quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS DO LUÍS DE MATOS

Assinalando a época Natalícia neste mês de Dezembro as histórias do Luís de Matos  são dedicadas aos mais novos.

                        Uma Família de Lontras (a dar à estampa)
Estamos em plena Primavera. Muito próximo de Terena, a ribeira de Lucefécit, também conhecida por Boa Nova, de águas muito límpidas e cristalinas, corre para o rio Guadiana e este, por sua vez, só pára no Grande Lago de Alqueva. Na planície, abundam as azinheiras, sobreiros e oliveiras, que se estendem quase até à margem da ribeira de Lucefécit. Aqui e ali existem os freixos, choupos, plátanos, estevas, piornos, rosmaninhos e alandros com flores brancas e vermelhas.
A Primavera é, realmente, a estação das flores de muitas cores. Abundam os malmequeres, brancos e amarelos. E, as papoilas, com a sua cor avermelhada, misturam-se com o manto ondulado e o doirado das espigas de trigo. Os silvados também existem em grande número e as suas amoras servem de alimentação aos rouxinóis, melros e outras espécies de passarada. Há sempre a tentação de colher as saborosas amoras para comer ou para as preparar em casa, para fazer licor e compotas.
Em muitos pegos da ribeira de Lucefécit e, por vezes junto à margem, não faltam as tabúas, junça, buínho e as frágeis e elegantes libelinhas, pousando no espelho de água e nas tabúas. Podemos ver borboletas das mais variadas cores voando rente à água, ou fazendo grandes acrobacias por entre as tabúas e o juncal.
A ribeira de Lucefécit tem uma beleza muito especial. Ao longo do seu percurso, que é muito bonito, podem ver-se muitas variedades de flora. As muitas curvas apertadas da ribeira fazem com que as águas, quase abracem a outra margem.
A acrescentar a esta paisagem idílica, existem passarinhos das mais variadas cores e espécies que, logo pela manhã, pousados na copa das árvores, dão início a um lindo cantar. É certo que é menos musical, mas também não deixa de ser artístico, parecendo até um concerto executado por uma banda de música que, associado ao silêncio dos campos, a torna num local paradisíaco.
Por vezes, aqui e ali, a ribeira é rodeada por altas escarpas de xisto. Com o passar de muitos e muitos anos, devido aos fortes ventos e chuvas, muitas das lajes de xisto soltam-se e espalham-se pelas íngremes encostas. Outras vezes, caem devido à ação do homem, quer seja através da agricultura, ou do seu arranque propositado para a construção de habitações e muros, tornando estas construções muito apreciadas, não só pelos habitantes locais, mas também por outras regiões do país. Muitas são as lajes espalhadas ao longo das margens da ribeira de Lucefécit, camufladas com a bravia vegetação que, muitas vezes, servem de toca para as lontras e seus filhotes.
Na ribeira de Lucefécit, existem algumas lontras mas, é muito difícil vê-las porque se escondem no seio do seu habitat.
Logo pela manhã, mal o sol nasce, a mãe lontra, de nome Juca, começa o dia, com as suas mãozinhas ligadas por uma membrana, acariciando os seus três filhotes, a que deu os nomes de Miguel, Linda e Flor. A mãe Juca vigiava os três filhotes que estavam deitados sobre a frescura das ervas a brincar e a descansar de barriga para o ar. E assim passam horas e horas, deleitando-se com os mimos da mãe Juca.
Um dia, as três jovens lontras, depois de autorizadas pela mãe Juca, resolvem iniciar uma viagem, ribeira abaixo, à descoberta de outros locais, mas sempre com a promessa de, antes do anoitecer, regressarem à toca, para junto da mãe lontra. Esta já os tinha ensinado a defenderem-se dos homens e de outros predadores, que andam sempre por ali perto, escondidos nas margens, sorrateiramente, à procura de alguma presa. As três jovens lontras nadaram, nadaram, até se cansarem. Como já estavam muito fatigadas, decidiram fazer uma pequena paragem na margem da ribeira. Eis que, de repente, foram alertadas para qualquer coisa de anormal que lhes perturbou o descanso.
- Fujam já para dentro de água! - disse o Miguel. - Vamos para aquele pego mais fundo, para nos podermos esconder mais facilmente.
- Que bicho era aquele tão feio, esquisito e grande? - perguntou Linda, ainda meio assustada.
- Era um cão. Que horror! Que cheiro pestilento,- respondeu o Miguel com toda a autoridade de quem conhece muito bem os outros animais. Deve andar perdido, ou foi algum caçador que o abandonou, vendo que não era bom para caçar.
- Mas nós é que não temos culpa... Não queremos ser mordidos e muito menos servir-lhe de refeição. Não é nada parecido com a gente! Talvez não nos fizesse mal, mas nunca fiando, podia ter fome e atacar-nos. Foi o melhor que fizemos. Não foi Miguel? - disse a Flor.
- Sim. Safa! Que susto. Livrámo-nos de boa. Foi por pouco... Agora fiquemos aqui escondidos, mas temos de estar sempre alerta - disse o Miguel.
Claro, para isso é que servem os nossos ouvidos e pelos que temos junto à boca e ao nariz, que são os nossos órgãos sensoriais.
Finalmente, ao fim de algum tempo, o perigo passou. O cão, aquele animal pestilento, tinha resolvido partir.
- Prestem atenção: o que é que acham se fôssemos colher flores para oferecer à nossa mãe? Mas não nos podemos afastar muito uns dos outros, e muito menos da margem, porque se aparecer algum perigo, corremos a esconder-nos na água. Só aí é que estamos a salvo, - disse o Miguel.
- Boa ideia! Então vamos. - disse a Linda.- Olha, há ali malmequeres, lírios e papoilas. Que bonito ramo que vamos fazer! E assim, as três jovens lontras deitaram mãos à obra.
Agora é a vez de Flor, dar ordens ao Miguel. É certo que é mais nova, mas nessa questão de flores, ela é que sabe:
- Colhe ali aquela papoila e aqueles malmequeres, enquanto eu vou colher uns lírios e um ou dois pés de rosmaninho, que cheiram muito bem. Vais ver como vamos fazer um bonito ramo. E a nossa mãe vai ficar tão contente! - disse a Flor.
- Pronto, aqui tens. Agora, quero ver a tua habilidade. Uma vez que tu é que sabes... - desabafou o Miguel, um pouco amuado, pois não tinha achado graça nenhuma ao facto de a Flor lhe dizer para colher só malmequeres e papoilas, quando ele queria colher flores de todas as espécies e cores.
Mas, como bons irmãos, depressa passou o pequeno amuo. Continuaram numa grande agitação e orgulhosos no trabalho de decoração da toca.
- Quando a mãe Juca chegar, vai ter uma boa surpresa, - disse o Miguel.
- Olha Flor, estes brincos são para ti. Também te fiz um colar de malmequeres. E para também fiz um colar para a Linda. Não tinha linha para enfiar os malmequeres, mas colhi um pé de junça e resultou. Tomem-nos, pendurem-nos ao pescoço. Mas, pensando melhor, dai cá os colares que eu ajudo a colocá-los. - disse o Miguel.
