Figura sobejamente reconhecida no Alandroal João Cardoso Justa (J.C.) desde há muito se vem distinguido no panorama das artes e cultura.
Já por mais de uma vez aqui no Al Tejo foram divulgadas obras suas no capítulo da pintura, e foi com agrado que verificámos que muitas dos seus quadros têm sido objecto de exposições não só nacionais como internacionais.
J.C. surpreende-nos agora com uma incursão pelo mundo da história e geografia de há muitos séculos, com uma obra devidamente fundamentada na qual defende a tese de que a mítica Cidade Céltica de Lacóbriga, com 2370 anos de idade, foi berço do Alandroal e está sob os nossos campos abraçada ao Templo Endovélico, que, (também defende JC) terá uma localização diferente daquela que os arqueólogos indicam.
É sem duvida um trabalho de pesquisa digno de louvar, e que a comprovar-se muito dignifica o Autor mas muito mais contribui para a história do Alandroal.
J.C. teve a amabilidade de escolher o Al Tejo para divulgar a sua obra, enviando-nos parte do que pretende vir a ser uma publicação futura.
É apenas um resumo.
Temos plena consciência que o assunto ventilado não é acessível a qualquer um, mas muitos haverá que tal não lhes passe despercebido. Por isso mesmo, e dado que vai ser durante vários dias objecto de “postagem seguidas” aconselhamos os nossos leitores a guardarem o que a tal diz respeito, aguardando a publicação final.
Por fim: Um muito obrigado ao João Cardoso pelo reconhecimento demonstrado para com o “amigo Chico” mas também pelo Al Tejo.
Chico Manuel
A CIDADE DO ENDOVÉLICO
Nota introdutória:
Esta publicação, breve síntese de outra, mais abrangente e detalhada que penso editar oportunamente, não tem a pretensão de ser considerada um documento histórico apesar do extremo rigor (documentado) de tudo o que nela é referido. Não segue essa metodologia, não é escrita por alguém com formação em História, nem é preferencialmente dirigida ao “mundo académico.
Se as breves palavras que “rascunhei” há anos, numa tarde solarenga que inundava de morno silêncio a sala de leitura da Torre do Tombo, não tivessem resistido, teimosamente vincadas, numa das minhas caóticas sebentas, a determinação em realizar esta pesquisa histórica de que aqui vos pretendo revelar os resultados, ficaria por certo, como ficam tantas ideias da nossa vida, primeiro, adiadas para tempo incerto, e depois, esquecidas para sempre. Mas, tantos foram os olhares indiferentes, sobranceiros, senão desdenhosos, que em meu redor se multiplicaram quando, entre “a sacra e muy nobre” elite dos meios académicos, me atrevi a balbuciar a informação sintetizada nesse rascunho que, o medo ao ridículo, perante a minha própria inteligência e sobretudo a alheia, a foi remetendo aos poucos para os dúbios níveis do imaginário e do fantasioso. Contudo, em Setembro de 2011, após assistir a uma conferência sobre o Deus Celta Endovélico e da sua localização representativa no Templo (ainda não determinado arqueologicamente) no famoso outeiro de S. Miguel da Mota, o sentido codificado nas letras que traçara de atravesso no meu velho caderno entre o religioso ambiente da Torre do Tombo, reacendeu-se, vivo e incómodo, como nunca.
Efectivamente, (essa a ideia que eu tentava transmitir há muito) não era expectável que em redor de um Templo, com a carga mística contida no culto do Deus a que toda a Ibéria peregrinava, e a grandiosidade física que dos seus inúmeros vestígios podemos inferir, não existisse uma urbe de apoio logístico ao funcionamento de tal complexo e à guarida dos inúmeros devotos que ali se deslocavam (ainda não tinha lido Emil Hubner (1834-1901), que o afirma textualmente). Portanto, apenas duas elementares hipóteses se entrecruzavam em mim enquanto fui olhando os bicos dos sapatos pelo caminho até casa.
1ª - Que está por localizar uma cidade de dimensões consideráveis nas proximidades de S. Miguel da Mota.
2ª – Embora mais remota – Que o Templo do Deus Endovélico não se situava naquele ermo isolado, onde a decrépita ermida, de data incerta e construtor desconhecido, pretende simbolizar a cristianização do ancestral culto pagão.
