A notícia do encerramento do Monte Alentejano, fez agitar em
nós as campainhas da memória, levando-nos a dar um salto no tempo, cinquenta ou
sessenta anos atrás.
As boas recordações que guardamos deste café da avenida
vieram suavizar aquilo que, à partida, parecia ser um fúnebre badalar.
Tal como acontece às pessoas, os cafés também morrem. Já
assistimos ao desaparecimento de muitos. Outros, depois de uma fase de
declínio, passam por diversas metamorfoses e conseguem sobreviver. Assim será,
esperamos com o emblemático café da Gago Coutinho..
O Monte Alentejano é daqueles lugares que deixam um traço
profundo na lembrança de quem lá passou uma parte significativa da sua
existência.
Quando descemos ou subimos a avenida, vêm-nos frequentemente
à memória imagens, cheiros, mil e uma sensações, momentos de felicidade que se
podem encontrar nas coisas simples da vida… sai
um cachorro e uma imperial!
Recordamos também as vagas sucessivas de turistas, sobretudo
estrangeiros, e as filas de espera que, nas noites cálidas era preciso fazer
para um lugar na esplanada.
Se deixarmos deslizar o nosso olhar avenida abaixo, onde
agora se perfilam casas de habitação, banca, seguros, escritórios, cafés e
outro comércio, ergueram-se altas barreiras de terra e rochedo, onde fazíamos,
nos tempos da escola, temerárias escaladas. Mal sabíamos nós que, décadas
atrás, estávamos a antecipar o moderno conceito de desportos radicais.
Quando havia cinema na esplanada atrás do Monte, uma
escalada bem sucedida dava direito a ver filmes de borla. Do alto das barreiras
ou em certos pontos estratégicos da Rua do Poço do Passo, conseguíamos seguir
os gritos vibrantes e os acrobáticos voos de Tarzan, o rei da selva, ou
assistir aos intermináveis tiroteios do Jonh Waine ou dos Sete Magníficos.
Outras vezes, emocionávamo-nos com a vozente, sedutora, de Sara Montiel ou com
as canções românticas do chileno Antonio Prieto, “blanca y radiante vai la novia”… de vez em quando a noite
iluminava-se com a voz canora de Joselito ou de Marisol.
Em noites de /ª arte, o ritmo do café dependia do horário do
cinema. Primeiro, era o aglomerado de cinéfilos junto à janela que servia de
bilheteira. Depois, nos intervalos, vinha uma enxurrada de gente comprar
rebuçados, amendoins ou lubrificar as gargantas.
Recorde-se que o Monte Alentejano foi construído à beira da
ainda jovem avenida que rasgou um terreno que em tempos tinha sido eira. O
complexo de hotelaria foi inaugurado em meados da década de cinquenta do século
passado, e o cine-esplanada abriu portas logo a seguir com a exibição do filme
Antes do Furacão.
Nos Domingos, ao fim da manhã, sempre que havia jogos
primodivisionários em Évora entre o Lusitano e os grandes de Lisboa, tínhamos a
rara oportunidade de ver ao vivo os grandes ídolos do futebol, que só
conhecíamos através dos jornais e da rádio, da televisão e dos bonecos da bola.
Por ali passaram muitos craques sportinguistas, mas também os campeoníssimos
Costa Pereira, Coluna, José Augusto, José Águas…Guardamos na memória a estridência
dos gritos entusiásticos dos mais encarniçados benfiquistas: VIVÓBENFIIICA!!!
A propósito de bonecos da bola, os primeiros cromos que
temos idéia vinham embrulhados em rebuçados baratos e tinham uma fraquíssima
qualidade gráfica. A escola era um dos espaços onde fazíamos a troca de
bonecos, especialmente quando faltavam poucos cromos para completar a
caderneta. Em cada página só havia lugar para colar onze jogadores. Se fosse
hoje, ao ritmo a que são feitas as transferências dos atletas, não havia colecção
que resistisse nem caderneta que se aguentasse.
Alguns dos nossos estimados leitores estão certamente
lembrados de que os cromos da bola serviam também para jogar ao bate-bate. Nos
lancis dos passeios ou nas soleiras das portas, era ver a rapaziada, com a mão
enconchada a tentar virar os pequenos rectangulos de papel. Um bafo quente ou
uma cuspidela na palma da mão ajudavam a virar a bonecada.