- Que bonito, mano! - muito obrigada, disseram Linda e Flor, já um pouco comovidas, enquanto o Miguel lhes dava a face para receber dois beijinhos delas ,em sinal de agradecimento.
Ao final da tarde, a mãe Juca chegou a casa. Quer dizer... à toca, que estava muito bem decorada com as flores que os três tinham colhido. A mãe Lontra foi apanhada de surpresa e agradeceu aos filhotes, por terem enfeitado a toca com flores tão bonitas. Depois mostrou-lhes o enorme peixe que tinha apanhado para o jantar. A mãe Juca cozinhou o enorme peixe e, enquanto comiam, cheios de entusiasmo, contavam à mãe as aventuras do dia. A mãe ouvia-os com muita atenção e com todo o seu amor, próprio de mãe, disse-lhes:
- Sim, eu sei. Acompanhei-os sempre de perto para ver como é que vocês ultrapassavam as dificuldades que existem no nosso habitat. Hoje passaram por uma experiência completamente nova que se veio a confirmar numa boa prova de sobrevivência. Se quiserem, amanhã deixo-vos ir visitar o avô.
- Boa, boa! - disseram os três ao mesmo tempo.
- Por hoje já chega, disse-lhes a mãe Juca. Agora vão deitar–se, porque amanhã têm um grande dia pela frente.
Nessa noite, Miguel, Linda e Flor, não dormiram o habitual sono profundo das noites anteriores. Mal rompeu o dia, levantaram-se de imediato para um passeio que eles consideravam muito especial, pois desta vez, tinham um local certo a visitar. Era a casa do avô, e isso excitava-os.
- Mãe, sabes onde fica situada a casa do avô? - perguntaram as três jovens lontras ao mesmo tempo, tal era o nervoso miudinho que se tinha apoderado delas.
- Sim, sei.- respondeu a mãe. Fui lá criada, não havia de saber? Próximo da casa, existe um monte muito grande e muito importante, onde outrora existiram povos muito sábios, que se orientavam pelas estrelas e pelo sol. Sabiam ver quando chovia, nevava, fazia frio ou calor. Respeitavam as plantas e as árvores, os animais e as águas da ribeira. Todos os homens eram amigos uns dos outros, e as crianças brincavam e corriam alegremente por entre flores, de todas as cores que possas imaginar. As cores eram tantas que até parecia o arco íris. Na margem da ribeira, o avô tem uma pequena horta e um moinho para fazer farinha. Tem também um forno para cozer o pão com a farinha que ele próprio mói no moinho. O pão feito pelo teu avô é muito saboroso, e quando sai do forno, nem vos digo! É cá um aroma! E como sabes, o pão é muito bom para a nossa alimentação. Bom… vão embora, porque se começa a fazer tarde,- disse a mãe Juca.
As três jovens lontras, deram então início à viagem, só que desta vez, era feita ribeira acima, para os lados do tal monte muito grande. Tinham de vencer algumas correntes mais fortes da água da ribeira, pois nadavam contra a corrente. Nadaram, nadaram, até se cansarem. E quando na margem da ribeira pararam para descansar, já um pequeno grupo de cinco jovens lontras tinha feito o mesmo. Com cautela, aproximaram-se e, prontamente, o Miguel perguntou-lhes como se chamavam, de onde vinham, para onde iam e porque é que estavam ali? Queria saber tudo sobre eles, e conforme as respostas, logo veria se podia confiar neles e serem amigos.
As respostas não tardaram. Logo o Duarte, com toda a sua sabedoria e entusiasmo, fez as apresentações: esta aqui é a Inês, esta é a Leonor e estes são o Tomás e o Afonso. Estes dois últimos, são os mais novos. Ainda têm alguma dificuldade em acompanhar o nosso ritmo de nado. Por isso tivemos de fazer aqui uma pausa. Não temos um destino certo, nem horário a cumprir, simplesmente viemos dar um passeio, calmamente, para alertar sobre os perigos e preparar estes dois mais novos para a vida, bem como a Leonor, o Tomás e o Afonso, pois têm ainda muito para aprender: têm de conhecer outras águas e paisagens, uma vez que só conhecem os pequenos ribeiros onde vivem com os pais. E então? Achas que respondi às tuas perguntas? Merecemos a tua confiança para podermos ser amigos?- perguntou o Duarte.
- Bom... Não sei...- respondeu o Miguel com alguma hesitação.
- Está bem. Se não tens confiança...- respondeu o Duarte e preparando-se para abandonar o diálogo, revelando-se nitidamente desinteressado.
- Bom, está bem! - respondeu finalmente o Miguel
- Então, se nos consideras amigos, daqui em diante, eu gostava de ser o líder do grupo, porque como vês, nós somos cinco e vocês são apenas três. Eu tenho mais experiência e conheço melhor estas águas do que tu. Sei onde pode estar o perigo à nossa espreita e viemos de mais longe, argumentou o Duarte, justificando a sua proposta. - Estás de acordo?
- Sim, não me importo, - respondeu o Miguel.
- Hei! - e nós as duas, não temos direito a dar a nossa opinião? - perguntaram a Linda e a Flor.
- Claro que têm, mas nestas circunstâncias não temos alternativa. Além disso, qual é o mal de serem eles a indicarem-nos o caminho? - perguntou o Miguel. - Nós só queremos ir a casa do nosso avô, queremos conhecer a horta e o moinho dele e que nos ensine a trabalhar com o moinho. Queremos aprender a transformar os grãos de milho e os bagos de trigo em farinha, para fazermos pão. Queremos aprender a deitar sementes à terra para nascerem as plantas e plantar couves, alfaces, cenouras...Queremos aprender tudo quanto o nosso avô nos possa ensinar, porque a nossa mãe disse-nos que ele sabe muitas coisas. E, assim, pode ser que um dia eu e os meus irmãos possamos ensinar os nossos filhos e netos. Não nos havemos de esquecer do que ele nos pode ensinar. Não concordas? Como vamos adorar! - Eh, eh, eh…- riu o Miguel. E, virando-se para o Duarte, perguntou-lhe: - Já agora, se não te importas, deixa-me fazer-te uma pergunta: Tu sabes, onde é o moinho do meu avô, já que conheces tudo? Ensinas-nos o caminho? A nossa mãe, disse-nos onde era, mas mais vale perguntarmos o caminho para termos a certeza de que não nos perdemos - disse o Miguel.
- Claro que sei! - respondeu o Duarte. - Não te disse já, que conheço estas águas como ninguém? Fica descansado! - disse o Duarte, tranquilizando-o. - E a ribeira é muito grande! Tem muitos afluentes, mas isso para mim não tem qualquer problema: é só seguirmos ribeira acima, e depois, onde encontrarmos uma grande enseada e um açude feito com muitas pedras, que os homens há muitos anos construíram para reter a água para fazer trabalhar o moinho, é logo ali, na margem direita. Não custa nada. Vais ver que não vai ser difícil lá chegarmos porque eu conheço muito bem este local. Podem confiar, meus amigos.
E assim, depois de estabelecida a amizade, partiram todos, alegres e sorridentes, de barbatanas dadas uns aos outros e, abanando as caudas, calmamente, seguiram ribeira acima, em direção à horta e ao moinho do avô, que os três irmãos, tanto desejavam conhecer.
Luís de Matos
Évora, 17 de Agosto de 2008 