Ora, era em pleno âmago da 1ª hipótese, que os meus velhos apontamentos, renascidos, incandesciam. E lá estavam, prova viva, entre desenhos e escritos vários, desencarnados de qualquer sonho ou fantasia, esperando que renovado olhar os relesse - «… os historiadores portugueses têm sucessivamente esquecido a existência de uma outra Lacobriga, transtagana (alentejana), céltica, mencionada por Ptolemeu, cap. V, tábua II, da sua Geografia, situada a oriente de Lisboa. Possível localização – Entre a ribeira do Lucifecit e a ribeira de Pardais????... » (ipsis litteris). Eis portanto, nesta última frase das minhas notas recolhidas no mausoléu dos pergaminhos, o motivo que, em vão, me acicatou a “incomodar”o mundo académico para a eventualidade desta descoberta. Aquele pequeno palmo de mundo, entre as ribeiras meridionais da Serra D`Ossa que serpenteiam até ao Guadiana, era o campo, a terra e as árvores e os matos e as ervas, onde nasci e cresci, era o passado da minha região, das “minhas gentes”, que estava em causa. E esse registo de quem fomos, no Alentejo, em Portugal, ou em qualquer outra parte deste planeta, deve ser exposto com absoluta verdade às gerações presentes, para que, desde as passadas, possam traçar a trajetória desta miraculosa raça humana, e, da sua leitura, retirarem o que a idoneidade de cada um achar por bem.
Nessa mesma tarde desafiei-me na realização de uma pesquisa própria, e, é para essa “viagem” regressiva pelo tempo que os convido, até à Antiguidade, até centenas de anos antes do início da era cristã, e aí, entre florestas habitadas por animais selvagens e ribeiros abundantes que se entrelaçavam num majestoso Guadiana (então denominado Anas), determinar a localização, exacta, desta surpreendente cidade que abraçava o Templo do Deus supremo dos Celtas, e que depois, ganhou a veneração de invasores cartagineses e romanos.
Deixei crescer barba e bigode cientista, empinei no nariz os meus óculos mais intelectuais, e assim, vestido com a pele de erudito sobre a essência ignorante (coisa nunca vista), encerrei-me três meses entre pergaminhos, papéis seculares, e microfilmes, na Biblioteca Nacional de Lisboa.
Qual o significado de Lacóbriga? Que particularidades comungavam esses aglomerados populacionais para que os historiadores assinalassem a existência de cidades homónimas no território hoje designado Portugal? – Estas eram, sem dúvida, as interrogações prioritárias de onde urgia partir.
Etimologia de Lacobriga ou Lacobrica
Escreve o erudito P. Henrique Florez, na sua España Sagrada: «Lacobriga - es nombre antiguo de los españoles primitivos, segun muestra la voz “briga”, frequentíssima en lugares antiguos, que significa vila ó poblacion : y en vista de que la misma voz suele entrar a composicion com términos latinos, como Augustobrica, Caesarobrica, etc. podemos reconocer en Lacobriga la etymologia de Lacus y briga; de suerte que por algun lago vecino recibiese el nombre…»
Mais específico ainda, Leite de Vasconcelos «… o nome “briga” significa “altura”, “castelo”, e provém do termo “brig” que se encontra no irlandês arcaico “bri”- montanha, e noutras línguas célticas. O nominativo irlandês “bri” perdeu a gutural, mas esta encontra-se ainda no genitivo “breg” < “brigos”.»
Podemos pois, desta conjugação etimológica, “Lacus (latina – lago ou lagoa) + “briga”, inferir como significado abrangente de Lacobriga, um núcleo populacional amuralhado, situado numa elevação, com a particularidade de estar próximo, ou, inclusivamente, rodeado por um lago. Simplificando, “Cidade do Castelo do Lago” (ou lagoa) (o P. Florez chama-lhe apenas villa ou Cidade da Lagoa).
Conhecendo de forma genérica o que procurávamos, a razão aconselhava o estudo das duas Lacóbrigas identificadas pelos historiadores. Uma, que seria a norte (na margem esquerda do Douro, diz Plínio (Liv. 3), assinalada no Itinerário de Antonino Pio (Imperador romano, 86 d. C. – 161) no trajecto de Lisboa a Braga (como Lancobriga), de que não nos ocuparemos por motivos que durante esta narrativa serão fáceis de entender (e também porque dela pouco ou nada reza a História, duvidando-se mesmo que possuísse dimensões de cidade), e a outra, essa sim, fundamental e determinante neste estudo, a Lacobriga que os cientistas históricos demarcaram no Algarve e de quem a cidade de Lagos usufrui, (usurpa, como veremos) há séculos, Passado e Fama. Analisemos então como se procedeu à identificação no sotavento algarvio, entre os Cónios (ver fig. 1), dessa mítica urbe que Ptolemeu indica a oriente de Lisboa e à cabeça das cidades Célticas.
