Uma vez por mês
o Prof,. Vitor Guita traz-nos à memória, recordações do passado...
A tradição está na moda.
Depois do fado, do cante alentejano, do chocalho das
Alcáçovas, da louça preta de Bisalhães e de mais umas quantas distinções,
chegou a vez se a Unesco reconhecer a falcoaria portuguesa como património da
Humanidade.
A arte de criar e treinar falcões e outras aves de rapina
para a caça tem milhares de anos. Em Portugal, há notícia da existência desta
actividade desde o século XII, isto é, desde a fundação da nacionalidade. São
utilizadas, ainda hoje, técnicas milenares. Na opinião de muitos, a beleza
desta modalidade cinegética reside mais no lance da caça e não tanto na captura
da presa. Também é sabido que a falcoaria é muito frequentemente associada à
classe da nobreza.
Mas, estimado leitor, não é de falcões, falcoeiros nem de
aristocracia que nos vamos ocupar. Escolhemos ir até ao velho e modesto monte
do Patalim, a que nos ligam laços familiares e onde, sempre que ali vamos
colhemos ensinamentos acerca da natureza e de inúmeras práticas ancestrais.
Além disso, o tempo invernoso que se tem feito sentir trouxe-nos à lembrança um
fenómeno extraordinário a que nos habituámos desde a infância e a que nunca
conseguimos ficar indiferentes. Referimo-nos às compactas nuvens de pombos
bravos que costumavam cruzar os ares na nossa região. Em certas alturas, era
difícil, num só olhar, abarcar a frente do bando e a sua traseira, tal era o
gigantismo da mancha negra.
Em Patalim, já por diversas vezes nos sentimos tentados a
meter conversa com o vizinho Luís, quando esta anda ocupado a tratar dos seus
pombos ou a treiná-los para servirem de negaça. Acostumamo-nos a Vê-lo sentado
no poial, à porta da casa, ou junto ao velho pombal a fazer exercícios
circenses com as aves e a observar-lhes atentamente os movimentos. Ao ser
arremessado na vertical, cada pombo faz um breve esvoaçar até voltar a pousar
no champil, na extremidade da vara. O comportamento das patas é importante e é
preciso saber escolher as aves menos ariscas. Pombo manso facilita o treino e o
seu “trabalhar” durante a caça.
Quanto ao treinador, exige-se uma grande dose de paciência e
um certo jeito natural para exercitar a pombaria. Há quem lhe chame uma arte.
O vizinho Luís chegou a ter, segundo ele nos disse, dezasseis
pombos aptos para negaça. Quanto a equipamentos, vai-se servindo de algumas
varas de metal, à mistura com outras de madeira bem mais artesanais, com
champil tosco de cortiça.
Quisemos aprofundar um pouco mais a conversa com Luís
Casquinha, toda a vida um doente por pombos e por caça em geral. Mesmo sem
negaça, tentámos apanhar-lhe algumas memórias. A princípio, o seu ar sisudo e desconfiado
não prometia grande coisa, mas não tardaram a sair cá para fora bandos de
recordações.
A primeira arma que teve foi feita a partir de uma espingarda
de carregar pela boca. A modificação da arma foi executada por Feliciano
Alface, um conhecido espingardeiro residente na Pintada e considerado um
artista na matéria. Mais tarde, o Luís de Patalim viria a adquirir, em Évora, espingardas de
melhor qualidade. Uma Liége, na Rua de Alconchel, custou-lhe uma mão cheia de
contos.
A partir dos dezasseis ou dezassete anos, sentiu-se tão
deslumbrado a caçar, que nunca mais perdeu essa paixão. Com os seus pombos de
vara, chegou, segundo nos disse, a fazer pousar bandos inteiros de pombos
bravos e a matar cerca de duas dezenas com dois tiros. Palavra de caçador! Os
cerca de noventa anos é que já não o deixam manter o andamento de outros tempos.
Isto de caçar pombos à
negaça tem que se lhe diga! É preciso muito calo! – desabafou o vizinho
Luís, que se orgulha de ter iniciado muita gente nessa arte.
A partir de meados de Outubro, era altura dos pombos bravos
começarem a chegar, só emigrando lá mais para o fim de Fevereiro, princípio de
Março. Passavam aos milhares por cima de Patalim e dos campos em redor. Alguns “esbandalhavam-se” e ficavam por cá.
Serviam depois para chamar os seus congéneres. Os pombo falam uns com os outros como os fossem pessoas. Tentou convencer-nos o vizinho Luís.
A experiência de caçador diz-lhe que há sítios por onde
nunca passou um pombo. Porem, Vale de Migalhas, Pero Mogo, Moita, Sousa,
Cabido, Pégoras, Carrascalinho ou então
Murteira são herdades onde eles procuravam comida. Luís Casquinha lembra-se de
ver muitas dessas propriedades tapadinhas de pombos. Chegou ali a matar dezenas
deles, especialmente quando caçava à espanhola.
Houve um tempo em que a caça ra vendida a um negociante de
Guadalupe. Depois passou a vendê-la à beira da estrada. Era um bom tacho. – Não escondeu o vizinho Luís. Ao mesmo tempo
que foi lamentando – Hoje não há pombos
como havia antigamente! Está tudo diferente.
Noutros tempos, as varas eram metidas no interior das
árvores, em posição horizontal. O pombo que servia de negaça era encarapuçado e
fixo no champil de cortiça, na ponta saliente da vara. Era preciso saber jogar
com o vento. Existe mesmo uma e expressão na gíria dos caçadores e que se
aplica aos pombos quando estes vêm de “bico
ao vento”.
Um dos inconvenientes daquele processo ea a reduzida
visibilidade provocada pelas abas das árvores e a dificuldade em manobrar.
Entretanto, foram aparecendo equipamentos mais elaborados,
até chegar às varas metálicas extensíveis e outras modernices que vieram permitir
a montagem vertical, sem necessidade de subir às árvores. A instalação passou a
ser feita a partir do solo, passando a vara através dos ramos. O pombo treinado
e colocado no champil e transportado até ao cimo das árvores onde irá “trabalhar”.
Ganha-se em visibilidade e controla-se melhor o vento.
Porem, nada disto serve, se os pombos não estiverem bem
treinados. Já aqui se disse que a escolha deve recair sobre aves mansas e, já
agora, que sejam o mais parecidas possível com os pombos bravos. Há torcazes,
sobretudo os mais velhos e experientes, eu não vão em contos de sereia que lhes
podem ser fatais. Eles conhecem muito bem as diferenças entre os da sua igualha
e aqueles que são amestrados.
Quando pensávamos que já estava tudo dito, o vizinho Luís
veio com mais uns quantos ensinamentos acerca desta arte de caçar. É que as
armações que servem de abrigo aos caçadores também têm os seus segredos. Hoje,
aposta-se muito nos camuflados, mas quando as barracas são feitas com rama das
árvores, o lado escuro das folhas deve ficar para fora. Diz a experiência do
vizinho Luís que, nas folhas clras, os pombos não lhe pegam. Vá-se lá entender
estas coisas!
Ficaríamos aqui mais umas quantas linhas a saborear muitas
outras histórias que nos foram contadas. Porem é tempo de acabar.
Bem! O que agora vinha a calhar era uma canja quentinha de
pombo bravo! Mas, com a crise da caça que anda por aì, tudo não passa de uma
miragem. Limitamo-nos a seguir aquela máxima de Camões no canto IX dos
Lusíadas, quando falava na Ilha dos Amores: ”Melhor é experimentá-lo que julgá-lo – Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo”.
Até breve e Boas Festas
Vitor Guita – Dezembro 2016
In . O Montemorense-
transcrição permitida pelo Autor