IN MEMORIAM - texto do Prof J.L.N.

                         Ainda a Sogra, querida e eterna
Deixei num dos meus espaços das redes sociais um agradecimento a todos os amigos que nos abraçaram, directa ou indirectamente, pelo falecimento da nossa Mãe, Sogra e Avó, Nita Casadinho, e aproveito também este espaço de liberdade, vai para uma quinzena de anos, para reescrever o texto que por lá vai ficar mas que se colará para sempre na garganta e no coração de quem sabe amar e respeitar os conceitos e as práticas da família, do respeito e da amizade. É provável que, neste texto que agora inicio, haja uns acrescentos, porque quando escrevemos num dia nunca somos os mesmos quando o fazemos uns dias depois...
As nossas Mães, quando partem, nunca chegam a partir. Há-de haver sempre uma ligação que permanece ao longo de todos os tempos até ao último segundo das nossas vidas. Nascemos delas, estivemos com elas mais tempo, fomos delas mais horas, mais dias, mais meses. Somos sempre os seus meninos, porque, para os nossos Pais, a partir dos 10 anos, já teremos de ser uns homenzinhos... Pois, a nossa Mãe, Sogra, Avó e Amiga despediu-se no Sábado, com a família à sua volta, e todos sentimos, muito secretamente, que o fim estava próximo. E vocês sabem o que isso é: sentir que já não há solução e que nos resta enganarmo-nos a nós próprios e enganar os outros que estão connosco, à espera do suspiro final. 

Sentimos que a nossa Mãe Nita, com uma vida cheia de filhos e netos (e uma bisneta quase a nascer) ia partir com alegrias no coração e com mágoas que nunca mais ninguém poderia curar. Mas a nossa Mãe ficou, sobretudo, a saber que o amor que por ela sentimos, e continuaremos a sentir, é maior do que qualquer mágoa, é mais forte do que qualquer dos vendavais que lhe sobressaltou os dias, mais terno do que todas as nuvens de algodão em tempo de Verão e de dias de Sol brilhante.
Ela foi, nos últimos meses, depois da partida de todos os outros nossos Pais, o nosso ponto de referência, a nossa “matriarca”, a nossa “chefe”, o nosso único Sol e o Sol dos filhos e dos netos que nunca deixaram de a amar, que nunca a abandonaram, dos amigos dos seus netos que lhe chamavam também avó Nita e também da vizinha Maria, uma irmã, uma enfermeira, uma amiga para quem não temos palavras suficientemente fortes que expressem o agradecimento que ela merece. A nossa vizinha Maria, e eu sei que ela acredita nesse destino, tem o Céu à sua espera.
Por outro lado, a Nita sabe que, enquanto o último de nós por cá andar, o seu nome, a sua memória e a memória do seu querido Valério continuarão vivos e eternos na história da nossa família e nas histórias de todos os amigos, e foram muitos, mas muitos, a quem eles fizeram bem. E vão todos eles, os quatro e o avô Tony, a continuar nos nossos almoços de família e a serem recordados com saudade nos seus aniversários e nos aniversários de todos nós. 

Há, no entanto, algumas pessoas que, pela sua formação, continuam a preferir criar abismos em vez de pontes, a escavar valas profundas e quase intransponíveis em vez de estradas direitas onde todos pudéssemos caminhar lado a lado, com as nossas diferenças, mas com os pontos comuns que ainda nos ligam. Todos nós vivemos este tipo de experiências, porque não há famílias perfeitas. Todos sentimos que o Mal e o Bem residem mesmo ao lado um do outro mas que, como forças eternamente antagónicas e irreconciliáveis, afastam qualquer possibilidade de diálogo e atiram para cada vez mais longe a solução do que poderia ser solucionável. 

