Na década de 1940, o Estado Novo lançou o Plano
dos Centenários, um programa de construção escolar em massa para que todas as
crianças pudessem dispor de uma escola primária ao seu alcance, mesmo nos
sítios mais recônditos de Portugal. Estas escolas foram construídas segundo
modelos tipificados aliados à arquitetura tradicional portuguesa. Foi numa
destas escolas que iniciei a aprendizagem das primeiras letras.
Decorria a década de cinquenta. Na escola Primária de Terena, a professora Maria dos Anjos, da 3.ª classe, era muito boazinha para os seus alunos e ensinava bem. Nós aprendíamos com ela e gostávamos muito dela. Parece-me que era professora Regente. Era irmã do Zé Tátá que era o farmacêutico, natural de Redondo e que tinha ido morar para Terena, para a Rua das Casas Novas, atualmente chamada Rua Dr. Joaquim Galhardas. A dona Maria dos Anjos era mulher do professor Cláudio, natural do Alandroal. Homem austero, no mínimo. Acontece que havia lá uns rapazinhos, que se estavam simplesmente nas tintas para as letras e para as contas. Por mais que a professora se esforçasse eles não estavam para aí virados. Não havia forma de aprenderem e a maior parte das vezes provocavam desacatos com os colegas mais novos. Estava-lhe na massa do sangue. O que eles queriam era brincadeira. Ora, a professora deve ter dito ao marido para ir à escola pôr determinados meninos na ordem. O professor Cláudio era duro. Com as crianças, claro.
Lidar com este tipo de rapaziada, ensiná-los a ler e a escrever, limar-lhe as arestas, fazer-lhe ver que não é só ir nadar para a Ribeira do Lucefécit, ir aos ninhos para o Cerrado, Vila Velha ou Boa Nova, jogar ao pião, ao fincão, botão, berlinde e à bola, mas que há outras coisas belas e que deviam aprender. Isto é, criar-lhes as bases de futuros homens, mas isso, eles não queriam ou nem sabiam o que isso significava. Mas o professor achava que valia a pena insistir, pois era essa a sua função. Para moldar aquela rapaziada, tinha que exercer alguma pressão, e essa, segundo a sua maneira de ver o problema, só podia ser através de algumas bofetadas e não só. Mas, a maior parte das vezes passava das marcas. Devo dizer que a mim nunca me calhou nenhuma dessas pequenas “admoestações” uma vez que fazia por aprender e principalmente porque tinha medo das reguadas. Porque quando o prof. Cláudio batia, era a doer e havia que resguardar o pêlo.
Certo dia, um grupo de alunos, tendo como líder o Artur, mais conhecido por Roupa Santa, na brincadeira, partiu uma espingarda de madeira, no gargalo do poço, daquelas que o Estado Novo fornecia às Escolas Primárias para os alunos fazerem exercícios e atirou-a para dentro do poço existente na courela do ti Galhetas, próxima da casa do professor Cláudio, situada junto à estrada que vai de Terena para o Monte dos Vicentes, Monte Inverno e Monte da Garçoa, sendo este último propriedade do ilustre Cavaleiro Tauromáquico, Mestre Simão da Veiga. Era neste último monte que Mestre Simão, treinava os cavalos, cujo tratador era o José Pereira, mais conhecido por Zé Caguincha.
O grupo de alunos ouviu o ruído da motorizada do professor, que era uma Cucciollo.
– Olha, vem além o professor. Todos fugiram, com exceção do Roupa Santa e do Rufa.
– É pá! Então e agora o que é que fazemos?
– Olha, atiramo-la aqui para dentro do poço para ele não a ver.
– Diz o Roupa Santa: Não! A gente leva-a, prego-lhe uns pregos lá na oficina do meu pai e amanhã colocamo-la lá no armeiro e levamos outra boa. Ele nem chega a saber.
– Então vá-respondeu o Rufa.
O Rufa desce ao poço que tinha apenas uma poça de água. As paredes eram feitas de pedra de xisto e portanto havia buracos onde o Rufa se pudesse agarrar para subir. Quando vinha a subir, já com a espingarda a tiracolo, chega o professor.
– Com que então, o menino partiu a espingarda e atirou-a para dentro do poço?
