terça-feira, 5 de janeiro de 2016

MEMÓRIAS DO PASSADO - HOJE VAMOS FALAR DE LUZ

Na sua última, edição a “Folha de Montemor” em artigo com assinatura de MFN/AM, recordava-nos que «Montemor-o-Novo tem eletricidade há 100 anos».
Foi precisamente no dia 1 de Dezembro há 100 anos atrás que “a luz electrica foi inaugurada na então vila de Montemor-o-Novo. A energia electrica era oriunda da =Central Elétrica=, propriedade do município, que exercia a respetiva exploração.

A leitura atenta desta efeméride, fez-me acudir à lembrança como se processava o fornecimento de tal bem no Alandroal, do acender dos candeeiros da iluminação pública na Vila de Terena, quando movido pela curiosidade acompanhava os encarregados de proceder ao acender dos candeeiros em algumas ruas, por altura da Festa dos Prazeres, assim como os “apagões” na iluminação do arraial e dos bailes, quando faltava o combustível nos tratores responsáveis pelas “feéricas iluminações eletricas”.

Para que as gerações vindouras um dia mais tarde possam saber como era a vida no Alandroal nos anos 50/60 do passado século, aqui vos deixo, o que, com a ajuda do Manuel Augusto, e do Tói, filhos do encarregado de iluminar a nossa Vila consegui apurar a tal propósito.

Mas antes, e para que seja tomado como base de comparação permito-me continuar a transcrever as partes mais relevantes do artigo escrito a esse propósito na “Folha”:

Em artigo publicado na Folha de Montemor em Dezembro de 2007, pelo nosso amigo e colaborador Augusto Mesquita, o mesmo escrevia sobre a chegada em 1/12/1915 da eletricidade a Montemor-o-Novo.
No século XIX, a maioria dos montemorenses gastava o dia na labuta da terra desde o alvorecer ao pôr-do-sol. O comércio era reduzidíssimo. À noite, na hora acordada, tocava o sino da Torre do Relógio, sinal de encerrarem os estabelecimentos e cada um recolher aos seus lares.
Eram sem luz as ruas, onde de longe a longe bruxuleava o chamejar humilde e incerto de alguma lamparina de azeite. Os caminhos resumiam-se a veredas de terra batida que a chuva transformava em pavorosos lamaçais. Raro se saía à noite, e, quando por acaso ou necessidade, a tal se abalançavam, os habitante não deixavam de acautelar-se, nem contra a escuridão, nem contra os maus encontros. Transitavam acompanhados da lanterna, raro se esqueciam da cacheira ou da bengala, com que se defendiam de algum possível assalto..
À luz incerta dos candeeiros de azeite, por entre pitadas de rapé, as mulheres faziam meia ou trabalhavam nas velhas colchas de trama, tanto ao gosto dos nossos antepassados.
…………………..
No século seguinte, a maioria da iluminação efectuada através do azeite, foi substituída pelos candeeiros a petróleo. Pelo facto da iluminação a petróleo ser mais potente que a fornecida pelo azeite, os trabalhos caseiros estavam agora mais facilitados….
A iluminação pública da antiga Vila de Montemor, era assegurada por uns candeeiros a petróleo, pendurados em altos e lindos suportes metálicos.
Os funcionários camarários encarregados dessa tarefa, estavam munidos de um forcado destinados a apear os candeeiros, os quais depois de abastecidos e ateados, eram colocados nos respectivos lugares.
Em 18 de Abril de 1914 a Companhia Portuguesa de Electricidade, Siemens – Schukert Werme, apresentou um orçamento e memória descritiva para instalação da luz electrica na Vila de Montemor. Este documento, obrigava a Siemens a proceder à instalação completa, pronta a funcionar, incluindo dois motores Diesel, e quatro para-raios com laca de terra, mediante o pagamento de 23.877$00, uma fortuna para a época. Este montante, não incluía a construção do edifício para a Central e fundações para as máquinas.
A prevista rede de distribuição iria assegurar o funcionamento de duas mil lâmpadas de filamento metálico de 25 velas, com um consumo máximo de 25watts por lâmpada, e de oito lâmpadas de 600 velas com um consumo de 0,5 watts por vela. Para a iluminação pública, serão fornecidas 200 lâmpadas de 25 velas e 8 lâmpadas Woten de 600 velas. Para as Praças, 8 candeeiros de aço sem costura com a altura de 5,5 metros acima do chão, com armadura estanque, podendo receber lâmpadas de incandescência de 600 velas.
Este orçamento foi aprovado, pelo que Montemor foi das primeiras terras do sul do país a dispor deste essencial bem de consumo.
Dezanove meses após a recepção do orçamento, e trinta e seis anos depois de Thomas Edison ter inventado a primeira lâmpada electrica comercialmente viável, a luz electrica chegou à nossa terra.
Encarregava-se do correspondente fornecimento, a Central Electrica, inaugurada a 1 de Dezembro de 1915, propriedade do município, que exercia a respetiva exploração. A nova energia, era servida por dois motores verticais a óleo cru, sistema “Diesel”, da afamada casa Maschinenfabrick Augsburg – Nuerberg com dois cilindros para acionar o respectivo dínamo de corrente contínua por meio de correia.
A energia electrica produzida, era suficiente para as necessidades, uma vez que só um número muito reduzido de privilegiados, tinha acesso à energia electrica.
De dia não havia fornecimento de corrente, visto ser pequena a indústria local, carecendo-se de um gasto de 60 amperes para que a municipalidade não sofresse prejuízo.
Para a rede de distribuição utilizaram-se 22.340 metros de cabo, enquanto na iluminação pública a quantidade de cabo utilizado, foi de 3.100 metros.
O preço da energia no ano da inauguração, era de vinte centavos o Kwh
MFN / AM “