Ninguém foge ao que a vida lhes vai, aos poucos, preparando. Melhor: todos se deitarão na cama que fizerem e só a eles lhes poderá ser pedida a responsabilidade dos seus actos. Os santos estão nos altares e alguns, provavelmente, com uma boa parte da sua santidade aberta à discussão, mas nós, os humanos, nós não somos santos. Por isso, desconheço as minhas penalizações e as minhas recompensas quando um dia, como a Nita, partir para sempre. Não sei quem irei encontrar no outro lado vida, nem estou muito interessado, por agora. Sei, no entanto, que o poeta, já preocupado com as atitudes, tantas vezes incompreensíveis dos mais velhos, desabafou numa frase, aparentemente inocente: 

“Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…” 

Não há bons nem maus nesta vida. Há gente que vive de acordo com as circunstâncias, lidando com a própria dor, com a incapacidade intelectual de procurar soluções para o bem estar dos que lhes estão mais próximos, ao mesmo tempo que fomentam a divisão e a violência, gozando, aparentemente felizes, do alto da sua importância o sofrimento que vão causando. Como dizia tantas vezes a minha Mãe, saudosa e muito amiga da sua comadre Nita: “Há mais marés que marinheiros e, acredite, comadre, este género de pessoas, se não lhes dão a mão, acabarão sozinhas, desprezadas e inúteis para sempre.”

Hoje, o Valério e a Nita já se reencontraram. Queremos acreditar assim, para que tudo se torne menos doloroso e mais pacífico. Por isso, acreditamos que já se encontraram, já se beijaram e já deram as mãos para todo o sempre. E cremos que as dores, todas as dores, ficaram por cá, para que sejamos nós, agora, a suportá-las por eles, depois do seu merecido descanso.
Acreditamos também que o tempo tudo cura, tudo muda, tudo mata, tudo leva e tudo recupera.

Feliz Natal a todos os que leram este texto, a todos os que não o leram e a todos os que fingiram que não o leram.
 João Luís Nabo
 In "O Montemorense", Dezembro de 2016

IMPRENSA REGIONAL


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

POR UMA BOA CAUSA O LUÍS ESCREVEU….

Porque a memória perdura… espero desempenhar as funções que me forem atribuídas na direcção da Misericórdia do Alandroal com o mesmo espírito de dedicação e desprendimento material que sempre guiou o meu pai.
Espero honrar a Misericórdia do Alandroal.
A fotografia que acompanha este texto encontra-se no livro História da Misericórdia do Alandroal, publicado no ano de 1982 por Francisco Sanches Marques.
Nele se dá conta da riquíssima história da Misericórdia do Alandroal, paralela à história das restantes misericórdias fundadas há mais de 500 anos… muitas por iniciativa de Dona Leonor.
A data da fundação da Misericórdia do Alandroal é incerta, apontando-se o ano de 1505.
As Misericórdias sobreviveram ao longo dos tempos reflectindo a própria evolução social e política do país.
Mas mantiveram muito da sua essência e não se podem comparar a outro tipo de associações e confrarias.
É uma irmandade.
Uma irmandade que procura cumprir as 14 obras misericordiosas expressas no compromisso de 1618 da Misericórdia de Lisboa, adoptado pelas restantes Misericórdias… de que a do Alandroal não é excepção.
Passado cinco séculos, ao olharmos para a enunciação das obras misericordiosas elas terão de ser necessariamente entendidas de acordo com a evolução dos tempos e da sociedade… mas a essência está lá…
As Misericórdias preservam ainda a essência da sua fundação… uma estrutura muitas vezes de carácter feudal… os sistemas de Morgados e Capelas.
Mantêm as suas duas vertentes assistenciais primárias… o apoio aos idosos e aos doentes.
Os lares e hospitais das Misericórdias… a sua evolução no presente século em que se reflectiu uma maior ou menor intervenção estatal…
O Hospital da Misericórdia foi um exemplo paradigmático.
Recordo o Dr. Xavier.
Dirigiu durante mais de 50 anos o Hospital da Misericórdia… o Dr. Xavier era o médico do Alandroal.
Essa figura hoje já não existe… o médico da terra…
Encontrei paralelismos com a minha ideia de infância do Dr. Xavier nos livros de Fernando Namora claro… imagino ainda que o Dr. Xavier se tenha deslocado de carroça a alguns montes ermos… e nos mais de dois anos que estive na Base das Lajes como médico… Eu e a Manuela… éramos os médicos da Base… daquela comunidade… foi uma experiência muito enriquecedora e lembrava-me muitas vezes do Dr. Xavier…
A minha Joana foi connosco, era uma bebé… Quando regressámos no C130 para Lisboa trazíamos mais uma bebé… a Sofia… natural de Angra do Heroísmo.
A Manela chorou no C130… porque amou aquela vida… porque mudar custa sempre muito…
A Misericórdia esteve sempre presente na minha vida… não de forma contínua… mas cruzando-se a espaços…
Lembro-me na escola do Alandroal… talvez no sétimo ano, ou teria sido no sexto…. Quando pela primeira vez uma turma, com o apoio dos professores, decidiu fazer um jornal.
Escrevi um artigo sobre a Misericórdia do Alandroal…. Passei horas a desenhar o símbolo heráldico…
Lembro-me do cheiro das impressões do jornal… os cheiros são as nossas memórias mais profundas… já não me recordo como se chamava a técnica de impressão… mas lembro-me do fascínio das folhas azuis… e do Cabé… que como um alquimista ia produzindo aquelas folhas que ficaram para sempre como uma recordação de felicidade e recompensa pelo trabalho.
Recordo-me que a Patrícia escreveu um texto magnífico, creio que sobre um gato… e dos desenhos da Paula… a Paula ainda deve ter guardado um exemplar desse jornal.
A outra memória mais forte da Misericórdia foi a inauguração do Lar.
A cerimónia solene… o orgulho e satisfação do meu pai pela obra feita… percebo agora as dificuldades… o trabalho… as preocupações…
Foi inaugurada pelo então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva.
Eu era uma criança…. Lembro-me de as entidades locais se alinharem para os cumprimentos de despedida.
Fiquei ao lado do meu pai… era o último… Cumprimentou toda a gente com a carestia emocional que só mais tarde lhe reconheci… que para mim não é um defeito ou uma virtude… é a sua maneira de ser….
Tinha uma admiração enorme por aquele homem… fiquei impressionado com a sua altura… a sua presença… e fiquei triste por ter olhado para mim e seguido… sem me apertar a mão.
Só mais tarde se relativizam a importância das pequenas coisas.
Cruzei-me na vida mais duas ou três vezes com ele.
Uma delas numa cerimónia de homenagem quando regressei de uma missão em Cabul… no Afeganistão.
Agradeceu-nos a todos… mas nessa altura já não era no cumprimento ou agradecimento do Chefe Supremo das Forças Armadas… do Presidente da República, no que eu pensava.
Nessa altura e durante os dias que estive em Cabul pensei sempre no JP.
E ainda hoje me custa….
E por isso não escrevo mais.
Luís Manuel Monteiro Tátá