– Não fui eu, senhor professor! Eu só já a vi partida e resolvi vir busca-la.
– Está bem. Amanhã lá na escola falamos.
No dia seguinte:
– Mau! Hoje ela não vem, vem ele. Mau! Afitei logo as orelhas, disse o Rufa.
Olha, cai-se comigo à porrada, foi até lhe apetecer.
– Sente-se. Disse-me o professor com ar muito zangado.
– O Rufa não respondeu mas disse lá para os seus botões:- Deixa-te estar que nunca mais me bates. Nunca mais cá m´apanhas.
- O meu companheiro de secretária era o João de Matos, que morava ali ao pé do monte do Espada à saída para as Hortinhas.
- Nã te lembras, dele?
- Então não me lembro? Abalou para Lisboa e nunca mais cá voltou.
- Pois! Esse mesmo.
- Até cantava muito bem, respondi.
O Rufa pediu ao companheiro que o deixasse passar para o lado da janela, que já tinha visto que estava aberta. Pôs um pé em cima do banco, outro na carteira e saltou para o pátio. Ainda são pelo menos uns dois metros de altura.
O professor ao ver aquele número, mandou uns gaiatos correr atrás do Rufa, mas quando se aperceberam, já ele estava ao pé da casa do Espada, que fica a cerca de duzentos metros da escola, já quase a chegar ao Chafariz que fica à entrada de Terena como quem vem do Alandroal. O Rufa só já voltou à escola, depois do professor ter saído de Terena para Santiago Rio de Moinhos. No ano seguinte, vieram para Terena novas professoras, que foram morar para uma casa que era do Mestre Simão da Veiga, ali na Rua 1º de Dezembro, próximo da Varanda. Foram estas professoras que fizeram com que o Rufa voltasse novamente à escola. Ainda hoje, quando perguntamos ao Rufa pelo professor Cláudio, surge logo a resposta pronta na ponta da língua, mas sem qualquer azedume.
Isso era bruto dos “quexos”.
Noutro dia, o professor Cláudio, vá de chamar ao quadro o Mariano, de alcunha o Padola. Como não soube resolver o problema, aconteceu-lhe o mesmo que ao Rufa ou talvez mais grave. Os puxões de orelhas não tardaram, até garrar as ditas. Mas ele não chorava. Era rijo, o Padola.
Agora anda cá tu, José Mira para ver se ensinas aqui o burro do teu irmão, disse o professor.
O Padola, tinha por alcunha “o turista”. Eram gémeos. Como também não sabia, vá de malhar no rapaz. A coisa foi tão feia, que a mulher, senhora dotada de uma grande bondade e sensível como era, já suplicava ao marido para deixar o gaiato.
Noutra ocasião, o meu primo Alberto Mira não fez os trabalhos escolares marcado para as férias grandes. O professor perguntou-lhe porque é que não tinha feito os trabalhos.
– A minha mãe não tinha papel para acender o lume e queimou o caderno, senhor professor.
Mas não estava lá muito à vontade, pois já sabia o que o esperava quando o professor descobrisse que estava a mentir.
– Oh! Diabo! Aqui há gato! Queimou o caderno? Vamos lá ver isso, disse o professor.
No dia seguinte, o professor encontrou a tia Adelina, mãe do Alberto e perguntou-lhe se tinha queimado o caderno do filho.
– Eu não, senhor professor. Então fazia lá uma coisa dessas? Queimar o caderno do meu Beto?
– Ai o malandro do gaiato! Já sei que não fez os trabalhos da escola, pensou a mãe.
– Está bem.
No dia seguinte, quando chegou à escola, chamou o Alberto e aí é que foi malhar.
Naquele tempo, os professores castigavam demais os alunos. Para agravar a situação, ainda havia pais, que quando iam levar o filho à escola, logo no primeiro dia, diziam esta bonita graça:
– Senhor professor! Só lhe quero a pele para fazer um tambor.
Um belo dia, a tia Adelina andava num grande alvoroço com as vizinhas.
– Ó vezinha! Atã nã quer lá ver esta? Alí o gaiato do ferrero, aquele bruto, aquele malandro, veio aqui ó mê quintali fazer o serviço na escolatera, onde eu faço o caféi. Ah mas isto nã fica assim!
