O último Taberneiro
A crónica do F. Manuel “
oh gente da minha terra” intensificou a ideia, que me vem apoquentando, há algum tempo, quando li um comentário anónimo, a um artigo que nada tinha a ver com o vinho, tabernas ou afins.
“Vai mais um copo”
Com o recente desaparecimento do mundo dos vivos, de um pessoa que durante toda a sua vida se dedicou à venda de vinho, a ideia de escrever sobre as tabernas tomou conta de mim.
Faço, por vezes um esforço de memória e verifico que ela ainda não me atraiçoa ou se me atraiçoa, em pequenas excepções, às vezes até propositadas, não constituem motivo forte para deixar de escrever.
Interrogo-me porque escrevo? Mais me interrogo se escrever é libertar-me ou martirizar-me?
Aqui é recordar e dar a conhecer á geração actual e vindoura o ambiente em que fomos criados.
“Quem não se sente não é filho de boa gente”
Orgulho-me do meu sítio e da minha gente, da gente simples e humilde, que me indicou o caminho, a estrada que durante a minha vida percorri e continuarei, enquanto a vontade e as forças não me faltarem, a percorrer.
Terá sido boa? Terá sido ruim? Poderia ter sido melhor ou pior?
Foi esta e só me resta continuar.
Foi o simples e honesto conviver que me avalizam a ver o dia de hoje, como ontem fosse, e o de amanhã como o prolongamento do dia de hoje.
Os factos, os acontecimento e sobretudo as pessoas só morrem quando deles nos esquecemos.
O blog é, sem duvidam, um excelente veículo de transmissão perpetuador dos nossos usos e costumes.
“Talvez aqui o comentário
“Vai mais um copo” tenha cabimento.
Vamos beber ou melhor vamos entrar em tabernas. Vamos visitar algumas do Concelho. Não as seleccionei. Saltaram-me, ao acaso da prateleira das minhas recordações.
Pouco mais vendiam do que vinho e bagaço, o mata-bichos.
A cerveja, a cervejinha, como carinhosamente era chamada, era uma bebida de excepção para as festas ou dias nomeados.
Aparece o pirolito, com garrafa, em vidro espesso, bem trabalhado e fechado com uma bola também em vidro, vedada com uma anilha de borracha de cor vermelha.
O fornecedor, mais popular, era o
Padre Eterno de Vila Viçosa, vindo mais tarde a conhecer a concorrência das gasosas do
Botas, do Redondo.
As bolas das garrafas partidas serviam para o jogo do berlinde, que consistia meter, depois de chutar a bola com os dedos da mão, em covinhas no chão, antecipadamente preparadas. Algumas vezes a força do gás chegou a partir as garrafas, chegando a ferir o bebedor ou taberneiro.
Conheci duas tabernas semelhantes, no seu parco e tosco mobiliário, no Rosário a do senhor
Mamede e em Santiago, nas Casas Novas a do senhor
Nina.
Uma noite de Inverso vindos, eu e o meu primo Zoroastro, de Évora, numa scooter com motor marca Vespa, onde tínhamos assistido a um desafio de futebol entre o Lusitano e o Sporting, fomos forçados a parar na taberna de senhor Nina. O frio era tanto que pedimos para nos deixarem aquecer á braseira. Recordo-me de alguns nomes dos jogadores, mas vou referir apenas dois alentejanos Pepe, da Azaruja e o Teotonio, de Vila Viçosa, ambos jogadores do Lusitano.
Os
irmãos Ferrarias, nas Hortinhas também foram possuidores de tabernas.
Em Terena também duas das mais antigas tabernas que conheci, a do tio
Reco, na rua de Estremoz, e a do tio
Zé Major, na rua das casas Novas, tinham uma razão de semelhança. Ao entrar e á direita tinham a chaminé, com um pobre balcão de tábuas não pintadas ao fundo.
Mais tarde aparece a taberna do
Quintino, com dois compartimentos de serventia.
Aqui se jogava ao chito, às cartas e se bebia, bebia-se muito. A
senhora Maria fazia bons petiscos, passarinhos fritos, perninhas de rã. Nunca faltava o petisco, como nunca faltava o amendoim, nem o tradicional tremoço, adoçado no tanque da horta do Paiva.
