quarta-feira, 23 de outubro de 2019

RECORDAÇÕES

Durante a passada Feira da Luz, aqui em Montemor, tive o privilégio de assistir a uma merecida homenagem promovida pela Câmara Municipal, a um homem que pelo legado que nos deixou no capítulo da poesia popular,  na luta contra o fascismo, no jogo das damas (várias vezes campeão distrital, e outras tantas campeão nacional) mas acima de tudo no conhecimento profundo  da flora à base da qual  fabricava produtos medicinais a que muitos recorreram frequentemente para cura dos seus males.
Mestre José Salgueiro deixou-nos no passado mês de Julho com a provecta idade de 100 anos e como tal, e muito bem, resolveu a Edilidade Montemorense prestar-lhe a merecida homenagem.
Durante a mesma foram lidos alguns extratos quer em prosa quer em poesia do seu último livro «A MINHA VIDA DAVA UM ROMANCE» - que teve a particularidade de ser concebido por intermédio de várias gravações, posteriormente passadas para computador pela Professora Manuela Rosa, neta do mais famoso ervanário de Montemor, senhor Francisco Virtuoso.
A leitura desses mesmos extratos despertou-me a curiosidade, e, como tal dirigi-me ao local onde incluído na Feira da Luz funciona a Feira do Livro com o intuito de adquirir a obra. Abro aqui um parêntesis apenas para mostrar a minha gratidão a quem elaborou a distribuição dos livros em venda, pela maneira (logo a abrir), como diversas obras alusivas ao Alandroal estavam em destaque. Claro que adquiri além da obra do Mestre Salgueiro também os Cadernos do Endovélico – 3 (obra coordenada pela Ana Paula Fitas, e na qual colaboram entre outros Manuel Calado, Conceição Roque, Rui Mataloto, João Torcato Justa, obra que foi patrocinada pela C.M.A. na gerência da Dr. Mariana Chilra).
Após esta introdução, convém esclarecer que trouxe à baila este livro, porque o mesmo fez despertar em mim determinadas recordações da infância fazendo-me recuar aos meus tempos de menino.
Mestre Salgueiro relata-nos a suas origens e dos antepassados, ao narrar toda uma vida de miséria e sacrifícios porque passou, não escondendo a fome tão pouco os estratagemas a que bastas vezes se viu forçado para sobreviver. Foi uma época de miséria, em que a coberto do beneplácito de Salazar os grandes latifundiários exploravam até ao tutano a classe trabalhadora.
Os quase trinta anos que nos separam na idade e a sorte de ter sido auxiliado e acarinhado por família abastada, foram motivo suficiente para não passar pelos mesmos tormentos de Mestre Salgueiro. No entanto não posso deixar de lembrar os sacrifícios vividos pelos meus antepassados que pouco diferem de todas as privações passadas pelo Mestre.
No entanto também eu na minha meninice me banhei nos pégos do Lucifecit, conheci muitos “malteses”, armei muitas “armadilhas” para apanhar pássaros, fiz venda dos mesmos (ao Domingos Cachamela), aguardei a chegada do meu pai que palmilhava da Barranca e às vezes das Águas Frias ao Alandroal para vir caçando, e eu ir vender, para deixar algo para se comer e pagar o fiado. Como essa leitura me trouxe à memória os longos períodos de migração ou para a Barranca ou para as Águas Frias para acompanhar as mondas, as ceifas, as debulhas…o sacrifício a que tantos se viam obrigados a angariar o sustento da família!
Ficaram-me da leitura simples, mas de coração aberto «da minha vida dava um romance», os momentos tão bem retratados da vida do passado de todos aqueles que “não nasceram em berços de ouro”.
Deixo-vos com um dos últimos vídeos no qua o Mestre mostra toda a sua sabedoria no capitulo da poesia e não só.
F. Tátá

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