quarta-feira, 25 de março de 2015

ORELHUDOS do CARAÇAS - Rubrica de A.N.B.

 Lembram-se do LICA, um Taberneiro virtuoso?
i)
Na nossa terra sempre houve muitas tabernas (no alto, ao centro e na parte baixa da Vila) durante uma época longa em que ainda eram o lugar central de uma certa forma de passar a vida em convivência social amigável.
Ainda sem televisão mas, por vezes, já com telefonia, será com a taberna e o papel do “Lica virtuoso” que vamos terminar esta série de 5 retratos feitos para o Al tejo.
Uma boa parte desta história local senão a maior parte ainda está por retratar e contar. O que vale por dizer que teríamos de fazer a narrativa, a história e o modo de ser taberneiro de outras personagens mais ou menos emblemáticas desses tempos.
Tanto dos taberneiros como dos “tasqueiros” que frequentavam assiduamente tais tabernas de muitos bagaços e avulsos copos de tinto e do branco.
Por isso vamos destacar aqui, no Al tejo, o retrato de um taberneiro que sempre admirámos pelo seu modo de ser e de fazer do seu trajecto pessoal uma forma de vida (re)inventando um tempo sombrio que durou décadas e faz parte da nossa história. Assim como do passado recente da Vila.
O tempo do riso, da memória e das suas manifestações mais visíveis, isto é, das enormes bebedeiras que povoavam e marcaram aquelas mal iluminadas tascas.
Sobretudo aos sábados, domingos e dias de festa, grandes nomes houve que não vamos enumerar directamente porque no Alandroal ainda sabemos quem eram … ou como eram, entre si,  os companheiros de monumentais bebedeiras até às tantas. Digamos assim.

ii) 
O LICA,  Um Taberneiro Ágil e Fresco
Vejamos em seguida o que ele nos traz à memória.
A taberna que recordamos dos anos setenta, era a da estreita e com gente, Rua Luís de Camões, perto da minha rua grande.
Uma taberna simples com “portas à Texas”, dois bancos corridos, um balcão que não era muito comprido, com as paredes cheias de fotografias e com o inevitável mostruário de rifas cujos prémios melhores saíam, claro está, sempre ao taberneiro. 
Assim era a primeira vista porque, num segundo relance, tinha a explorá-la um servidor competente que fez daquela taberna um modo de viver. Daquele modo de viver uma profissão. Da profissão uma dedicação inteira. E desta dedicação uma longa actividade e um exercício razoavelmente lucrativo e compensador.
O Lica não faltava aos seus metódicos e verdadeiros deveres de taberneiro: nunca bebia com os fregueses, abria e fechava diariamente sem folgas nenhumas sempre à mesma hora. Jamais faltava com os petiscos às horas de ponta. Sabia como liderar   bêbados incertos e  turbulentos.
O vinho, as aguardentes, o vinagre que vendia eram sempre de boa qualidade. Os pasteis de mogango e as iscas de fígado mesmo «se aquecidas, reaquecidas e sobreaquecidas» sabiam sempre bem. Até porque a frigideira negra onde eram cozinhadas já tinha incrustado o sabor (e um certo sarro gastronómico…) que lhe davam um cheiro à distância bastante esturricado e apetecível.
Taberneiros como o Lica tivemos mais. Por exemplo, o Manuel Canhoto, na Praça, era particularmente especializado em “peixe frito” com uma clientela que começava, logo por volta das seis da manhã, embora estivesse mais virado para quem trabalhava e chegava à tarde das pedreiras.
Voltando às circunstâncias e ao teatro - LICA.
Tinha uma figura alta e desengonçada, era tão capaz de vender quanto era competente ao sorrir sempre a quem ía à sua  taberna, o que me faz lembrar, de passagem, um livro  magnifico de E. Zola que escreveu  “A Taberna”.
O Lica tinha ainda um mérito especial, sabia ir vendendo fiado assim como sabia ir cobrando os atrasados sempre a tempo e horas. Bem-disposto, por ali nunca havia demoras a servir copos e a cobrá-los. De lápis na orelha. Era eficiente e rápido a somar.
Em chuvosas tardes de Inverno ou nas longas tardes de Verão jogava e bem às cartas. Tanto jogava à sueca como preferia jogar à manilha.
Parece que estou a vê-lo a marcar em papel de embrulho os jogos e as partidas que ganhava, o que nunca o impedia de atender prontamente um qualquer freguês que lhe entrasse portas adentro.