Por esta pormenorizado registo, ficamos a saber como em Montemor-o-Novo, se instalou a “luz electrica”, quer particular, quer publica, a data do acontecimento, os custos e materiais utilizados, assim como a maneira de viver na altura.

Muito gostaria de aqui deixar nos mesmos moldes a história da inauguração da  “luz” no Alandroal. Fiz várias diligências nesse sentido mas pouco consegui descobrir. Talvez alguém se possa vir a interessar pelo assunto e possamos algum dia saber como se “fez luz “ no Alandroal.
Segundo relato dos mais idosos a iluminação pública no Alandroal ficou a dever-se ao então Presidente da Câmara José Inácio da Silveira Belo (1.928 / 1.943).
 Antes disso a iluminação era assegurada por candeeiros estrategicamente situados em diversas artérias, vulgarmente conhecidos por “lampiões” que eram acessos por um funcionário camarário, que ainda mantem descendência no Alandroal conhecido como o Zé Gato. Candeeiros esses posteriormente transferidos para Terena como aliás já referi.
Segundo o que consegui apurar sempre a luz foi fornecida, por entidade particular, mais concretamente pela Moagem do Zé Garcia, (actual Cooperativa Agrícola) situada na Cruz do Martelo, que durante o dia se dedicava à moagem de farinhas e só após terminar esta tarefa o potente motor alimentado a gasóleo de marca Perkins 2D, entrava em função para movimentar o mecanismo que fornecia a electricidade para toda a povoação.
Contavam-se pelos dedos da mão os habitantes que usufruíam de eletricidade ao domicílio. Não conseguimos apurar se o pagamento da mesma era cobrado pelo próprio fornecedor, ou se a Autarquia tinha algum contrato que englobasse o pagamento da luz pública e dos poucos que usufruíam desse bem.
O que a seguir vamos relatar a propósito dos primórdios da “luz” no Alandroal é resultado de amenas conversas entre mim, o Manuel Augusto e o Tói, e resulta de “memórias” de infância agora relembradas.
Recuo aos anos 50 e recordo uma primeira visita pela mão do meu padrinho (irmão do proprietário da “Moagem”) – e retenho na memória um grande cartaz, digo mesmo um medonho cartaz, cujo fundo era um aterrador “bicharoco” que alem de proibir a entrada alertava para os perigos que qualquer distração poderia acarretar «Cuidado- o perigo está sempre à espreita» (memória do  Tói) – alem do barulho ensurdecedor proveniente de duas monstruosas máquinas que na sala a seguir trabalhavam ininterruptamente, ora moendo farinhas, ora fornecendo electricidade.  Responsável dessas mesmas máquinas era o Senhor João António Lapa Coelho, conhecido por todos como “Quesqueres” – pai do Tói e do Manel – que por sua vez herdou o lugar do seu pai (informação do Manel).  Desde manhã cedo, até pelo menos à meia-noite o “Quesqueres”, alimentava e zelava pelo bom funcionamento da maquinaria, e era o Tói que diariamente lhe levava numa cestinha o almoço e o jantar. Recorda o Manel Augusto que o homem que negociava o fornecimento do combustível era o ainda vivo e de boa saúde,  D.Vicente da Câmara, agente da Sacor no Distrito, e que por diversas vezes encontrou negociando com o Zé Garcia o fornecimento do gasóleo.
Só a partir de uma certa hora da tarde a luz começava a aparecer na residência daqueles que dela usufruíam, primeiro muito ténue e ao passar do tempo lá ia avivando. Na via publica só mesmo muito tarde. Recordo o regresso a casa dos meus pais para dormir, depois de jantar em casa dos meus padrinhos, e o medo que tinha do escuro, só dissipado quando chegava perto da taberna do Eduardo onde dois potentes candeeiros petromax instalados lá dentro, iluminavam a via publica. Chegado a casa era o estudar as lições à luz de um candeeiro a petróleo.
E meia – noite dada, luz apagada. Só regressando mais tarde pela tardinha.
Esta situação manteve-se durante largos anos, pois recordo, e muitos da minha geração, de quando já com idade de ir ao cinema do Peças , quando por qualquer motivo imprevisto ( a sessão começar mais tarde,  a “fita” se partir muitas vezes,  uma bobine metida fora do contexto e só dectado o erro mais à frente,  ter que rebobinar porque começava de trás p´rá frente) se verificava que se ia ultrapassar a meia-noite, havia que ir à Moagem levar uma linguicinha e uma garrafinha para que o Ti João não “apagasse” a luz, e o final do filme ter que ser inventado. O certo é que não me lembro de alguma vez ter ficado sem ver o “End”.
Era assim o Alandroal. Gostava muito que alguém com mais saber pudesse acrescentar algo a este propósito, pois são estas pequenas coisas que  devem ser historiadas para que gerações vindouras possam saber como era a vida no Alandroal.
O certo é que mesmo ficando às escuras durante quase toda a noite não havia a preocupação de trancas na portas e fechar a porta à chave até parecia mal.
Hoje foi a luz… qualquer dia vamos falar da água e da célebre frase “ P´rá esquerda José que p´rá direita está a valeta”.
Saudações Marroquinas