Nã fica não! A tia Adelina, vá de ir repetir esta lenga-lenga ao professor.
– Fazer o serviço? Mas que serviço? O professor a puxar por ela, e a ti Adelina com vergonha de empregar a palavra cagar. A muito custo, lá acabou por contar ao professor. No dia seguinte, o velhaco do Zéquinha foi chamado a contas. Escusado será dizer o que lhe aconteceu.
– “Aqui não há chi, nem chá, nem pó de ferreiro”, e vá de dar lambada no pobre do gaiato.
– Ainda hoje quando a gente lhe pergunta,
– Então Zéquinha, como estás? Estás bom?
Com cara de poucos amigos e de imediato, diz-nos:
– Eu chamo-me José Dias.
– Pronto, está bem.
Também havia um aluno muito irrequieto, aquilo a que chamamos, velhaco. Era o Inácio Corneta, de alcunha o “Chouriça”.
Quando por qualquer motivo, por brigar com outro colega, ou por não saber a matéria escolar, o professor chegava-lhe logo a roupa ao pêlo. Batia-lhe por tudo e por nada. Levava muita ponteirada, pontapés, reguadas e bofetadas. Quando começava a bater, até parece que deixava de ver. E o que era ainda mais grave, encerrava o pobre do gaiato num armário de madeira e lá passava tardes inteiras. Em sinal de protesto, por muitos murros e pontapés que o “Chouriça” desse no armário onde estava encerrado, que até lhe devia faltar o ar, o professor não lhe abria a porta do armário.
No final das aulas, ouvíamos o professor dizer:
– Bom, meus meninos, arrumem lá as coisas. Vamos lá embora. Por hoje já chega. Abram lá a porta do armário ao Chouricinha.
E então lá estava o rapaz, pequenino e franzino como era, todo encolhido a um canto do armário.
Até amanhã chouricinha, dizia-lhe o professor.
O Chouriça não dizia nada na frente do professor, mas cá fora, no alpendre da escola, onde o professor já não o visse e muito menos o ouvisse, dizia:
– Até amanhã, até amanhã!
– Uma pouca de merda, que é para me meteres dentro do armário outra vez, não?
Decorria a década de cinquenta. Na escola Primária de Terena, a professora Maria dos Anjos, da 3.ª classe, era muito boazinha para os seus alunos e ensinava bem. Nós aprendíamos com ela e gostávamos muito dela. Parece-me que era professora Regente. Era irmã do Zé Tátá que era o farmacêutico, natural de Redondo e que tinha ido morar para Terena, para a Rua das Casas Novas, atualmente chamada Rua Dr. Joaquim Galhardas. A dona Maria dos Anjos era mulher do professor Cláudio, natural do Alandroal. Homem austero, no mínimo. Acontece que havia lá uns rapazinhos, que se estavam simplesmente nas tintas para as letras e para as contas. Por mais que a professora se esforçasse eles não estavam para aí virados. Não havia forma de aprenderem e a maior parte das vezes provocavam desacatos com os colegas mais novos. Estava-lhe na massa do sangue. O que eles queriam era brincadeira. Ora, a professora deve ter dito ao marido para ir à escola pôr determinados meninos na ordem. O professor Cláudio era duro. Com as crianças, claro.
Lidar com este tipo de rapaziada, ensiná-los a ler e a escrever, limar-lhe as arestas, fazer-lhe ver que não é só ir nadar para a Ribeira do Lucefécit, ir aos ninhos para o Cerrado, Vila Velha ou Boa Nova, jogar ao pião, ao fincão, botão, berlinde e à bola, mas que há outras coisas belas e que deviam aprender. Isto é, criar-lhes as bases de futuros homens, mas isso, eles não queriam ou nem sabiam o que isso significava. Mas o professor achava que valia a pena insistir, pois era essa a sua função. Para moldar aquela rapaziada, tinha que exercer alguma pressão, e essa, segundo a sua maneira de ver o problema, só podia ser através de algumas bofetadas e não só. Mas, a maior parte das vezes passava das marcas. Devo dizer que a mim nunca me calhou nenhuma dessas pequenas “admoestações” uma vez que fazia por aprender e principalmente porque tinha medo das reguadas. Porque quando o prof. Cláudio batia, era a doer e havia que resguardar o pêlo.
