terça-feira, 21 de maio de 2019

VASCULHAR O PASSADO - Rubrica mensal de Augusto Mesquita

             O Cruzeiro do Rossio e a Devoção aos Passos em  Montemor-o-Novo
 De acordo com Luís Chaves, no seu livro “Cruzeiros de Portugal”, editado em 1932, o aparecimento do cruzeiro remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Procurou-se cristianizar todos os locais e monumentos pagãos. A cruz era o símbolo usado para levar a cabo o processo de cristianização.
O período da história em que a cruz se torna num elemento simbólico dos cristãos foi com o Imperador Constantino I. Este será o primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Milvio, em 28 de Outubro de 312, às portas de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão.
Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: “In hoc signo vinces” (“Sob este símbolo vencerás”).
De manhã, pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo.
A cruz “é sempre o símbolo do triunfo eterno sobre a morte”. Os locais protegidos eram aqueles onde ela figurasse.
A cruz é o símbolo mais universal presente em todas as culturas. “Já no tempo dos egípcios, cartagineses, assírios, persas, hebreus e gregos, a cruz era aplicada aos suplícios de malfeitores”. Para os cristãos da Idade Média a cruz representava a árvore da vida.
Os cruzados tinham como emblema  a cruz, que surge no pomo das espadas dos cavaleiros.
A figura geométrica das duas hastes tornou-se no sinal mais elementar e divulgado da piedade cristã, o mais conhecido do cristianismo, o mais usado nos actos do culto e, mesmo depois da morte, assinala a sepultura de todos aqueles que descansam em Cristo.
Assim, os Cruzeiros surgem ligados à cruz dos cristãos. São símbolos da crença de um povo, marcos apontados à fé dos caminheiros e de todos aqueles que os veneram, marcando a fé dos que os erigiram como promessa.
Os cruzeiros têm aquela rara e única beleza que a alma lhes dá e os olhos não conseguem vislumbrar e que só a fé faz ver. Estão colocados nas bermas dos caminhos, nas praças, no alto dos montes, perto das povoações ou isolados, no adro de igrejas, ou em encruzilhadas, praças e cemitérios.
Os cruzeiros que se encontram nos adros das igrejas tinham e têm como fim santificar esses espaços. Para esta santificação são determinantes as procissões que percorrem o perímetro da igreja.
Os que se localizam nas encruzilhadas tinham como função cristianizar um local entendido como maléfico pelo povo, pois aí pensa-se que se realizavam rituais pagãos.
 Normalmente não têm grande valor histórico e artístico, contudo, há alguns que são bons exemplares, bem desenhados e esculpidos. Há inscrições comemorativas que distinguem muitos deles.
O cruzeiro é uma forma de oração, um convite à reflexão, como um catecismo de pedra que nos introduz nos permanentes mistérios que movem filósofos, artistas e poetas: o enigma da origem da vida, a morte e o mundo.
Cada cruzeiro tem uma história muito particular que, em muitos casos, deveria ser inserida nos conjuntos paroquiais, tão pouco estudados: igreja, adro, cemitério, ossário e casa paroquial.
                                                A história do Cruzeiro do Rossio
No rescaldo da muito bem organizada Procissão do Senhor dos Passos, que nesta cidade se fez no dia 14 de Abril último, Domingo de Ramos, e que contou com a participação da Cavalaria da GNR, Fanfarra dos Bombeiros, Banda da Sociedade Carlista, Escuteiros, e grande participação de fiéis, e que o meu amigo Francisco Tátá, filmou e colocou no seu Blogue Al Tejo, foi durante séculos  promovida pela Confraria das Almas do Calvário, e desde há uns anos, organizada pela Santa Casa da Misericórdia, é interessante registar aqui alguns dados históricos que sobre este assunto nos guarda o precioso documento de 1758 que é o Diccionário Geográfico de Portugal – (vol. 3.º, letra M, página 1441 e seguintes, existente na Torre do Tombo).
Da fervorosa devoção deste povo aos Passos do Senhor fala ainda hoje, eloquentemente, não só a estima e empenho que todos põem na tradicional Procissão dos Passos, mas ainda o curioso costume, que ainda conserva a população de Montemor-o-Novo, de percorrer em massa à noite, os diversos Passos, visitados pela mesma Procissão, afim de neles meditar e orar.
No ano de 1592, em que o Calvário era ainda simples Ermida, que mal ultrapassava os limites e dimensões da Capela-Mor da actual Igreja, veio a Montemor pregar uma Missão o apostólico membro da Companhia de Jesus – Padre João Rebelo a que o povo muito se dedicou pelo zelo que por todos mostrava e pelo fruto que das suas pregações tiravam.