iii)
O LICA, “Um Taberneiro – taberneiro”
À noite uma vez servida a freguesia habitual, aí vinha o Lica de jaqueta ao ombro, subindo vagarosamente o Caminho da Fonte para chegar à casa onde morava na Praça. Por vezes, ali ficava à conversa entre amigos. Mas sempre sem exageros e por pouco tempo.
Teve portanto uma vida bem vivida e pouco custosa ou trabalhosa. Não se pode dizer que fosse generoso, por aí além, mas era alguém que sabia o modo de vender as coisas que  precisávamos.
Assim como era uma pessoa que nunca teve partes sombrias na sua longa vida de taberneiro. Sorria bastante a todos os que fossem seus fregueses não misturando ou misturando pouco “o vinho com água”.
Era de bom trato social e tinha um certeiro sentido de humor. Umas vezes por outras sabia mandar “a sua bicada de natureza politica” sem ter necessidade de desvendar e abrir o jogo das suas preferências.
Sempre deveras acertado, em tudo o que fez na vida, foi um taberneiro que soube ultrapassar «a desorganização» em que outros taberneiros “pirraças” se deixavam cair por razões que não vale a pena estar aqui a iludir…
É assim que queremos rever e reviver o lastro sabedor que o Lica nos deixou. Uma certa marca de um passado com que podemos até comover-nos. Já que mais não seja porque também bebemos por lá uns copos acompanhando o petisco que mais gostávamos: “as suas famosas iscas de fígado”.
De tal maneira era assim que, ainda hoje, se o Lica (ou uma taberna algo parecida) tivesse vida e estivesse aberta, no Alandroal, seríamos com toda a certeza, no presente, os fregueses de sempre – com a memória – do que fomos no passado. Iguaizinhos. Sem tirar nem pôr.
Sempre bem servidos e bem acompanhados!
Melhores saudações
António Neves Berbem
   ( 25/III/2015) 


4 comentários:

Francisco Tata disse...

Excelente idéia teve o nosso amigo Berbem de nos recordar figuras que muito contribuiram para a história da vida do Alandroal. Ainda bem que o fez, pois será assim uma maneira de legar aos nossos vindouros factos e feitos que de outra forma, após desaparecerem na totalidade todos aquele que ainda privaram com os mesmos, nada restaria para os recordar e pura e simplesmente daqui por uns anos ninguem recordaria o Forma das Caraças- o Zé Luís - o Azedo - o Zé Pedala. Chegou hoje a vez de lembrar o Lica (diz que será o último - todos nós esperamos que não -pois muitos mais há que merecem perdurar na memória futura da nossa Vila).
Foi muito bom para mim recordar o Lica, e retroceder alguns anos em que na força da juventude, a "via-sacra" diária me conduzia ao retiro Lica, com o meu saudoso amigo Zé Colunas, para retemperar o dia de trabalho com uma ou duas "ciganas" (era assim que ele catalogava as garrafas de tinto) com a habitual latinha de conserva, pataniscas de mogango, ou peixe frito.
E o Manel Canhoto!!! como eram boas as suas económicas (feijão com couve), e melhor o preço: 5 tostões com direito a um copo de três. E as presas de coelho frito?
Vamos lá amigo, continua a recordar-nos Gente (com G grande) que deixaram marcas na nossa terra.
Um abraço
Chico

Anónimo disse...

De tal maneira era assim que, ainda hoje, se o Lica (ou uma taberna algo parecida) tivesse vida e estivesse aberta, no Alandroal, seríamos com toda a certeza, no presente, os fregueses de sempre – com a memória – do que fomos no passado. Iguaizinhos. Sem tirar nem pôr.
Sempre bem servidos e bem acompanhados!

TEMOS O CONTINUADOR - ZÉ DO ALTO

Anónimo disse...

E a frigideira (a única) onde tudo cozinhava era lavada? e limpa com papel de jornal.
Isto é, se aparecesse um grupo de clientes para petiscar carne e se a tivesse utilizado antes no frito de peixe, logo a despejava "na pia", limpava-a com jornais, bazava-lhe mais óleo e nunca por isso perdeu algum cliente.

SABIA A POUCO.

Felizardo José Coelho, de seu nome.

Helder Salgado disse...

Ah grande companheiro..... chegaste agora ao Alandroal..... doutros tempos...... claro.
e como estamos a chegar à Pascoela, à Festa dos Prazeres deixa-me recordar o Domingos Cainó - o Cachamela quem o chama assim não sou eu, agora é uma exceção.
O Domingos já pingado, na segunda-feira de Prazeres, tocava ao pé da Cruz.
As pessoas cumprimentavam-no, boca fora do trombone, começava a tocar novamente, novo cumprimento,nova paragem, novo começo.
Perguntei-lhe "ouve lá Domingos, assim não consegues acabar a música. Rapidissimo respondeu-me, "não consigo o ...... eu quando começo uma coisa acabo-a sempre" e continuo a tocar.
Um abraço para Companheiros
Helder