TRADIÇÕES DO NATAL EM VILA VIÇOSA


Uma tradição de Vila Viçosa aqui recordada por intermédio de Tiago Salgueiro
            GRUPO DAS RONCAS – UMA TRADIÇÃO NATALÍCIA CALIPOLENSE
O Grupo de Roncas, que festejava o Natal, constituía uma das mais relevantes representações etnográficas de Vila Viçosa no início do século XX.
No contexto calipolense, a noite de Natal era festejada com loas, trovas e cantigas dedicadas ao Menino Jesus, quer em frente de presépios, quer pelas ruas da localidade, acompanhadas com as clássicas roncas e ruidosas e típicas manifestações populares, que culminavam com a Missa do Galo.
Uma calipolense, chamada Maria Paulista, por volta de 1900, conseguiu, por essa data, congregar elementos populares, masculinos e femininos, de modo a concretizar os cantares e os folguedos na noite do Menino.
Foi ela a grande impulsionadora do Grupo Ronqueiro que, até meados de 1930, comemorava a véspera noturna da Natividade, em Vila Viçosa.
Este facto deu a Maria Paulista uma aura de simpatia popular, pela forma sugestiva e bairrista como eram desempenhados os números festivos da tradição natalícia, sob sua orientação.
Na imagem que foi possível digitalizar, podemos ver Maria Paulista no centro do grupo, como diretora e regente do agrupamento cantante e executante, vestindo à maneira das camadas populares calipolenses, tendo por companhia rapazes e raparigas tangedores de roncas, os quais ela ensaiava e manobrava, naquela função tradicional e festeira.
A constituição anual desse grupo ronqueiro principiava nos dias 20 e 21 de Dezembro, numa reunião prévia, em que Maria Paulista, depois de agendar a hora a que todos deviam comparecer, na sua casa, às Portas de Estremoz no Castelo.
Para se efetivar a Festa das Roncas, dava todas as indicações e conselhos relativos à confeção daqueles primitivos instrumentos e em relação à indumentária mais adequada aos membros do grupo musical, assim como a todas as partes componentes e inerentes ao referido conjunto folclórico e etnográfico.
Para maior e melhor performance do evento, Maria Paulista dava o exemplo de cuidado e devoção, ao fazer a montagem de um presépio com todos os componentes, na sua própria residência.
Alcatifava o sobrado de ladrilhos dos seus aposentos e disponha, sob a forma de anfiteatro, as figurinhas várias que o uso consagrou, naquele cenário místico e natalício, envolvido em verduras de cizirão e oleografias berrantes.
A dirigente do Grupo das Roncas tinha verdadeiro orgulho em mostrar o Deus Menino, no meio das pompas de fancaria que ela dispunha, com certa arte, ao gosto popular alentejano.
Às oito horas da noite, na Véspera de Natal, todos os executantes do Grupo das Roncas reuniam-se em casa de Maria Paulista, conforme aviso anteriormente transmitido. Tudo ordenado e disposto, o típico agrupamento, antes de sair à rua, erguia, perante o presépio da dona da casa, seus louvores, loas e trovas ao Menino Jesus que, desnudo, sorria aos cantadores e tocadores, no seu minúsculo colchão de seda e na sua almofadinha bordada.
Entretanto, à porta da humilde habitação, o arauto do grupo, portador do fogo livre, lançava ao ar estralejantes foguetes, sinal festivo que era, para Vila Viçosa., a essa hora em íntimo recolhimento na lareira, o prenuncio ansiosamente esperado, daquela função original.
Após estes preliminares, deslocava-se pelas ruas calipolenses aquele aglomerado de ronqueiros, cantando, tangendo, acompanhado de muito povo e rapazio, ouvindo-se, de quando em quando, ruidosas aclamações populares, com o rebentar de bombas e morteiros e o esfuziar de girandolas estrepitosas.
E, ao perpassar pelos arruamentos do burgo calipolense, o Grupo de Ronqueiros ia entrando nas casas que desejava honrar com a sua presença, seus cantares, suas saudações festivas, ou naqueles lares para onde é solicitado com empenho, sendo, em todas essas famílias, obsequiado com bolos, filhoses, café, licores, nógados e outros oferecimentos.
Dadas as mútuas boas festas, os roncadores seguiam o seu destino, de rua em rua, de largo em largo, até à hora ansiada e consagrada da Meia Noite, momento em que eram forçados a dirigir os seus passos para a Igreja de São Bartolomeu, onde assistiam devotamente à Missa do Galo e procediam à cerimónia tocante de beijar o Menino Jesus.
Daqui, o Grupo das Roncas seguia tangendo e cantando até Nossa Senhora da Conceição, freguesia Matriz da Vila.
 Lá chegados, se os actos religiosos da Natividade não estivessem ainda concluídos, todos se prostravam a orar e beijavam novamente o Menino, depois do quê, cada membro do grupo recolhia ao aconchego dos seus respetivos lares, a fim de consoar ou missar em família.
Cada um levava a sua ronca, esse instrumento rudimentar e primitivo, composto de uma panela de barro, com a boca coberta de uma pele de banha de porco, tendo ao centro um palmo de cana delgada, fixa na pele e que serve de vibrador, o qual se tange com a mão direita, lubrificada com saliva.
As músicas que o grupo cantava eram de gosto e de sentimento, adaptando-se à letra das loas de forma harmoniosa. Todo esse conjunto, para quem teve o privilégio de contemplar a dedilhação das roncas e compreender o sentido das trovas, era uma visão de excelsa evocação e de magnitude regionalista.
A morte de Maria Paulista abriu na Festa das Roncas uma lacuna insubstituível. No entanto, esta tradição foi recuperada há uns anos, por alguns calipolenses, que teriam ainda nesta tradição oral, uma referência em termos identitários.
Haverá “Marias Paulistas” nos nossos dias, que reavivem esta memória?!
O desafio fica lançado...

