terça-feira, 24 de janeiro de 2017

LUGARES COM HISTÓRIA EM VILA VIÇOSA - Por Tiago Salgueiro

         Hoje Tiago Salgueiro dá-nos a conhecer património com história

                                           TORRE DO CABEDAL 
Um importante e “quase” desconhecido património de São Romão (Ciladas)
Propriedade situada nos confins da freguesia, no limite do concelho de Vila Viçosa com o concelho de Elvas, a Herdade da Torre do Cabedal está a cerca de 5 km da antiga freguesia de Ciladas, pela estrada que faz a ligação entre São Romão e Elvas.
Na Idade Média, quer a Herdade da Torre do Cabedal, quer a vizinha propriedade de Pomar D’El Rei (de que falaremos noutro artigo) faziam parte integrante do património da Casa Real, com a designação de Reguengo de Maya Cabedal, estando delimitadas a sul com a via pública, a oriente com as vinhas da Coroa e a norte pela Ribeira de Chinches.
Diogo Egas recebeu do Rei D. Afonso II (1211-1223) uma carta de foro que está exarada no Livro 1º da chancelaria deste monarca, na folha 113, em que se refere o direito de sesmarias do sítio, sendo portanto este o seu primeiro lavrador conhecido.
Trata-se, portanto, de uma área referenciada bem antes do primeiro foral atribuído a Vila Viçosa, no reinado de D. Afonso III, em 1270.
No reinado de D. Fernando I, foi doada a Fernão Godim, que a deixou à sua viúva Teresa Fernandes. Desta passou para a sua sobrinha Catarina Gil, casada co Gil Fernandes, natural de Campo Maior, vassalo do Rei, que fora armado cavaleiro na conquista de Ceuta, em 1415. Este monarca confirmou a posse da propriedade em carta de Almeirim, datada de 8 de Fevereiro de 1425.
Por carta régia de 1464, passou ao domínio de Mem Rodrigues de Vasconcelos, cavaleiro que a obteve a pedido do 3º Conde de Vila Real e Capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses.
Passou posteriormente para a posse de D. Isabel Fernandes.
Esta senhora era viúva de João Roiz Pessanha, morador em Elvas, onde fez a doação da propriedade ao seu filho Manuel Pessanha, segundo escritura de 1472, confirmada posteriormente em Sintra pelo Rei D. Afonso V.
Anos depois era seu proprietário o almirante de Portugal, Manuel Pessanha, primeiro, por doação de D. Afonso V em 1475 e confirmada, ulteriormente por D. João II e D. Manuel I, esta chancelada em Torres Vedras no ano de 1496, em carta redigida pelo escrivão André Pires.
É ao fidalgo Manuel Pessanha que se deve atribuir a fundação das casas torreadas de Cabedal e Pomar D’El Rei. Era um nobre de confiança do Rei D. João II e, para além dos direitos usufrutuários da Mouraria de Elvas, foi provido da alcaidaria de Vila Boim, aquando da execução do 3º Duque de Bragança, D. Fernando II.
No reinado de D. João III, era senhor destas terras Ambrósio Pessanha, supostamente filho do anterior.
A análise das construções arcaicas que subsistem na Torre do Cabedal revelam as características da época manuelina e da arquitetura dos grandes lavradores fidalgos dos finais do século XV e inícios do século XVI, período que imprimiu aos solares rústicos alentejanos uma originalidade singular na arte portuguesa.
Como se pode ver na imagem, ainda hoje subsiste uma torre manuelina de grossa alvenaria rebocada, com 10 metros de altura e 7.70 de largura, envolvida em casario de construção posterior. A primitiva construção tinha uma cortina de ameias e uma pequena torre cónica que rematava a escadaria interna.
A única abertura antiga, dirigida a norte é formada por um elegante balcão de piso nobre, com arco tribolado, à mourisca e jambas chanfradas.
O acesso da torre faz-se por um vasto pátio. O interior da torre está coberto por abóbadas abatidas do período manuelino.
Toda esta área da Freguesia de São Romão é muito fértil em descobertas arqueológicas, nomeadamente nas Herdades da Aboboreira, Pomar D’El Rei e Torre do Cabedal, onde mesmo no extremo do casario do monte se descobriram em 1920 vários mosaicos romanos de decoração zoo-antropomórfica e lápides latinas, que foram depositadas no antigo Museu de Arqueologia de Elvas.
No século XIX, um correspondente de Leite de Vasconcelos, Lereno Antunes, residente em Elvas e que foi rendeiro da Torre do Cabedal, dá conta da existência de uma grande villa romana, onde encontrou mosaicos e um balneário romano bem conservado. Foram iniciadas neste período algumas escavações, mas os levantamentos não correram de feição e muitas peças foram fragmentadas, impossibilitando a sua reconstituição. Penso que este acervo se encontrará nas reservas do antigo Museu Arqueológico de Elvas.
Em 1970, foram iniciadas no local escavações coordenadas cientificamente pelos arqueólogos do Museu Nacional de Arqueologia, nomeadamente o Dr. Fernando de Almeida e pelo Dr. José Morais Arnaud, que identificaram um povoado neolítico.
Em 1977 estavam a descoberto os alicerces de importantes edificações de uma vila luso-romana, numa extensão longitudinal que ultrapassava os 60 metros de comprimento.
O Professor e Arqueólogo André Carneiro considera que a Torre do Cabedal “é um dos mais monumentais e ignorados sítios arqueológicos do Alto Alentejo”. Refere que a villa romana se encontra sob a atalaia (torre manuelina), convertida em casa de habitação.
A fundamentação da candidatura de Vila Viçosa a Património Mundial também deve basear-se, na minha modesta opinião, nos estudos de índole arqueológico que demonstram a ocupação do território concelhio desde, pelo menos, o período romano.
Seria importante avançar com pesquisas mais detalhadas sobre aquilo que poderá ainda existir na Herdade da Torre do Cabedal em termos arqueológicos, assim como uma análise das consequentes construções do período manuelino.

FONTES :
CARNEIRO, André – Um primeiro olhar sobre o povoamento romano no concelho de Vila Viçosa, Revista de Cultura Callipole, nº 21, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2013.
ESPANCA, Túlio Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Évora, Zona Sul, vol. I, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978.


Sem comentários: