Remexendo em papeis antigos, vejam o que descobri. Coisas
que o Rufino me enviou antes de bater as botas.
Chico Manuel
« O ENDOVÉLICO COMO MOTE »
Quando estes acontecimentos se deram já os tempos pertenciam
à época que mais tarde se convencionou chamar de era cristã. Assim, a
localização destas narrativas, que foram situadas junto ao santuário do deus
Endovélico, é arbitrária, e deriva de ter que as situar em qualquer lado.
Conto Primeiro
« Quem faz um filho....
Ao ouvir cantar o chocalho do chibo velho, Gaditana começou
a pôr a mesa, isto é, dispôs a gamela e as colheres de madeira, a corna das
azeitonas e a pequena bilha da água sobre meio tronco de uma árvore, toscamente
cortado, e suportado por quatro pés embutidos. O pequeno alpendre que servia de
local para as refeições, era também a entrada para a única dependência da casa.
Ainda debaixo do alpendre fervia, numa pequena panela de barro, sobre um
braseiro faiscante, um cozido de cabrito com agriões, recentemente colhidos na
ribeira que corria junto ao cabeço em que a casa se situava. A casa, de formato
redondo, tinha paredes de lajes de xisto sobrepostas, argamassadas com cal e
barro e tecto de junco disposto em várias camadas, suportado por um grosso tronco de madeira, grosseiramente
aparado.
Táutalo, companheiro de Gaditana, e assim chamado em
homenagem a um chefe lusitano, regressava a casa, ao anoitecer, com o pequeno
rebanho de caprinos que constituía todos os seus bens, fazendo-se anunciar pelo
badalar do chocalho do chibo. Ao lado da casa ficavam os currais do gado e a
choça em que guardavam algumas alfaias agrícolas, pouco mais que algumas
foices, sachos e gadanhas. Este pequeno conjunto de construções, muito
precárias, como se vê, situava-se num outeiro em frente de um antigo povoado, abandonado
nas margens da ribeira, e que mais tarde, bastante mais tarde, viria a ser
conhecido como “Castelo Velho”.
Após a ceia, o jovem casal estendeu algumas peles de cabra
sobre um monte de folhas secas e tapou-se com uma pesada manta de curtidas
peles a fim de iludir o frio que se fazia sentir, soprado pelo vento, vindo dos
lados da serra d’Ossa.
Poderia este primeiro conto ficar por aqui. Mas não fica. Se
ficasse, que papel teria o Endovélico nesta narrativa? É necessário, pois,
acrescentar alguma coisa mais! Tratando-se de dois jovens, mal saídos da
puberdade, em plena pujança da vida, que pelos critérios actuais nem dezoito
anos teriam, a natureza, forçosamente, lhes pediria mais. Adoradores de
Endovélico, cujo santuário se situava nas proximidades, acreditavam na
fertilidade da vida, e tudo faziam para que essa fertilidade se concretizasse.
Mal se deitaram, sentiram-se tomados por todos os desejos. Ela, deitada de
costas, com as pernas afastadas, e o homem no meio delas. Olhos nos olhos. Sem
palavras. Beijaram-se, se por acaso beijos, tal como os entendemos hoje,
aconteciam nessa época. A Gaditana dobra as pernas para a penetração ser mais
profunda e o gozo mais completo. O acto inteiro apenas demorou alguns momentos.
Momentos de plena satisfação! Foi bom para ela e foi bom para ele. E também foi
bom para a Humanidade! Contribuíu, para além de tudo o resto, para a
continuidade da espécie. Várias luas depois foram agradecer a Endovélico o
nascimento do seu primeiro filho. Um belo rapagão. Parido naquela mesma cama de
folhas secas, sobre as macias peles de cabra.
O agradecimento ao deus Endovélico consubstanciou-se no
sacrifício de um cabrito e na oferta de uma lápide. Talvez uma daquelas lápides
que Leite de Vasconcelos levou para Lisboa cerca de dois mil anos depois!
FIM
Conto Segundo
« Quem tem um filho....
( Durante muitos séculos foi o deus Endovélico venerado por
celtas, fenícios, cartagineses e romanos, na região que hoje denominamos por
Alentejo. A narrativa que se segue, teve lugar aquando da permanência romana na
península ibérica, numa época já muito próxima da ocupação religiosa da crença
cristã. )
Texto de lápide votiva encontrada nas ruínas da ermida de S.
Miguel Arcanjo, na herdade da Mota:
« ENDOVELLICO SACRVM MARCVS IVLIVS PROCVLVS ANIMO LIBENS
VOTVM SOLVIT »
Tradução “ à maneira “ : Dom consagrado ao deus Endovélico.
Marco Júlio Próculo de boa mente cumpriu o seu voto.
Marco Júlio Próculo era um cidadão romano, nascido na
península ibérica, que mantinha uma grande casa agrícola, junto à confluência
da ribeira Sagrada com o rio Anas, num local hoje conhecido por Sítio das Águas
Frias. Homem já com uma certa idade, tinha como desgosto maior o facto de não
ter descendentes. Último membro de uma nobre
família romana, há quase dois séculos radicada na península, resistira a todas
as mudanças políticas operadas na capital do império. Resistira a todas as
intrigas dos nobres, seus pares, e conseguira manter intacto o prestígio, assim
como a propriedade, herdada dos pais que, por sua vez, a tinham herdado dos
antecessores. No ano anterior ao episódio que pretendemos narrar, deslocara-se
a Roma, a fim de dar explicações à família da esposa, sobre as condições em que
esta falecera, vítima de febres desconhecidas, de nada valendo todos os esforços
que fizera para a curar das maleitas porque fora tomada.
Voltara casado de novo. Desta vez, com a irmã mais nova da
anterior mulher. O nobre senador, pai das duas, convencera-o a desposar a
cunhada, justificando essa atitude com a intenção de manter a família agregada.
Os deuses se encarregariam de solucionar a vinda do herdeiro, vital para a
manutenção do património familiar em boas mãos. A rapariga era uma mulher alta,
de pele branca e sedosa, olhos amendoados e cabelos negros. Corpo elegante, a
condizer. Já que a anterior mulher não lhe dera filhos, seria a vez da irmã
mais nova tomar essa obrigação como encargo.
Tomou!
Assim que se instalou na “villae”, junto à foz da ribeira
Sagrada, manteve debaixo de olho um jovem escravo que tratava das cavalariças.
Era um rapaz de estatura meã, moreno de tez, barbudo, pernas arqueadas de tanto
cavalgar, feito escravo durante uma das frequentes escaramuças entre romanos e
lusitanos, estes, sempre indomáveis. Não muito asseado, reconhecia ela,
habituada aos banhos romanos e perfumes exóticos, mas atraente, à sua maneira.
Entretanto, Marco Júlio Próculo, que tinha incluído o
Endovélico entre os seus deuses, prometia grandes dádivas e sacrifícios na ara
sagrada, se fosse beneficiado com a vinda de um filho.
E foi. Foi agraciado com a chegada de um filho, exactamente
duzentos e setenta dias depois da sua mulher se ter rebolado com o escravo nos
montes de palha da cavalariça.
E a lápide, quase dois milénios depois, aí está para o
atestar.
FIM
Rufino Casablanca
Monte do Meio
Maio de 1995
ATT – Alguns dados utilizados nestas narrativas, foram
retirados de ensaios escritos pelo Padre Joaquim Rocha Espanca e pelo cientista
Leite de Vasconcelos. R.C.