FONTE:
MANSO, Lopes, ETNOGRAFIA CALIPOLENSE, Revista Portuguesa, nº 1, Janeiro de 1928.




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

            QUANDO MAIS UMA VEZ O TERROR SE FEZ SENTIR….                      MEDITEMOS NESTE POEMA DA MARIA ANTONIETA .
                                            QUE TE LEVA AMIGO, IRMÃO…?

Que te leva amigo, irmão… ?
A enveredar por caminhos sinuosos,
A mutilar inocentes que lhes mentes e, não sentes,

A celebrar a injustiça sem ouvires o perdão,
A viver amargurado sem que haja razão,
A agitar as loucuras no momento dum não,
Que em momentos de fraqueza só penses no mal,
Que esqueças a vida e acordes, como irracional, 
Sem escutares a tua imperfeição!
Que te leva amigo, irmão… ?
A não ter a força de prosseguir a vida, 
Quando comigo trocaste momentos de sonho, 
Quando brincamos juntos em sorriso tamanho,
Que pensamos em mudar o mundo num habitar sereno, 
Que projetávamos ser construtores ativos, 
Que tínhamos pejo de injustos motivos, 
Que tínhamos a coragem de dialogar num ambiente ameno,
Sem nunca ponderar maldosos juízos!
Que te leva amigo, irmão… ?
A não acreditar no mundo,
Onde existe o mar, a terra e um sol fecundo,
Que está à mão de ti, para plantares o fruto,
Que alimenta a vida com teu contributo!
Que te leva a amigo, irmão… ? 
À perene destruição do universo,
À ilusória consciência que te prende e limita no conceito de afeto,
O não sentir comoção da lágrima que cai,
O não nutrir a liberdade que se esvai,
O não dormir noite e dia, por sonho pesado de veto!
Todas as mãos são precisas para construir, assim podemos ter, dar e conseguir a liberdade que ambicionamos.
Maria Antonieta Matos 20-12-2016
Pintura: Mestre Costa Araujo Araujo

TEMPO DE NATAL

         

HISTÓRIAS DO LUÍS DE MATOS

Assinalando a época Natalícia neste mês de Dezembro as histórias do Luís de Matos  são dedicadas aos mais novos.