O que muito bem me recorda são os pastéis de bacalhau, com muito pouco peixe.
O
Peças, estava quase sempre bem-disposto e quando bebia, estava sempre.
Uma tarde lembra-se desta acerca dos pastéis -
Quem encontrar nos pastéis bacalhau, ganha um prémio. O outro companheirão, o mestre Manuel sapateiro arranja uma espinha de bacalhau e vai reclamar o prémio.
O
Quintino era um homem de estatura média e calmo põe natureza, atencioso, paciente com todos mesmo com algum já bebido. Recordo nele uma particularidade, conseguia firmar o cigarro no maxilar e no lábio superior, sem que o cigarro caísse mesmo quando conversava.
Recordo-me no Alandroal, de quase todas as tabernas.
A do
Eduardo, que morreu em desastre de automóvel, na estrada de Bencatel, já a chegar ao Alandroal.
Lá em baixo a do
Lica e a do
António M. Torcato, onde pela primeira vez vi um alambique. Recordo a tasca do senhor
Pimenta e do ouvir dizer –
Se for verdade, quando morrermos o nosso espírito vai encarnar num animal, o burro que encarnar a meu tem muita borrada que levar.
Não é correcto chamar taberna ao estabelecimento de venda de vinho do
Zé Canhoto, como há pouco lhe chamei, adega assenta-lhe melhor, pela disposição da sala e pelas talhas que lá tinha. Até possuía armazém de vinhos. Era boa esta pinga. De lá se aviava o meu avô, que transportava o vinho numa cabaça, e mesmo eu bebendo pouco de lá bebi algum.
Vão pensar que vou esquecer-me do
Domingos Cainó?
Nunca em juízo perfeito o faria. Foi o taberneiro que mais me impressionou, (parece que o estou a ver tocar trombone, sozinho, junto á cruz na festa dos Prazeres,) pela sua simpatia, pela improvisação na feitura dos petiscos e no seu modo de sempre bem agradar.
Não podia terminar sem referir o café do
Piçarra e do senhor
Torcato, este em Terena, por se situaram junto à paragem da camioneta da carreira e aí prestarem um bom serviço aos clientes, embora com pouco espaço.
O café do senhor
Torcato , mais tarde da família
Neves, também tem uma pequena historia ou melhor duas historietas. Foi o primeiro, café em Terena, vindo a perder, com a ascensão de outros mais modernos aquela designação, tendo hoje escrito, num pequeno toldo a palavra “
Tasquinha do Neves”.
Um dia o senhor
Torcato comprou, para vender claro, bolos de arroz. Um cliente já pingado manda vir um e começa a comê-lo com papel. Quando lhe chamam a atenção, respondeu –
Deixe lá, também paguei o papel.
Lembram-se, certamente, deste modo de assoar, uma venta tapada com um dedo e força, o ranho saía disparado como bala em espingarda de atacar pela boca e as escarretas no chão, era um ver que te avias. O senhor
Torcato compra um escarrador de pé alto, em armação de ferro e recipiente de porcelana.
A uma mesa está um grupo de pessoas e o senhor
Torcato põe lá o objecto.
A determinada altura em deles cospe para o chão. O senhor Torcato muda para o sítio onde ele cuspiu o escarrador. Outra cuspidela para o lado contrário e assim novamente. O Torcato perde a paciência e diz, -
Cuspa para aqui, não vê o escarrador? Resposta do cliente –
Vejo mas não queria sujar uma coisa tão bonita e asseada.
Este café, tasquinha ou taberna é como já disse, é da família Neves.
Dois primos e dois Inácios lá exerceram a profissão de taberneiro. O último deixou-nos há pouco e hoje a porta está fechada.
Encerra um balcão de cor azul, com montra e duas pequenas linhas de ferro de protecção, tendo três tábuas de cada lado e em relevo a dar-lhe feitio.
Quantas histórias, quantas alegrias ou tristezas, as nossas tabernas terão para contar. A força de mudança dos tempos silenciou-as para sempre, como a morte silenciou o
Nacica Neves “
O último taberneiro”
Hélder Salgado
30-06-2001.