vila, o seu amo não pague por homicídio. Por todas as questões do palácio, o juiz seja vozeiro. Quem penhorar na vila, acompanhado do saião e lhe tirarem os penhores, prove-o legalmente, e o saião, reunindo indivíduos de 3 freguesias, penhore com eles no valor de 60 soldos, metade dos quais serão para o concelho e a outra metade para o queixoso. Os barões (11) de Montemor não sejam dados em serviços. E se os homens de Montemor tiverem questões com homens de outra terra, não corra entre eles juramento de firme (12) mas corra por exquisa (13) ou repto (14). E dos homens que queiram permanecer com o seu gado nos limites de Montemor recebam deles montado: do rebanho de ovelhas 4 carneiros; da manada das vacas, uma vaca; este montado é pertença do concelho. E todos os soldados que estiverem no fossado ou na guarda, todos os cavaleiros que se perderem na algara (15) e na lide, primeiramente, seja dado aos herdeiros destes (o valor do cavalo) sem a quinta parte e só depois nos dareis o quinto directamente. E todo o homem de Montemor que encontrar homens de outras cidades cortando ou levando madeira dos seus montados: apreenda-se-lhes tudo o que se encontrar, sem pena. De azarias e de guardas ser-nos-á dada a quinta parte sem descontos. Todo aquele que fizer penhorar ou roubar gado doméstico, pagará 60 soldos ao palácio e duplicará o gado ao seu senhor. Dizemos em verdade e sempre reafirmamos que todo aquele que penhorar a mercadores e viandantes cristãos, judeus ou mouros, a não ser que seja fiador ou devedor, pague 60 soldos ao palácio e duplique o gado que fez perder ao seu dono. E além disso, pague 100 morabitinos pelo couto (16) que invadiu; o rei tenha metade e o concelho a outra metade. Se alguém vier á vossa vila roubar alimentos ou qualquer outra coisa e aí for morto ou ferido, não pague por isso qualquer multa, nem os seus parentes sejam considerados como homicidas. E se com queixa disso vier ele próprio ao rei ou ao senhor da terra, pague 100 morabitinos, metade para o rei e metade para o concelho. Mandamos e concedemo-vos que, se alguém foi ladrão e já deixou de o ser, há um ou dois anos, se for ou vier a ser incriminado por qualquer coisa que cometeu, não seja considerado como ladrão: mas se é ladrão e foi ladrão, pereça completamente e sofra a pena de ladrão. E se alguém for reincriminado por furto e não é, nem foi ladrão, responda pelos seus foros. Se algum homem roubou a filha alheia contra a sua vontade, entregue-a aos seus pais e pague-lhes 300 morabitinos e a 7.ª para o palácio e seja julgado por homicida. Acerca da portagem (17): portagem da carga de cavalo de panos de lã ou de linho, um soldo; do fardo de lã, 1 soldo, do fardo de fustão 5 soldos; do fardo de panos de cor, 5 soldos; da carga de pescado, 1 soldo; da carga de burro, 6 denários; da carga de mouros de coelhos, 1 morabitino, portagem de cavalo vendido para açougue, 1 soldo; pela mula, 1 solo; do burro, 6 denários; do carneiro, 3 medalhas; do porco, 2 denários; do furão, 2 denários; da carga de pão e vinho, 3 medalhas; da carga do peão, 1 denário; do mouro que tenham vendido no mercado, 1 soldo; do mouro que se libertar, a décima; do mouro que se combina com seu senhor, a décima; do couro da vaca e da zebra, 2 denários; do couro do porco e do veado, 3 medalhas; da carga de cera, 5 soldos; da carga de azeite, 5 soldos; esta portagem dos homens de fora da vila, será a terça parte para o hospedeiro, e duas partes para o rei. Eu, Rei Sancho, juntamente com meus filhos, confirmamos e assinamos esta carta. Todo aquele que não quiser cumprir esta