                               JOÃO E A BOLA ARCO-ÍRIS
Era uma vez um rapaz chamado João.
João era ainda um menino, um pouco franzino, moreno e olhos castanhos, que gostava de pular e sonhar. Morava na zona mais antiga da vila e vivia mesmo ao lado da casa do Mau-Tempo, que ficava junto do castelo. Mau-Tempo, era a alcunha dada a um rapaz que brincava com o João e que tinha a mesma idade dele.
Um dia, a mãe levou-o a passear e a fazer compras na Feira de Nossa Senhora D’Aires, em Viana do Alentejo, que era a terra onde ele tinha nascido.
Era uma tarde de domingo, por sinal o último de Setembro. No horizonte viam-se duas ou três nuvens brancas que pareciam rolos de algodão colocados no céu. O sol iluminava a terra sem qualquer obstáculo, o que obrigava os romeiros a procurar a sombra para refrescar os corpos. 
A feira é um acontecimento anual que se realiza em finais do mês de Setembro. É tempo dos romeiros verem as oliveiras carregadas de azeitona grossa com os ramos pendurados quase a beijar o chão começarem a dar nas vistas. É tempo das pastagens amarelecidas e dos rebanhos de ovelhas comerem uma ou outra erva que acaba de vir ao mundo com as primeiras chuvas. Coitada da erva que não a deixam chegar à idade adulta. Mas, ela teima no seu ciclo de vida. O seu tempo de crescimento há-de chegar com a passagem do Outono, Inverno, Primavera e parte do Verão e ficar amarelecida na próxima Feira D`Aires.
Para esta feira, muitas são as pessoas que se deslocam de todas as cidades, vilas, aldeias e montes em redor, deixando as casas onde moram e as ruas praticamente vazias. 
Naquele dia, quando João chegou à feira, ficou muito admirado por ver tanta gente junta. Dava mostras de ter medo e apertava com força a mão da mãe. 
As barracas dos feirantes estavam muito bem alinhadas no recinto da feira. Os feirantes tinham muitas coisas expostas para venda e tudo estava muito bem arrumado, para as pessoas poderem ver e escolher melhor o que queriam comprar.
Havia bonecas de papelão, carrinhos e camionetas de madeira, flautas de barro pintadas de muitas cores, pentes, pratos e potes de barro de cores muito vivas, copos de vidro, canivetes, balões, bolas de borracha, roupas, calçado e muitas, muitas coisas. Eram tantas coisas novas, que o João nunca tinha visto. Para ele, tudo era novidade.
As pessoas eram tantas, que o João não sabia por onde andar com tanto encontrão que levava. Tinha medo de ficar no meio de toda aquela gente, que ele nunca tinha visto e cada vez apertava mais a mão da mãe.
- Vá lá, menino, vamos andando que ainda há muita coisa para ver e eu tenho que comprar uns pratos e uns copos para levar para casa.
- Mas, mãe, eu quero uma camioneta de madeira. Não a vistes ali? Era tão bonita! Estava pintada de várias cores!
- Não sejas tonto, menino. Compro-te outra coisa. 
- Então quero um canivete.
- Um canivete? Onde é que já se viu uma coisa destas? Não, isso também não te compro. Vamos. Toca a andar! 
- Então quero uma bola, pronto! 
João começava já quase a fazer birra. Então a mãe, resolveu comprar-lhe um par de ténis, porque estava mesmo a precisar deles.
- Isto é que tem utilidade, desabafou a mãe e o João gostou muito dos seus ténis novos. Ficou tão contente com os seus ténis, que nunca mais se lembrou da camioneta de madeira, do canivete e da bola. E logo disse à mãe: Mal chegue a casa, vou logo calçá-los.
Mas o João ficou ainda mais contente, quase doido de alegria, com a bola que o tio Manuel, que morava em Aguiar e já não via há muito tempo, lhe queria comprar. 
Era uma bola feita com material muito especial e com muitas cores. 
- Isto sim, é que é uma bola, disse o João.
O rapaz experimentou bater a bola no chão e viu que ela pulava muito. 
A bola pulava tanto, tanto, como ele um dia sonhou saltar tão alto. Sonhou que tinha ultrapassado as nuvens e chegado à lua e que passeava no céu pelo meio das estrelas. Ou, senão lhe fosse possível chegar à lua, pelo menos, quando desse um pulo, chegasse até ao cimo da torre mais alta do castelo, para depois, lá de cima, poder ver os pombos nos telhados e os passarinhos nas árvores da serra. João podia ainda, lá do alto do castelo, ver tudo em redor, até onde a sua vista alcançasse. Se isso acontecesse, João já se dava por satisfeito.
- Que bom, tio Manuel, dizia o João, com um grande sorriso de orelha a orelha. 
Gosto muito desta bola. É tão colorida! Até parece o arco-íris que se vê além por detrás da serra.
Estás a ver? É bonito o arco-íris, não é? Vais comprar-ma, tio Manuel?
- Vamos ver, vamos ver, respondeu o tio, enquanto dava uma piscadela de olho à mãe, deixando criar alguma expectativa no João.
Entretanto, João ia assistindo à compra e já começava a ficar aflito, porque nunca mais o tio chegava a acordo com o vendedor que pedia muito dinheiro pela bola e o tio não estava disposto a pagar tanto.
- Não senhor, não dou tanto dinheiro, dizia o tio do João para o vendedor. 
João começava a ficar impaciente porque nunca mais tinha a bola nas suas mãos, assim como se fosse sua. Como já a tinha experimentado e gostava tanto dela, aquela conversa entre o tio e o vendedor, não lhe interessava para nada. Custasse lá o que custasse, João o que queria era a bola.
Finalmente, os dois homens chegaram a acordo. A bola já era dele. Estava radiante e desejoso de ir para casa para poder jogar com os amigos na sua rua calçada com pedras extraídas das entranhas da serra, ou no largo do castelo, que era também um dos seus lugares preferidos. 
João começou logo a pensar nos dias em que não tinha escola, ou ao final da tarde, podia ir jogar com os amigos no campo de futebol, onde só jogavam os homens ao fim de semana, o que fazia sentir-se muito importante.
João ainda teve de andar com a mãe um pouco mais na feira e pode admirar muita coisa que nunca tinha visto. Viu, por exemplo a barraquinha do algodão doce e das pipocas de várias cores. 
Viu o carrossel com cavalinhos, girafas e outras figuras de animais que os meninos montavam. Quando o carrossel girava, os meninos riam e agarravam-se ao pescoço dos cavalinhos e das girafas.
João disse à mãe que queria andar no carrossel, mas ela disse-lhe que não tinha moedas. Além disso, estava com pressa de regressar a casa. 
A um canto do santuário estava um homem vestido com umas roupas muito largas e de várias cores. Dava para perceber que era magro e tinha barba um pouco comprida. Junto do homem, estava um pano preto estendido no chão.
O homem tocava flauta e uma cobra que estava dentro de um cesto, levantava a cabeça ao som da música. A cobra não saia do cesto e parecia não se incomodar com as pessoas que iam passando, ou paravam para ver o espectáculo. A cobra parecia ser amiga do homem.
João viu também uma carrinha com uns grandes cartazes coloridos, que passava a anunciar o espectáculo de circo.
A um outro canto, junto da igreja, num palco improvisado, viu um artista que manipulava marionetas muito bonitas. Em volta do palco estavam muitas crianças a assistir ao espectáculo que o João conhecia muito bem, porque algumas delas andavam com ele na escola. 
João parecia que estava num mundo de magia. Estava a gostar tanto da Feira e andava tão descontraído, que já não apertava a mão da mãe.
Mas, ao João ainda lhe era reservada outra surpresa. Iria assistir ao desfile do cortejo etnográfico que naquele momento passava junto à Igreja de Nossa Senhora D’Aires.
Integrado no cortejo, desfilava um carneiro com chifres muito recurvados e a lã era tão branca como a neve. Ele pensava para com ele, como a lã devia ser fofinha! O dono do carneiro tinha-lhe colocado um chocalho no pescoço e enfeitado com flores vermelhas o que fazia com que o animal ainda ficasse mais bonito. Colocou-lhe também uns arreios para puxar uma pequena carroça pintada de vermelho, verde, azul e amarelo que tinha sido mandada fazer a um carpinteiro de Alcáçovas, propositadamente para desfilar no cortejo. 
O carneiro era conduzido por um rapaz que tinha mais ou menos a idade do João e que ele conhecia de uma terra vizinha. O rapaz era amigo do João e filho de um pastor chamado José da Malha. 
Malha, não era o nome do homem. Era a alcunha do pastor por ter um pequeno defeito na cara. O homem era das Alcáçovas e tinha muitas ovelhas, o que lhe foi fácil escolher um carneiro que fosse o melhor exemplar para participar no cortejo etnográfico. O animal era de fazer inveja a todos os pastores da região.
O homem fez questão de levar ao cortejo, o melhor animal do seu rebanho. O senhor Malha gabava-se de ter o melhor carneiro das redondezas e queria-o mostrar a toda a gente, porque também era bom para o seu negócio.
Com um carneiro assim tão bom, a ovelha que tivesse filhos daquele pai carneiro, também seriam grandes e fortes e renderiam muito dinheiro, dizia o senhor Malha.
Naquela tarde, João teve ainda uma surpresa maior, quando viu chegar ao recinto do santuário uma enorme fila de cavaleiros e cavalos muito bem arreados que puxavam charretes engalanadas. Os cavalos eram conduzidos por pessoas muito bem vestidas com trajes muito bonitos. João nunca tinha visto uma coisa tão linda. Estava mesmo muito, muito feliz. Tinha passado uma boa parte do dia a ver muitas coisas novas. Aprendeu muita coisa e teve oportunidade de rever amigos. Eram amigos de muitas brincadeiras e que o João não via há muito tempo.
Ao fim de todo aquele tempo de andar na feira e quando a mãe já tinha feito as compras todas que queria, João ajudou a mãe a arrumar as compras no automóvel e os dois voltaram para casa. 
Durante o caminho, João apertava contra o peito a bola colorida, que ele não se cansava de dizer que era tão colorida como o arco-íris.
João vinha tão contente, tão feliz, e dizia à mãe que tinha passado um dia bestial. Este dia, ia ser inesquecível.
-Achas mesmo? Perguntou a mãe.
-Sim. Foi um dia incrível! Nunca mais me vou esquecer do dia de hoje.
E o João gostava tanto da sua bola, que não cabia em si de contente. Pensava nos amigos da sua rua que, certamente, também iriam ficar contentes e ao mesmo tempo surpreendidos, quando ele os convidasse a ir jogar com a sua bola nova. 
João tinha um coração bom. Tinha nobres sentimentos e desejava que a bola da cor do arco-íris fosse um forte motivo para juntar todos os amigos. Queria mesmo muito que a alegria e a amizade entre eles estivessem sempre presentes. 
João estava muito agradecido ao tio Manuel por lhe ter oferecido uma bola tão especial e mágica como o arco-íris.
João e a Bola Arco-Íris
A bola pula
e rola.
É bela a bola.
É vermelha,
uma paixão.
É alaranjada,
uma ilusão.
É amarela,
uma lembrança.
É verde,
uma esperança.
É azul,
o frio do mar.
É anil,
uma história de encantar.
É violeta,
o sétimo lar.
É um gosto.
É paixão.
É ilusão.
É simplesmente uma bola,
que pula e rola.
Meu amigo, meu irmão,
é bela a bola do João.
Évora, Outubro/2010 Luís de Matos 
Ilustração de 
João de Matos

