O período da história em que a cruz
se torna num elemento simbólico dos cristãos foi com o Imperador Constantino I.
Este será o primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência
da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Milvio, em 28 de Outubro de
312, às portas de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão.
Segundo a tradição, na noite
anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: “In hoc
signo vinces” (“Sob este símbolo vencerás”).
De manhã, pouco antes da batalha,
mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória
esmagadora sobre o inimigo.
A cruz “é sempre o símbolo do
triunfo eterno sobre a morte”. Os locais protegidos eram aqueles onde ela
figurasse.
A cruz é o símbolo mais universal
presente em todas as culturas. “Já no tempo dos egípcios, cartagineses,
assírios, persas, hebreus e gregos, a cruz era aplicada aos suplícios de
malfeitores”. Para os cristãos da Idade Média a cruz representava a árvore da
vida.
Os cruzados tinham como emblema a cruz, que surge no pomo das espadas dos
cavaleiros.
A figura geométrica das duas hastes
tornou-se no sinal mais elementar e divulgado da piedade cristã, o mais
conhecido do cristianismo, o mais usado nos actos do culto e, mesmo depois da
morte, assinala a sepultura de todos aqueles que descansam em Cristo.
Assim, os Cruzeiros surgem ligados à
cruz dos cristãos. São símbolos da crença de um povo, marcos apontados à fé dos
caminheiros e de todos aqueles que os veneram, marcando a fé dos que os
erigiram como promessa.
Os cruzeiros têm aquela rara e única
beleza que a alma lhes dá e os olhos não conseguem vislumbrar e que só a fé faz
ver. Estão colocados nas bermas dos caminhos, nas praças, no alto dos montes,
perto das povoações ou isolados, no adro de igrejas, ou em encruzilhadas,
praças e cemitérios.
Os cruzeiros que se encontram nos
adros das igrejas tinham e têm como fim santificar esses espaços. Para esta
santificação são determinantes as procissões que percorrem o perímetro da
igreja.
Os que se localizam nas
encruzilhadas tinham como função cristianizar um local entendido como maléfico
pelo povo, pois aí pensa-se que se realizavam rituais pagãos.
Normalmente não têm grande valor
histórico e artístico, contudo, há alguns que são bons exemplares, bem
desenhados e esculpidos. Há inscrições comemorativas que distinguem muitos
deles.
O cruzeiro é uma forma de oração, um
convite à reflexão, como um catecismo de pedra que nos introduz nos permanentes
mistérios que movem filósofos, artistas e poetas: o enigma da origem da vida, a
morte e o mundo.
Cada cruzeiro tem uma história muito
particular que, em muitos casos, deveria ser inserida nos conjuntos paroquiais,
tão pouco estudados: igreja, adro, cemitério, ossário e casa paroquial.
A história do Cruzeiro do
Rossio
No rescaldo da muito bem organizada
Procissão do Senhor dos Passos, que nesta cidade se fez no dia 14 de Abril
último, Domingo de Ramos, e que contou com a participação da Cavalaria da GNR,
Fanfarra dos Bombeiros, Banda da Sociedade Carlista, Escuteiros, e grande
participação de fiéis, e que o meu amigo Francisco Tátá, filmou e colocou no
seu Blogue Al Tejo, foi durante séculos
promovida pela Confraria das Almas do Calvário, e desde há uns anos,
organizada pela Santa Casa da Misericórdia, é interessante registar aqui alguns
dados históricos que sobre este assunto nos guarda o precioso documento de 1758
que é o Diccionário Geográfico de Portugal – (vol. 3.º, letra M, página 1441 e
seguintes, existente na Torre do Tombo).
Da fervorosa devoção deste povo aos
Passos do Senhor fala ainda hoje, eloquentemente, não só a estima e empenho que
todos põem na tradicional Procissão dos Passos, mas ainda o curioso costume,
que ainda conserva a população de Montemor-o-Novo, de percorrer em massa à
noite, os diversos Passos, visitados pela mesma Procissão, afim de neles
meditar e orar.
No ano de 1592, em que o Calvário
era ainda simples Ermida, que mal ultrapassava os limites e dimensões da
Capela-Mor da actual Igreja, veio a Montemor pregar uma Missão o apostólico
membro da Companhia de Jesus – Padre João Rebelo a que o povo muito se dedicou
pelo zelo que por todos mostrava e pelo fruto que das suas pregações tiravam.
Em dado momento, esse sacerdote
expôs aos Confrades da Confraria das Almas, a criação de uma Irmandade dos Passos. Pedida e obtida a necessária
autorização do Arcebispo de Évora, então Dom João de Bragança, logo a tornaram
em realidade.
