CLÁUDIA SOUSA PEREIRA
OS MASSACRES E O TRUMPZINHO QUE HÁ EM NÓS
Dois
massacres ocorreram nas últimas semanas com as sempre mais chocantes vítimas de
crianças e jovens, os que vêem a vida interrompida antes de ela acontecer na
sua força máxima. Com quase tudo por viver. Se a uns a promessa desse resto
poderia prever-se relativamente risonha nas terras da Florida, para outros em
Goutha, na Síria, o futuro adivinhava-se duro e difícil. À frente destes
massacres estão várias pessoas culpadas, a vários níveis e com impactos de
responsabilidade diferentes, todos com o mesmo resultado: a morte. A não
natural, a provocada a quem não a procura, distante da autodeterminação a que o
ser humano recorre quando faz uso das suas faculdades intelectuais.
A solução política na
América do 45 da Casa Branca é a bélica: fight fire with fire. Continuar a
alimentar o negócio das armas particulares que propiciam as todas outras
condições que levam um louco a cometer um massacre, armando mais gente ainda,
sempre com a desculpa de que será legítima a defesa. É sempre, legítima. Se não
usar a mesma atitude criminosa de quem ataca. É isso que faz toda a diferença,
também. Não a resposta instintiva ao ataque, que nos lembra a nossa proximidade
com o mundo natural, mas essa previsibilidade de corresponder à violência com
violência antes de qualquer outra medida.
Nos arredores da
bíblica Damasco morreram os que não puderam atravessar o Mediterrâneo em botes
de borracha. Os que não enchem campos de refugiados em fronteiras de cenário
caótico, mas onde pelo menos não há essas bombas-barril, ilegais até na
imoralidade que há no mata-mata de uma guerra. Os que muitos ocidentais têm
dificuldade em receber como vizinhos. Os que a muitos, sim muitos, portugueses
descansa que ainda não tenham chegado em maior número ao nosso país. Este país
de gente que desde o século passado sai em legítima defesa para o estrangeiro e
que fica profundamente reconhecida a quem, lá fora, os trata bem. Não adianta
chorar os massacrados da Síria e depois não estar disponível para os receber. E
às vezes mesmo sabendo como essas entradas aqui, na ponta mais sudoeste da
Europa, são tão acompanhadas, devidamente enquadradas por instituições que
ainda conseguem dar conta do fluxo de migração fugida dos massacres. E os que
criticam quem pensa que a união dos europeus também existe para melhor servir o
resto da Humanidade.
Há entre nós muitos
trumpzinhos que dormiriam muito melhor com um muro à volta de si, contra o que
os pode ameaçar. Muitos trumpzinhos que até em voz alta e para quem consiga que
oiçam – na esquina, no café, no táxi, no autocarro, no cabeleireiro –
desejariam que as instituições e os Estados agissem como o compadre que corre a
sachada os que lhe batem à porta, nem que seja para pedir comida porque afinal
até podia não ser para isso. E aplaudem os que, mesmo com óbvias intenções
longe dessas que apregoam, prometem que uma vez no poder os livrariam de toda
essa corja de gente de raça difícil.
Na Assembleia da
República o retrovisor tem sido um equipamento muito sugerido para ser usado de
modo a que os políticos se revejam nas suas políticas. Cá fora seria bom um
simples espelho, ao lado televisão, para que quando se derramassem as lágrimas
perante os massacres lá longe se percebesse a hipocrisia de ousar dizer algumas
“coisas”. Que essas imagens nos sejam úteis, e que seja de dignidade da espécie
humana que se fale.
Até para a semana.

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