Chico Manuel

3 comentários:

Manuelaugustofontes Coelho disse...

Caro AMIGO CHICO MANEL, obrigado pelas recordações que nos trazes, de facto era o meu PAI o responsável pela manutenção daquele enorme PERKINS de 2 cilindros,no entanto , não herdou o lugar do meu AVÔ, o meu avô MANEL TROCATO,nunca foi muito virado para as técnicas, digamos, que lidava melhor com carnes...quanto ao pessoal daquela moagem, trabalhou lá toda a minha familia da parte dos FONTES, meu Avô QUINZE AREIS e meu Tio CARRONCA,por isso, ficámos ligados a história daquela unidade!!!
O almoço do meu PAI, era por norma em casa, já o jantar, iamos os três assobiando, até lá levar-lho....
Grande abraço,
Manel Augusto

Anónimo disse...

Eu era muito pequena. Mas lembro-me de, nos anos 50/60, do seculo passado ver na minha terra (Vila de Terena) um senhor a quem chamávamos o ti "Paneiro" (nunca soube bem o nome do senhor), transportando uma escada no ombro, a acender (com fósforos) os cadeeiros a petróleo, que estavam dentro de uma campânula (por acaso muito bonita de ferro trabalhado e vidro, pendurada das paredes e esquinas das ruas da Vila. Agora não me lembro se esses candeeiros mais tarde foram electrificados ou não. Estas memórias são maravilhosas, adoro ler estes textos. Gosto imenso de falar com pessoas mais velhas do eu porque me ensinam muito.
Obrigada a quem se dedica a fazer recolha de memórias (vivas ou escritas) e reproduz histórias do passado. Continuem que é muito bom.
Maria M

Francisco Tata disse...

"GAND´AMIGO":
A finalidade destes escritos é precisamente deixar testemunhos para as gerações vindouras e ao mesmo tempo homenagear quem tanto contribuiu para o progresso da nossa terra.
São baseados em recordações da infancia/juventude e conversas informais com amigalhaços como tu e outros que me prezo de conservar no Alandroal. Não posso deixar transcrita toda a verdade e é por isso que comentários como o teu são sempre valiosos e tampam lacunas que escapam.
Repara que talvez ainda hoje eu vou colocar algo que aqui publiquei em 2011 (já lá vão 4 anos) e que agora foi objecto de 2 comentários a propósito de alcunhas no Alandroal. Alguem que depois deste tempo todo descobriu essa postagem e nos indica algumas alcunhas de familiares que foram do Alandroal.
Vais gostar de saber
Um abraço
Chico