As dificuldades económicas com que
se iria deparar para tal Irmandade, fizeram com que ficasse desde o início
unido à dita Confraria das Almas que lhe custearia os actos do culto.
Foi
grande o entusiasmo que todos puseram na iniciativa e logo se decidiram
a percorrer a vila, com o Padre João Rebelo, a fim de medir a distância e
marcar o lugar onde se construiriam os diversos Passos.
Todos convieram em que o primeiro
fosse na Igreja do Hospital (onde funcionou o Rádio Cine), ficando o último
defronte da desactivada Igreja de São Sebastião. Neste lugar mandaram os Irmãos
da Confraria das Almas construir um Cruzeiro, cercado por quatro colunas de
pedra, tendo no meio outra coluna de pedra também onde colocaram uma Imagem de
um Senhor Crucificado, de uma pedra muito clara e branda.
Nas quatro colunas exteriores
formaram quatro arcos que sustentavam uma abóbada cobrindo a coluna do meio, em
forma de pirâmide.
A devoção popular a esta imagem,
pelas numerosas graças que lhe atribuíam, aumentou grandemente. E a gente de
perto e de longe ali concorria sempre mais numerosa, trazendo suas esmolas, e
lhe deram o nome de “Senhor Jesus das Necessidades”. Posteriormente, crescendo
os óbolos resolveu o reitor da Matriz fundar, no sítio, uma capela e constituir
confraria que se designou de “Caridade”, com licença do prelado da diocese fr.
D. Miguel de Távora, que a aprovou no ano de 1758. Teve o núcleo religioso a
santa missão de recolher esmolas destinadas a enfermos, viúvas, presos e outros
necessitados, percorrendo as casas desta região com alcofas, levando,
outrossim, o terço a Nossa Senhora.
Encontrando-se muito decadente no
ano e 1896, foi secularizada pouco tempo depois, transformada em oficina de
carpinteiro e parte da frontaria, com seu alpendre de três arcos, absorvida
pela Associação Operária Montemorense. Serviu de Escola Primária e de sede da
Corporação dos Bombeiros Voluntários.
O corpo posterior e a face
setentrional estão complectos, mantendo os volumes e curiosidade da arquitectura
primitiva. Era exemplar interessante do estilo barroco, com nave de planta de
cruz grega, coberta por lanternim octogonal, de quatro luzes e telhado de
linhas radiadas, fechado exteriormente por pináculo octogonal: cabeceira
singela e sacristia, posteriores. No beiral daquela, do tipo de cornija
polilobada, levanta-se o campanil apilastrado, com frontão circular despido de
sineta. Curioso trabalho de cal de obra, de escaiola relevada, existe na parte
traseira de espadana, com ornatos palmares, florões e rosetas de nítida
inspiração setecentista.
Quando o Mestre Túlio Espanca se
deslocou ao local (para examinar esta ermida, e incluí-la no seu Inventário
Artístico de Portugal editado em 1975), a capela-mor e a nave encontravam-se
totalmente recheadas de madeiramento, estando esta dividida em dois corpos,
loja e sobrado, que mal deixavam lobrigar os volumes e características
originais da arquitectura do templete.
O interior dispõe-se em planta
quadrangular, de arcadas falsas e fechos palmares ou geométricos suportando a
cúpula que arranca de cornijamento de trompas lisas, de linha airosa e
elegante, com abóbada de penetrações.
O altar-mor, descarnado, é de
arco-mestre redondo. Subsiste, pendente, o antigo suporte de ferro forjado,
muito singelo.
A sacristia, na banda meridional,
tem tecto de meio canhão decorado, no eixo, por grande tabela-emblema barroco,
de relevo, dos atributos da “Paixão de Cristo”.
Na citada data de 1896, segundo
elementos extraídos do Inventário da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da
Vila, do recheio da igreja faziam parte um crucifixo de marfim, as imagens de
“Santo António” e de “S. Francisco de
Assis”, e uma cruz grande de pedra, decerto a que terá origem ao culto sagrado
e estivera, cremos, no adro principal.
Face ao descrito, tudo leva a crer
que a cruz que deu origem à Ermida de Nosso Senhor das Necessidades, foi
transportada para o Rossio e adaptada a cruzeiro.
Augusto
Mesquita
Maio/2019
In Folha de Montemor - transcrição autorizada pelo autor.
Nota: AL TEJO agradece, ao autor do texto a referência ao vídeo oportunamente publicado quando da realização da Procissão do Senhor dos Passos.
Nota: AL TEJO agradece, ao autor do texto a referência ao vídeo oportunamente publicado quando da realização da Procissão do Senhor dos Passos.
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