CRONICA DE OPINIÃO TRANSMITIDA HOJE NA DIANA/FM

                                                   Espíritos da época

Terça, 20 Dezembro 2016
As épocas que se impõem festivas são um bom exemplo do que como muito do que é feito em nome de um interesse comum acaba por provocar tanto adeptos como dissidentes, gerando loas ou críticas, aplausos ou vaias, empenho ou indiferença.
Os consensos são, pois, virtudes que implicam sacrifícios (como, aliás, tantas outras virtudes que se conquistam com dores de crescimento) e o mais bonito é quando estes se distribuem por entre as partes. Além disso, em nome de determinados princípios, os inabaláveis, consensualizar pode e deve ser, em várias circunstâncias, impossível. Por vezes acontece tropeçarmos em quem mascara, com a alegação de uma finalidade comum, percursos completamente enviesados em comportamentos que são só por si reveladores de princípios bem diferentes. Há até um dito que joga com os sentidos destas palavras e vaticina que quem não tem bom(s) princípio(s) não tem bom fim…
Do espírito de Natal confesso que só acredito nos que se declinam no plural, os de Dickens, os três espíritos que visitam o avarento Scrooge nessa noite mágica. O primeiro é o espírito do Passado que lhe devolve uma infância dourada e que é, no fundo, o que evocam tantos dos que se reúnem com aqueles com quem conviveram nesses tempos, sejam familiares ou amigos. O espírito do Presente alerta para a miséria e para a ignorância, para o que se faz no colectivo e se reflecte no percurso individual de quem o faz, chamando-nos à razão para uma vida social a não descurarmos, apesar de haver nalguns tendências misantrópicas. O do Futuro mostra a Scrooge a solidão, até como consequência de um Presente que se esquece do Passado, e revela a morte inevitável. É com a ajuda desses espíritos que ultrapassamos tantas vezes a pouca vontade de festejar entrando, precisamente, no espírito do Natal, o tal que será, então, quando um homem quiser.
Além destes, que nos chegam mais exacerbados por esta época, há outros quatro espíritos que valorizo muito. O espírito crítico, atitude intelectual que não admite nenhuma asserção sem reconhecer a sua legitimidade. O espírito de equipa, sentimento de união partilhado pelos elementos de um grupo. O espírito de finura que Pascal, matemático e filósofo francês do século XVII, define como uma aptidão intuitiva, uma sagacidade e perspicácia que abençoam e ocupam alguns. E, finalmente, o espírito geométrico, que só admiro se for o papel de embrulho que contém os outros três, e que revela a aptidão discursiva e demonstrativa, num encadeamento lógico das ideias.
Se estes espíritos nos fossem concedidos talvez não atingíssemos a felicidade plena ao vivê-los em sociedades plurais e diversificadas, mas se nos rodeássemos de gente bafejada por eles era mais provável que conseguíssemos transformar alguma coisa nessa sociedade. Seriam bons presentes no sapatinho, alimentando uma semana depois a esperança de um novo começo ao passarmos de ano. Não sendo assim, fiquemo-nos por deixar passar, naturalmente como na vida, o Passado, o Presente e o Futuro, ou seja o Tempo, e juntemo-nos aos felizes comensais, ainda que às vezes para alguns um bocadinho contrariados. É só às vezes. E a desculpa não somos nós, mas um alguém que alguns acreditam andar a tratar de nós. Como a família e os amigos. Bom Natal, boas festas e até para o ano!
Cláudia Sousa Preira