Evocando Helena Cidade Moura
«Julgar-se-ia bem mais correctamente um Homem por aquilo que ele sonha,
do que por aquilo que ele pensa.»
Victor Hugo
(Poeta, escritor e dramaturgo francês – 1802/1885)
Helena
Cidade Moura fez parte de um escol intelectual que frequentou uma turma de
Românicas (Universidade de Lisboa), e onde figuravam igualmente a Professora
Universitária e Crítica Literária Maria de Lourdes Belchior, o Poeta Sebastião
da Gama, a Escritora Matilde Rosa Araújo, a Escritora e Actriz Maria Barroso, o
Professor Universitário e Critico Literário Lindley Cintra, o Poeta, Escritor e
Professor Universitário David Mourão-Ferreira e o Escritor Urbano Tavares
Rodrigues. Oriunda de uma Família de alentejanos (o pai era natural da Vila do
Redondo e a mãe nasceu em Évora), Helena Cidade Moura estaria perfeitamente
destinada - já porque a sua Família era socialmente
conservadora e economicamente abastada, e porque o pai (o Professor
Universitário, Historiador e Crítico Literário
- Hernani Cidade) era um
estudioso emérito da Cultura Clássica
- a seguir, Helena Cidade Moura,
a carreira Universitária como Docente. Mas não: encontrá-la-íamos
fundamentalmente como activista cívica e estudiosa e crítica da Literatura
(sobretudo da Obra de Eça de Queirós - lembrando
Carlos Reis, no “Jornal de Letras”,
as inúmeras conversas sobre a Obra Queirosiana que tivera com Helena Cidade
Moura).
Perfilhando
um Catolicismo Progressista, Helena Cidade Moura seria um dos 101 subscritores
do “Manifesto dos 101 Católicos”, que
criticava e denunciava a cumplicidade da hierarquia da Igreja e do regime, face
à ditadura na política interna, e em relação à guerra nas colónias. Efectivamente, o propósito de
Helena Cidade Moura em intervir na promoção Cívica dos Portugueses, e despoletar
um regime democrático no País, surge logo em 1969, ao participar nas campanhas
eleitorais da Oposição (através da CDE – Comissão Democrática Eleitoral).
Fundadora do Movimento Democrático Português (MDP), concorre às eleições para a
Assembleia da República, em duas Legislaturas (1980-83 e 1983-85) -
sendo Deputada (pela coligação MDP/PCP:APU). Na qualidade de Deputada,
diz de Helena Cidade Moura, o seu correligionário José Tengarrinha, que ela
trouxera uma maneira nova de fazer política, renovando o vocabulário político
(de uma oposição democrática, desgastada por um combate de décadas contra o
Estado Novo). Seria candidata ainda ao Parlamento Europeu (1987), de cuja
campanha ressaltamos o “slogan”
poético (de Joaquim Pessoa e Helena Cidade Moura): “Não parar o vento // não erguer
o muro. // Este é o momento de fazer futuro. //
Desta vez é outra vez // é a voz
de quem sonha // que a vida plena //
não é só viver // é, também,
escolher.”
Por
iniciativa de Helena Cidade Moura, é criada a Associação Cívica “Civitas” -
promotora da dignidade do Homem, e defensora dos direitos humanos - a
que, inspirada nos ideais cívicos do português António Sérgio, e dos
brasileiros Paulo Freire, Frei Betto e Leonardo Boef, acrescentaria a campanha
de alfabetização e de difusão da literacia
- pois entendia que o cidadão
autêntico, promotor de uma Democracia, defensor dos direitos cívicos, senhor do
seu intelecto, produtor de um pensamento, terá de ser um cidadão consciente,
culto, personagem de uma inteligência ginasticada: e tudo isto só pode ser
fruto de uma aculturação, do hábito de Leitura (que lhe abra a compreensão de
um manifesto eleitoral, a produção de um panfleto ou de um artigo de jornal, ou
a participação num comício ou numa conferência). Aliás, sobre o seu livro “Literacia em Português”, diz-nos Helena
Cidade Moura: “Pretende-se com este livro
difundir o interesse e a capacidade de análise despertados para o fenómeno da
literacia, que tem atrasado, nos últimos anos, o nosso caminhar colectivo, tem
afectado a capacidade de organização da nossa vida em comum, tem ajudado a
adormecer a consciência cultural do País”.
Eugénio
Lisboa, em depoimento no “Jornal de
Letras” reconhecia em Helena Cidade Moura a delicadeza, o fascínio de
convicção (convencendo amigos e entusiastas competentes a participar nos seus
movimentos cívicos, recorrendo a uma simbiose de argumentação cívica, discurso
ético e fino trato na abordagem a um novo entusiasta). Porém, ressalvava
Eugénio Lisboa, no decorrer da “missão
cívica” em que
Helena Cidade Moura se envolvia, a “passada” larga de Helena na vida do activismo cívico, deixava a
léguas atrás os que a queriam acompanhar: nunca desfalecia no empenhamento
cívico.
Helena
Cidade Moura era Poetisa (publicou os livros “O Mundo sem Limites”, “O
Tempo e a Esperança” e “Memória e Ritual”). Como Poetisa,
talvez se sentisse bem com as vestes de “Sibila”,
e compreendesse atempadamente que o seu Povo necessitasse do seu empenhamento,
activismo e inteligência - mesmo enfrentando incompreensões dos seus
detratores, e as intervenções policiais da Ditadura (como efectivamente
surgiram). Nada demoveu o seu entusiasmo e determinação.
Helena
Cidade Moura despediu-se de nós em finais de Julho último, aos 88 anos. Casara
com o Professor e Engenheiro Domingos Moura (Catedrático do Instituto Superior
Técnico) e era cunhada do Economista e activista Francisco Pereira de Moura.
Despediu-se
Helena Cidade Moura, é certo: mas apenas fisicamente -
permanecendo entre nós a Obra Cívica, o Exemplo - a
admirar e a tentar imitar, e a continuar
- e, fundamentalmente o seu sonho
de emancipar o ser humano através da Cultura.
José Alexandre
Laboreiro