terça-feira, 7 de abril de 2020

ERA ASSIM NA CORTE DE LUÍS XIV (2)

O LUXO QUE ENGANA: A IMUNDICE DO PALÁCIO DE VERSALHES DURANTE O REINADO DE LUÍS XIV
Conhecida por sua extravagância, a corte do monarca tinha uma rotina reprovável — que vão contra qualquer hábito de higiene atual
Frente do Palácio de Versalhes - Wikimedia Commons

Apesar do luxo exorbitante que caracterizava a construção e a vida no Palácio de Versalhes, que iam, inclusive, em contramão com a situação que a população francesa vivia, o local não era sinônimo de higiene. A própria corte tinha dificuldade em seguir hábitos, que hoje achamos normais, necessários para uma convivência saudável.
Apesar do mito que diz que o Rei Luís XIV tomou somente três banhos ao longo de toda sua vida, o monarca se banhava em dispositivos portáteis como uma forma de prazer com suas amantes do que propriamente para se limpar. Para a Madame de Montespan, o Rei Sol tinha uma banheira octogonal com água parada. 
Os súditos que moravam no palácio não tinham seus próprios banheiros, então era frequente que eles tomassem o que conhecemos hoje como "banhos de gato", geralmente com panos secos ou com álcool, mas sem se banhar propriamente.
As camisas do rei e dos súditos nunca eram lavadas. Feitas principalmente de veludo ou seda, as peças eram artigos de luxo e custavam muito — chegando, inclusive, a constarem em testamentos — e o material poderia estragar caso fosse lavado. Ou seja, o cheiro ficava impregnado no pano.
Em livros farmacêuticos da época, diversas eram as receitas para bálsamos e tinturas que serviam para acabar com mau hálito e o chulé. Os dentes eram cuidados o máximo possível, mas a maioria das medidas não eram tão eficazes.  Além disso, o açúcar era um artigo de luxo, que a nobreza o consumia em excesso, sendo responsável por inúmeros casos de cáries.
O rei e sua mulher, Maria Teresa, não tinham bocas muito saudáveis. Os dentes da rainha eram ruins já no momento em que se casaram, quando ela tinha 22 anos, e o Rei tinha um péssimo hálito, muito por conta de uma particularidade em sua mandíbula, que fez com que já nascesse com dois dentes na boca.
O Rei Sol, Luís XIV / Crédito: Wikimedia Commons
O inevitável fedor dos ricos era amenizado com fortes perfumes, geralmente vindos de origem animal. Os sachês de perfume eram costurados nas próprias roupas, preferencialmente nas axilas e coxas.
Luís, quando mais jovem, usava perfumes de maneira desenfreada, porém, com o passar dos tempos, sua preferência por cheiros menos fortes começou a florescer, e passou a ficar enjoado cada vez que sentia o aroma. Certa vez, Madame de Monstespan não teve sua entrada permitida na carruagem real por conta de seu forte aroma de perfume e creme corporal.
A essência predileta do Rei Sol era, certamente, a de flores de laranjeira. O cheiro era tão amado por Luís, que não somente o seu quarto tinha o doce aroma, como também as fontes das ruas tinham adicionadas esse cheiro.
Os perfumes tinham outra função fundamental no Palácio, o de disfarçar os aromas sórdidos vindos dos banheiros. O cheiro dos banheiros comuns era tão insuportável, que muitos residentes de Versalhes aliviavam suas necessidades em qualquer outro canto, além dos cachorros do palácio que não tinham muito pudor em escolher onde iriam defecar.
Os quartos abrigavam potes dedicados aos excrementos dos residentes, que eram simplesmente jogados pelas janelas pelas mãos dos criados, uma vez que as latrinas eram muito distantes dos palácios. Em visitas oficias, os nobres poderiam usar esses vasos sanitários móveis, mas muitas vezes não havia o suficiente para todos. A solução era fazer as necessidades atrás de cortinas e esperar que um criado fosse limpar.
Apesar dos excessos da realeza com os luxos de quem vivia no Palácio, a higiene realmente não era o ponto forte do lugar. Luís morreu aos 76 anos, bem além da expectativa da época, e, certamente, tomou mais do que três banhos nesse tempo todo.

CAIO TORTAMANO PUBLICADO EM 18/03/2020  


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