carta, seja maldito e excomungado. Amem. Feita a carta no mês de Março. Era de 1241. À qual estiveram presentes, Martinho, Arcebispo de Braga, confirmante: Martinho Bispo do Porto, conf.; Dom Pedro Bispo de Lamego, conf.; Dom Nicolau Bispo de Viseu, conf.; Dom Pedro, Bispo de Coimbra, conf.; Dom Soeiro, Bispo de Lisboa, conf.; Dom Pelágio, Bispo de Évora, conf.; Afonso Mendes, pretor de Santarém, conf.; Egas Pelágio, conf.; Rodrigo Viegas, conf.; João Gonçalves, conf.; Dom G. Mendes, mordomo-mor da cúria, conf.; Dom Mar, Fernandes, porta bandeira do Rei, conf.; Dom João Fernandes, copeiro do senhor Rei, conf.; Dom Rodrigo Mendes, conf.; Dom Pelágio Soares, conf.; Pelágio Pedro, pretor e povoador do mesmo lugar, test.; Pedro Nunes, test.; Fernando Nunes, test.; Pedro Gomes, test.; Juliano, notário da cúria.
(1)       Fossado – serviço militar a que se encontrava obrigada a população vilã e cuja prestação lhe era erigida segundo as disposições exigidas pelo foral ou pelo costume da terra.
(2)       Herdador – na terminologia da época significa normalmente aquele que detinha o domínio útil da terra perpétua e hereditariamente, embora o domínio directo pertencesse ao rei.
(3)       Meirinho – agente do rei investido de poderes latos, para, em nome do monarca, proceder à cobrança das taxas dos impostos e administrar a justiça presidindo ao tribunal e sentenciando.
(4)       Penhorar – apreender alguma coisa.
(5)       Saião – funcionário medieval encarregado de executar as sentenças judiciais.
(6)       Peões – elementos da classe popular situados imediatamente abaixo dos cavaleiros-vilões. Englobavam proprietários rurais de odestos recursos, pequenos comerciantes ou simples artífices.
De facto, os peões constituíam a classe verdadeiramente tributária, onerados como estavam, com um sem número de encargos.
(7)       Vizinhos – considera-se vizinho aquele que é morador no concelho, com casa, mulher e gado.
(8)       Infanções – entre os séculos XI-XIV é considerado como garau 2.º da nobreza, que vem depois do rico-homem e antes do cavaleiro.
(9)       Vozeiro – no período medieval vozeiro era o advogado dos litigantes.
(10)   Montado – imposto que existia nos concelhos do reino, durante o século XIII.
Nos forais deste tipo (Évora-Avis) só era pago pelos estranhos que trouxessem os seus gados no termo do concelho.
(11)   Barões – o vocábulo barões não é empregue como título nobiliárquico ou de nobreza; significa homem poderoso;  neste caso, refere-se aos moradores de Montemor. Este foi um dos maiores privilégios concedidos aos habitantes de Montemor, pois representa a autonomia e independência da vila, que ficou sempre pertença do Rei, não podendo ser integrada em qualquer senhorio.
(12)   Firme – juramento prestado de que não se contendia em juízo por ódio, interesse,  paixão ou vingança, mas só pela verdade e justiça da causa.
(13)   Exquisa – forma de inquérito judicial utilizado nos primeiros tempos da nossa história; consistia em mandar-se proceder para elucidação do tribunal, a inquirições in loco.
(14)   Repto – meio de defesa judicial, que consistia em desafio (duelo) por ofensas recebidas.
(15)   Algara – expedição militar, assalto, combate executado por um grupo de cavaleiros no território mouro.
(16)   Couto – território imune e defeso; implicava normalmente como privilégio mais importante a proibição de entrada de funcionários régios na terra coutada.
(17)   Portagem – imposto que incidia sobre a compra e venda de mercadorias; pagava-se de todos os produtos entrados em cada concelho para aí serem vendidos.

Augusto Mesquita
Março/2017

DIVULGAÇÃO - PORTEL

                             Congresso das Açordas

A CRONICA DE OPINIÃO TRANSMITIDA HOJE NA DIANA/FM

                                    PROTEGER A DEMOCRACIA
Estará a democracia em perigo? Considero que sim. Os elevados níveis de abstenção, as frequentes expressões “os políticos são todos iguais”, “votar num ou noutro dará no mesmo” ou “para mim não há diferença entre esquerda e direita” são indicadores que algo corre muito mal na nossa democracia.
Não, não acho que os políticos (não seremos todos nós políticos?) e os partidos são todos iguais, mas alguns partidos e alguns políticos e eleitos têm contribuído, em grande medida, para este perigoso afastamento entre os cidadãos e as governações nacionais e locais. Cada vez que se desrespeitam os programas que foram sufragados ou as promessas feitas dá-se um importante contributo para uma morte lenta da democracia.
Vejamos o exemplo da governação autárquica em Évora. Em 2013, a CDU ganhou a Câmara Municipal de Évora com maioria absoluta pondo fim a uma gestão calamitosa do PS. Muita era a esperança dos eborenses depositada neste novo ciclo. Os eleitos da CDU apresentavam-se com um programa arrojado e próximo da população. Passaram quase quatro anos e, infelizmente, as promessas ficaram na gaveta e a governação próxima tornou-se numa governação opaca e distante que se traduz, naturalmente, em critérios de gestão muitas vezes duvidosos.
Atentemos o caso da política para a cultura. A CDU dizia fazer falta uma “nova gestão que redefinisse a cultura e a educação como vectores estratégicos para a cidadania, para o desenvolvimento local, para a afirmação da nossa identidade e para a diferenciação de Évora”, e tanta razão tinham. Materializavam esta ideia em torno de um grande objectivo: a elaboração e concretização de um Plano Estratégico Cultural que envolvesse a população e todos os agentes culturais do concelho. Passados quase 4 anos, o que fica? Nada, ou melhor fica alguma coisa, mas muito distante do prometido.
As reuniões tidas no início do mandato com todos os agentes culturais rapidamente se esfumaram (há mais de dois anos que os agentes culturais não reúnem com o município) e o plano estratégico ficou na gaveta. Parece não ter sido feito nada, não é? Errado. Foi feito trabalho, trabalho opaco e sempre com os mesmos agentes culturais. Foi sempre dito que não havia possibilidade de apoio directo aos agentes culturais, dados os constrangimentos financeiros, mas era prometida uma nova era, de trabalho conjunto e participado. O trabalho nunca chegou a ser conjunto, nunca chegou a ser participado, e passados quase 4 anos fica a clara ideia que a cultura funcionou sempre em torno de alguns, deixando muitos outros de fora.
O caso do relacionamento financeiro entre o Município de Évora e o CENDREV é paradigmático. E quero, antes de continuar, reconhecer total mérito ao CENDREV pelo trabalho que tem desenvolvido no Concelho ao longo de décadas. Mas o CENDREV não é estrutura única, como não são únicos outros agentes culturais. Aliás, se atentarmos à maior parte dos agentes culturais do Concelho veremos que a maior parte vive com a corda no pescoço, sem qualquer apoio nacional ou local. E enquanto muitos tentam sobreviver, o município de Évora, no espaço de dois anos, e tendo em conta apenas a informação pública, adjudicou mais 160 mil euros em serviços ao CENDREV, ao mesmo tempo que dizia a outros agentes culturais que lhes era impossível apoiá-los.
A política para a cultura, aliás, como a política em geral, não pode ser a que favorece só alguns, que olha a cores ou amiguismos, que deita fora promessas e programas de governação. Sim, sei da dureza destas palavras, mas não chegam a ser tão duras quanto as acções que destroem, diariamente, os valores da democracia.
Merecemos mais! Sem medo, de cabeça levantada, exijamos isso a cada dia!
Até para a semana!


Bruno Martins