Certo dia, um grupo de alunos, tendo como líder o Artur, mais conhecido por Roupa Santa, na brincadeira, partiu uma espingarda de madeira, no gargalo do poço, daquelas que o Estado Novo fornecia às Escolas Primárias para os alunos fazerem exercícios e atirou-a para dentro do poço existente na courela do ti Galhetas, próxima da casa do professor Cláudio, situada junto à estrada que vai de Terena para o Monte dos Vicentes, Monte Inverno e Monte da Garçoa, sendo este último propriedade do ilustre Cavaleiro Tauromáquico, Mestre Simão da Veiga. Era neste último monte que Mestre Simão, treinava os cavalos, cujo tratador era o José Pereira, mais conhecido por Zé Caguincha.
O grupo de alunos ouviu o ruído da motorizada do professor, que era uma Cucciollo.
– Olha, vem além o professor. Todos fugiram, com exceção do Roupa Santa e do Rufa.
– É pá! Então e agora o que é que fazemos?
– Olha, atiramo-la aqui para dentro do poço para ele não a ver.
– Diz o Roupa Santa: Não! A gente leva-a, prego-lhe uns pregos lá na oficina do meu pai e amanhã colocamo-la lá no armeiro e levamos outra boa. Ele nem chega a saber.
– Então vá-respondeu o Rufa.
O Rufa desce ao poço que tinha apenas uma poça de água. As paredes eram feitas de pedra de xisto e portanto havia buracos onde o Rufa se pudesse agarrar para subir. Quando vinha a subir, já com a espingarda a tiracolo, chega o professor.
– Com que então, o menino partiu a espingarda e atirou-a para dentro do poço?
– Não fui eu, senhor professor! Eu só já a vi partida e resolvi vir busca-la.
– Está bem. Amanhã lá na escola falamos.
No dia seguinte:
– Mau! Hoje ela não vem, vem ele. Mau! Afitei logo as orelhas, disse o Rufa.
Olha, cai-se comigo à porrada, foi até lhe apetecer.
– Sente-se. Disse-me o professor com ar muito zangado.
– O Rufa não respondeu mas disse lá para os seus botões:- Deixa-te estar que nunca mais me bates. Nunca mais cá m´apanhas.
- O meu companheiro de secretária era o João de Matos, que morava ali ao pé do monte do Espada à saída para as Hortinhas.
- Nã te lembras, dele?
- Então não me lembro? Abalou para Lisboa e nunca mais cá voltou.
- Pois! Esse mesmo.
- Até cantava muito bem, respondi.
O Rufa pediu ao companheiro que o deixasse passar para o lado da janela, que já tinha visto que estava aberta. Pôs um pé em cima do banco, outro na carteira e saltou para o pátio. Ainda são pelo menos uns dois metros de altura.
O professor ao ver aquele número, mandou uns gaiatos correr atrás do Rufa, mas quando se aperceberam, já ele estava ao pé da casa do Espada, que fica a cerca de duzentos metros da escola, já quase a chegar ao Chafariz que fica à entrada de Terena como quem vem do Alandroal. O Rufa só já voltou à escola, depois do professor ter saído de Terena para Santiago Rio de Moinhos. No ano seguinte, vieram para Terena novas professoras, que foram morar para uma casa que era do Mestre Simão da Veiga, ali na Rua 1º de Dezembro, próximo da Varanda. Foram estas professoras que fizeram com que o Rufa voltasse novamente à escola. Ainda hoje, quando perguntamos ao Rufa pelo professor Cláudio, surge logo a resposta pronta na ponta da língua, mas sem qualquer azedume.
Isso era bruto dos “quexos”.
Noutro dia, o professor Cláudio, vá de chamar ao quadro o Mariano, de alcunha o Padola. Como não soube resolver o problema, aconteceu-lhe o mesmo que ao Rufa ou talvez mais grave. Os puxões de orelhas não tardaram, até garrar as ditas. Mas ele não chorava. Era rijo, o Padola.
