A partir dos anos cinquenta, esse hábito chocalheiro de
festejar a Ressurreição de Cristo foi-se desvanecendo, assim como se foi
esfumando a arte de fazer chocalhos.
A propósito de chocalhos, quisemos conhecer melhor o modo de
os fabricar e outras curiosidades que giram à sua volta. Por vezes, sabemos tão
pouco acerca das coisas simples da vida.
Marcamos encontro com Joaquim Guerreiro, popularmente
conhecido por Quim das Peles. Foi ali sentados à porta da sua loja, no antigo
Largo dos Chões, que nos pusemos, também nós, a badalar.
O Quim pertence a uma família de chocalheiros, natural das
Alcáçovas. A oficina do primo Gregório Guerreiro Sim-Sim é das poucas que se
mantem em funcionamento. Na vila alentejana há memórias de ter havido perto de
uma vintena de artesãos que se dedicavam à actividade. Restam já bem poucos.
A preocupação com o fim desta arte ancestral levou a Unesco, em 2015, a classificar os chocalhos
como Património Cultural Imaterial da Humanidade com necessidade de salvaguarda
urgente.
Aos sete ou oito anos, o pequeno Joaquim Guerreiro começou a
amassar barro juntamente com palha moída
para embarrar os chocalhos. À primeira vista, pode parecer que os mais velhos
se aproveitavam do trabalho infantil. Porém, para a rapaziada, era quase uma
paródia a agradável sensação de meter as mãos na terra argilosa e húmida.
O fabrico artesanal dos chocalhos exige uma técnica algo
complicada. Não é qualquer um que consegue extrair do metal tão diferentes
sonoridades. O segredo da musica está nas sábias pancadas que só os Mestres
sabem como fazer.
Quase em jeito de receita, dir-lhe-emos, caro leitor, que
cada chocalho começa por ser talhado em folha de ferro e enrolado de forma
cilíndrica na bigorna. Em seguida, no interior do chocalho, preara-se o “céu”
onde vai ficar pendurado o badalo e, no exterior, aplica-se a asa por onde irá
passar a coleira. A tarefa seguinte passa por revestir interna e externamente o
cilindro de ferro com outro tipo de metal, envolvendo-se depois tudo em barro
amassado. Depois de embarrado, o chocalho é metido na forja, alimentada a
carvão de pedra. É esse outro metal (pedaços de cobre, bronze, latão) que
depois de aquecido e derretido, irá unir todas as juntas e dar a cor acobreada
ao chocalho. Quando atinge a cor rubra, o chocalho é retirado do lume, rebolado
cá fora e molhado para arrefecer. O barro cozido ou cascalho é depois partido e
removido, havendo necessidade de tirar, com a grosa, algumas irregularidades do
metal.
Finalmente o chocalho é levado de novo à bigorna onde o
artesão, com suaves pancadas procede à sua afinação.
A conversa encaminhou-se, de seguida, para os diversos tipos
de chocalho e para outras particularidades que queríamos conhecer.
Como é sabido, esses instrumentos sonoros servem, acima de
tudo, para serem colocados ao pescoço de certos animais. Um dos objectivos é
localizar o paradeiro das reses, em particular quando elas se tresmalham de
noite.
Há chocalhos pequenos, muito utilizados em cabras e ovelhas
que aqui, na nossa região receberam o nome de piquetes.
Há os de maior dimensão
reconhecidos por serranas ou beiroas, pendurados nos pescoços de vacas e bois.
Existem também os reboleiros, chocalhos mais bojudos na parte superior. Há-os
ainda com badalo de metal ou de madeira.
Na nossa memória, permanece gravado um outro nome que,
quando eramos miúdos, ouvíamos pronunciar aos mais velhos e a que achávamos
muita graça. Eram os trabucos ou traboucos, que eram postos ao pescoço das
vacas mais gulosas. Era preciso evitar que as atrevidas comilonas entrassem nas
verdes searas ou nas zonas de montado cujas bolotas estavam guardadas para os
suínos.
Consoante a época do ano (inverno, primavera ou verão),
havia quem fizesse três mudas de chocalhos.
A conversa acerca da diversidade chocalheira não se ficou
por aqui. O amigo Joaquim Guerreiro foi-nos mostrar diferentes exemplares em
metal fundido, mais robustos. Outro tipo de fabrico. É o caso dos esquilos, dos
esquilões, dos guizos ou cascavéis. Merecem destaque especial os chamados
guizos de coroa.
Por momentos vem-nos à lembrança a música alegre e
cadenciada das guizeiras muito utilizadas nas parelhas, e a sinfonia estridente
que era a correria de um rebanho de ovelhas com esquilos ao pescoço.
Acresce ainda dizer que cada chocalho deve ter a marca do
artesão, como se da sua assinatura se tratasse. Também algumas casas agrícolas
que encomendavam chocalhos faziam questão de neles mandarem inscrever o ferro
da casa.
O assunto afigurava-se-nos quase inesgotável. Ás duas por
três, ficamos com a sensação de que a conversa também se queria tresmalhar.
Apesar de ser familiar de chocalheiros, Joaquim Guerreiro
enveredou mais pelo negócio das peles. Não bastava ser sobrinho ou rimo direito
de chocalheiro. A transmissão da arte foi feita, ao longo dos tempos, de pais
para filhos.
O trabalho com as peles acaba por estar relacionado com o
mundo dos chocalhos, se pensarmos, por exemplo, no fabrico das coleiras.
Á porta da sua loja, o amigo Guerreiro tem pendurado e
espalhado pelo chão uma remessa de chocalhos e coleiras, à mistura com peles variadas
e outros artigos de artesanato. Guarda também em caixas e gavetas, peças que já
vão sendo raridades.
Antigamente, em vez de fivelas de metal para prender as
coleiras, utilizavam-se muito as cáguedas talhadas em madeira pelos pastores.
Algumas eram verdadeiras obras de arte. Havia ainda quem se servisse das meãs,
correias que serviam para prender as duas partes da coleira.
As coisas que a gente aprende neste mundo das peles e dos
chocalhos!
Brinca, brincando há perto de sessenta anos que Joaquim
Guerreiro prepara artesanalmente e negoceia peles. A profissão tem os seus
segredos. Ao apalpar uma pele fina, se esta resmalha, é sinal de fraca
qualidade. Se é macia e não resmalha, significa que está bem curtida. Dito
assim parece fácil. Ficamos depois a saber que as peles grossas se compram e
vendem ao quilo, e que o pé é a unidade de medida para negociar uma pele fina.
O tema dos chocalhos, dos rebanhos e seus pastores,
conjuntamente co a bátega de água que caía à hora em que ultimávamos estas
Memórias, remeteram-nos para a poesia de Alberto Caeiro, um dos heterónimos de
Fernando Pessoa:
“Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar
Toda a paz da natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
…………………………………………….
Como um ruido de chocalhos
Para alem da curva da estrada
Os meus pensamentos são contentes
Só tenho pena de saber que eles são contentes
Porque se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Vitor Guita
Abril 2019
Publicado in “Montemorense” transcrito
com autorização do Autor
1 comentário:
OBS.
Excelente composição sobre os Chocalhos enquanto Património de Humanidade
e sobre a Arte dos artesãos que compõem o passado e o presente do Alentejo.
O entrecho desta descrição, com um agradável sabor e lastro literário,
merece daqui um Elogio dizendo ao seu Autor, um Muito Obrigado.
Cumprimentos
Antonio Neves Berbem
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