Em dado momento, esse sacerdote expôs aos Confrades da Confraria das Almas, a criação de uma Irmandade  dos Passos. Pedida e obtida a necessária autorização do Arcebispo de Évora, então Dom João de Bragança, logo a tornaram em realidade.
As dificuldades económicas com que se iria deparar para tal Irmandade, fizeram com que ficasse desde o início unido à dita Confraria das Almas que lhe custearia os actos do culto.
Foi  grande o entusiasmo que todos puseram na iniciativa e logo se decidiram a percorrer a vila, com o Padre João Rebelo, a fim de medir a distância e marcar o lugar onde se construiriam os diversos Passos.
Todos convieram em que o primeiro fosse na Igreja do Hospital (onde funcionou o Rádio Cine), ficando o último defronte da desactivada Igreja de São Sebastião. Neste lugar mandaram os Irmãos da Confraria das Almas construir um Cruzeiro, cercado por quatro colunas de pedra, tendo no meio outra coluna de pedra também onde colocaram uma Imagem de um Senhor Crucificado, de uma pedra muito clara e branda.
Nas quatro colunas exteriores formaram quatro arcos que sustentavam uma abóbada cobrindo a coluna do meio, em forma de pirâmide.
A devoção popular a esta imagem, pelas numerosas graças que lhe atribuíam, aumentou grandemente. E a gente de perto e de longe ali concorria sempre mais numerosa, trazendo suas esmolas, e lhe deram o nome de “Senhor Jesus das Necessidades”. Posteriormente, crescendo os óbolos resolveu o reitor da Matriz fundar, no sítio, uma capela e constituir confraria que se designou de “Caridade”, com licença do prelado da diocese fr. D. Miguel de Távora, que a aprovou no ano de 1758. Teve o núcleo religioso a santa missão de recolher esmolas destinadas a enfermos, viúvas, presos e outros necessitados, percorrendo as casas desta região com alcofas, levando, outrossim, o terço a Nossa Senhora.
Encontrando-se muito decadente no ano e 1896, foi secularizada pouco tempo depois, transformada em oficina de carpinteiro e parte da frontaria, com seu alpendre de três arcos, absorvida pela Associação Operária Montemorense. Serviu de Escola Primária e de sede da Corporação dos Bombeiros Voluntários.
O corpo posterior e a face setentrional estão complectos, mantendo os volumes e curiosidade da arquitectura primitiva. Era exemplar interessante do estilo barroco, com nave de planta de cruz grega, coberta por lanternim octogonal, de quatro luzes e telhado de linhas radiadas, fechado exteriormente por pináculo octogonal: cabeceira singela e sacristia, posteriores. No beiral daquela, do tipo de cornija polilobada, levanta-se o campanil apilastrado, com frontão circular despido de sineta. Curioso trabalho de cal de obra, de escaiola relevada, existe na parte traseira de espadana, com ornatos palmares, florões e rosetas de nítida inspiração setecentista.
Quando o Mestre Túlio Espanca se deslocou ao local (para examinar esta ermida, e incluí-la no seu Inventário Artístico de Portugal editado em 1975), a capela-mor e a nave encontravam-se totalmente recheadas de madeiramento, estando esta dividida em dois corpos, loja e sobrado, que mal deixavam lobrigar os volumes e características originais da arquitectura do templete.
O interior dispõe-se em planta quadrangular, de arcadas falsas e fechos palmares ou geométricos suportando a cúpula que arranca de cornijamento de trompas lisas, de linha airosa e elegante, com abóbada de penetrações.
O altar-mor, descarnado, é de arco-mestre redondo. Subsiste, pendente, o antigo suporte de ferro forjado, muito singelo.
A sacristia, na banda meridional, tem tecto de meio canhão decorado, no eixo, por grande tabela-emblema barroco, de relevo, dos atributos da “Paixão de Cristo”.
Na citada data de 1896, segundo elementos extraídos do Inventário da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Vila, do recheio da igreja faziam parte um crucifixo de marfim, as imagens de “Santo António” e de  “S. Francisco de Assis”, e uma cruz grande de pedra, decerto a que terá origem ao culto sagrado e estivera, cremos, no adro principal.
Face ao descrito, tudo leva a crer que a cruz que deu origem à Ermida de Nosso Senhor das Necessidades, foi transportada para o Rossio e adaptada a cruzeiro.
           
Augusto Mesquita
Maio/2019
In Folha de Montemor - transcrição autorizada pelo autor.

Nota: AL TEJO agradece, ao autor do texto a referência ao vídeo oportunamente publicado quando da realização da Procissão do Senhor dos Passos.


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