Agora anda cá tu, José Mira para ver se ensinas aqui o burro do teu irmão, disse o professor.
O Padola, tinha por alcunha “o turista”. Eram gémeos. Como também não sabia, vá de malhar no rapaz. A coisa foi tão feia, que a mulher, senhora dotada de uma grande bondade e sensível como era, já suplicava ao marido para deixar o gaiato.
Noutra ocasião, o meu primo Alberto Mira não fez os trabalhos escolares marcado para as férias grandes. O professor perguntou-lhe porque é que não tinha feito os trabalhos.
– A minha mãe não tinha papel para acender o lume e queimou o caderno, senhor professor.
Mas não estava lá muito à vontade, pois já sabia o que o esperava quando o professor descobrisse que estava a mentir.
– Oh! Diabo! Aqui há gato! Queimou o caderno? Vamos lá ver isso, disse o professor.
No dia seguinte, o professor encontrou a tia Adelina, mãe do Alberto e perguntou-lhe se tinha queimado o caderno do filho.
– Eu não, senhor professor. Então fazia lá uma coisa dessas? Queimar o caderno do meu Beto?
– Ai o malandro do gaiato! Já sei que não fez os trabalhos da escola, pensou a mãe.
– Está bem.
No dia seguinte, quando chegou à escola, chamou o Alberto e aí é que foi malhar.
Naquele tempo, os professores castigavam demais os alunos. Para agravar a situação, ainda havia pais, que quando iam levar o filho à escola, logo no primeiro dia, diziam esta bonita graça:
– Senhor professor! Só lhe quero a pele para fazer um tambor.
Um belo dia, a tia Adelina andava num grande alvoroço com as vizinhas.
– Ó vezinha! Atã nã quer lá ver esta? Alí o gaiato do ferrero, aquele bruto, aquele malandro, veio aqui ó mê quintali fazer o serviço na escolatera, onde eu faço o caféi. Ah mas isto nã fica assim!
Nã fica não! A tia Adelina, vá de ir repetir esta lenga-lenga ao professor.
– Fazer o serviço? Mas que serviço? O professor a puxar por ela, e a ti Adelina com vergonha de empregar a palavra cagar. A muito custo, lá acabou por contar ao professor. No dia seguinte, o velhaco do Zéquinha foi chamado a contas. Escusado será dizer o que lhe aconteceu.
– “Aqui não há chi, nem chá, nem pó de ferreiro”, e vá de dar lambada no pobre do gaiato.
– Ainda hoje quando a gente lhe pergunta,
– Então Zéquinha, como estás? Estás bom?
Com cara de poucos amigos e de imediato, diz-nos:
– Eu chamo-me José Dias.
– Pronto, está bem.
Também havia um aluno muito irrequieto, aquilo a que chamamos, velhaco. Era o Inácio Corneta, de alcunha o “Chouriça”.
Quando por qualquer motivo, por brigar com outro colega, ou por não saber a matéria escolar, o professor chegava-lhe logo a roupa ao pêlo. Batia-lhe por tudo e por nada. Levava muita ponteirada, pontapés, reguadas e bofetadas. Quando começava a bater, até parece que deixava de ver. E o que era ainda mais grave, encerrava o pobre do gaiato num armário de madeira e lá passava tardes inteiras. Em sinal de protesto, por muitos murros e pontapés que o “Chouriça” desse no armário onde estava encerrado, que até lhe devia faltar o ar, o professor não lhe abria a porta do armário.
No final das aulas, ouvíamos o professor dizer:
– Bom, meus meninos, arrumem lá as coisas. Vamos lá embora. Por hoje já chega. Abram lá a porta do armário ao Chouricinha.
E então lá estava o rapaz, pequenino e franzino como era, todo encolhido a um canto do armário.
Até amanhã chouricinha, dizia-lhe o professor.
O Chouriça não dizia nada na frente do professor, mas cá fora, no alpendre da escola, onde o professor já não o visse e muito menos o ouvisse, dizia:
– Até amanhã, até amanhã!
– Uma pouca de merda, que é para me meteres dentro do armário outra vez, não?
Luís de Matos











