Dos Autores Antigos, gregos e romanos, no que se refere à descrição do Sul da área geográfica que o Império Romano designará depois por Lusitânia, diferenciando-a da Bética pelo rio Guadiana (então, por todos referido como o rio Anas), as sub-regiões por eles demarcadas chegam-nos substantivadas pelo termo “Promontorium”. Deste termo latino, das suas diferentes traduções, interpretações, corrupções linguísticas, e respectivas demarcações no terreno, criou-se uma tal miscelânea (desde Avieno, Artimidoro, Estrabão, Plínio, Varrão, Agripa, Ptolemeu, Estácio de Veja, André de Resende, etc. (e este “etc.” inclui centenas que a este assunto se têm dedicado, até aos contemporâneos Jorge de Alarcão e Amílcar Guerra), que, se os “promontorium” fossem placas tectónicas nas mãos destes cientistas, viveríamos há milhares de anos sobre terramotos colossais, tantas são as voltas em que estas regiões colidiram, estrondosamente, nos seus textos. A vocês, meus companheiros de viagem, não os vou arrastar para este interminável “cataclismo” de onde saí com todos os neurónios retorcidos, não é esse o objectivo da nossa investigação, contudo, tenho que referir o “Promontorium Sacro”, traduzido por Promontório Sagrado, pois é neste que os Autores Antigos situaram Lacobriga (“in Sacro, Portus Hanibalis e Lacobriga” – Geografia de Ptolemeu).
É pois, (situemo-nos no sec. XVI) transportando sob o hábito de frade dominicano (que a Inquisição tornará particularmente popular) uma panóplia de “promontorium” e muitas outras informações que recolheu por toda a Europa, que o eborense André de Resende, pioneiro dos nossos arqueólogos, e padrinho de muitas localidades por inspiração própria (Vila Viçosa, por exemplo, para quem ele inventou o nome de Calipolis, e os habitantes desta localidade intitulam-se, há quinhentos anos, de calipolenses, sem que para isso haja qualquer raiz histórica), ávido de riscar no terreno as cidades e os lugares escritos nos seus papéis, qual divino Baptista - «Atravessemos agora o Guadiana e exponhamos aos estudiosos da Antiguidade as cidades da Lusitânia sobre as quais se julgará sem margem de dúvida ou pelo menos por conjectura provável.» - são palavras suas nas Antiguidades da Lusitânia (Adapt. de Raúl Fernandes). E conjecturou tão bem que, alegando uma lenda que os fantasiosos seguidores da “escola alcobacense” enfatizaram dos Autores Antigos, e segundo a qual terá existido um templo a Hércules na ponta de Sagres (Artimidoro foi o único a estar lá em presença e nega peremptoriamente qualquer vestígio desse Templo. Leite de Vasconcelos apenas lá encontrou uma lenda, e bem mais humilde, umas pedras que se moviam, à noite…), e assim, de nada mais que a brisa atlântica, o cabo de S. Vicente absorveu por séculos a designação de Promontório Sagrado, e a cidade céltica de Lacobriga, que André de Resende sabia estar indicada nas Tábuas de Ptolemeu a oriente de Olysipo (Lisboa), ficou a banhos até hoje no Algarve (então país dos Cónios), e as gentes nativas na área da sua verdadeira localização, os netos desses celtas, os descendentes dos lacobricenses que, assim o veremos durante este estudo, foram dos povos mais interventivos na nossa Antiguidade, ficaram privados da sua história com mais de 2.300 anos.
Parece incrível (para quem não acompanha de perto estes malabarismos interpretativos da História) que, em pleno sec. XXI, depois de milhares de supostas pesquisas, de milhares ou milhões de textos supostamente técnicos, mas afinal, apenas compostos por ideias emaranhadas em refinada linguística histórica, possam persistir mistificações do passado com esta dimensão, mas na realidade assim é, e aqui o demonstrarei de forma a não subsistirem quaisquer dúvidas. Em Lagos, ou nas suas proximidades, não existiu qualquer Lacobriga, e acrescento mais, em todo o Algarve não floresceu qualquer urbe pré-romana com as dimensões necessárias para se lhe atribuir a designação de cidade (Ossonoba não pode ser Faro, e que Balsa seja Tavira é muito duvidoso). Parta-se da listagem dos achados arqueológicos publicada por Carlos Fabião no seu estudo sobre o “guarum”(que é bem mais tardio), investigue-se, e medite-se no que essa zona, encerrada entre o mar e as serras, teria para comercializar com fenícios ou cartagineses.
O que resta agora do objetivo inicial da nossa investigação, da procura da Lacóbriga celta, que, julgando-a perdida na memória dos tempos, na esperança que algum moribundo vestígio seu nos surgisse entre a intricada escrita da Antiguidade, nos queimou olhos e cérebro na descodificação de dezenas de livros? A cidade de Lagos, e a convicção que os habitantes dessa localidade algarvia, eles próprios, embora de distinta forma, vítimas também desta falta de rigor científico, portanto involuntariamente, usurpam o passado dos povos que mais lutaram, morreram em chacinas várias, e (é grande a possibilidade atendendo a situações semelhantes com povo celta), se ofereceram e aos seus filhos em sacrifícios de sangue para manterem vivos os Deuses e as áureas sagradas em torno das tumbas dos seus mortos. (Prossegue amanhã)




































