Homenagem do Al Tejo a
Domingos Maria Peças
RODA GIGANTE (Wonder Wheel), de Woody Allen (2017)
Woody Allen ainda nos consegue
surpreender, não se afastando no entanto do seu cinema de autor.
É que nunca foi tão trágico como neste
filme, com os seus habituais humor e ironia quase ausentes neste melodrama que
sentimos como uma homenagem ao grande dramaturgo norte-americano, por ele
citado mais de uma vez na obra, Eugene O'Neill.
Para os que não se lembram O'Neill era o
sogro de outro génio, Charles Chaplin, com quem aliás sempre se deu mal segundo
dizem, talvez também porque tinha mau feitio. Famoso e celebrado autor de
"A Longa Jornada para A Noite", uma obra-prima da dramaturgia
universal. Tal como também é citado por Woody Allen, outro dos grandes dramaturgos,
Anton Tchekov, de quem também nos lembramos no final, quando apesar de todas as
paixões e acontecimentos trágicos que giram no filme, tudo termina praticamente
como começa.
Woody Allen (Allan Stewart Königsberg,
1-Dez-1935, Brooklyn, NYC) conta neste filme com duas extraordinárias
colaborações.
De Vittorio Storaro (24-Jun-1940, Roma),
num extraordinário trabalho como director de fotografia. E da grande actriz
inglesa, Kate Winslet (5-Out-1975, Reading, Berkshire, Inglaterra), que nos tem
dado alguns desempenhos inesquecíveis de mulheres vulneráveis, a quem o destino
parece perseguir, também porque não conseguem controlar as suas paixões.
É o caso de Ginny, cujo primeiro
casamento com um músico de jazz, pai do seu filho, uma criança vítima também
ela da instabilidade da família, falha por sua culpa, por se ter deixado
envolver numa paixão passageira.
Com a vida momentaneamente destroçada,
Ginny ampara-se noutro inadaptado (James Belushi), que quando o conhecemos é
operador da Roda Gigante do Parque de Diversões de Coney Island, na Brooklyn
natal do realizador, e cuja filha, Carolina (Juno Temple), se
juntou a um gansgter de sucesso, mas que irá regressar, em fuga, a casa do pai.
O quarto personagem principal da trama é um jovem nadador-salvador da
praia de Coney Island, Mickey (Justin Timberlake), por quem as duas mulheres se
apaixonam e nos narra a estória.
Tudo isto se passa nos anos 50 do século
XX.
Não vou contar o resto da estória criada
por Woody Allen, apenas salientar que Kate Winslet nos surge ainda mais bela
nesta tragédia dos anos 50, que nos parecem magnificamente reconstituídos neste
filme, aliás como habitualmente neste grande autor, com os seus seres humanos
infelizes e em dificuldades, como milhões de outros num "caminho de vida
norte-americano" (american way of life) que suporta uma minoria de
sucesso...
Não percam. Os mais sensíveis levem
lenços...
Adenda:
Fiquei contente pelas declarações do seu
autor, Woody Allen, em entrevista à revista de cinema, POSITIF, dirigida por
Michel Ciment, que elogia a obra no editorial do nr. 683:
"Podemos tratar "Um Eléctrico Chamado
Desejo", de Tennessee Williams sob a forma de comédia. Da mesma maneira
que "Uma Longa Viagem para a Noite" de Eugene O'Neill. Mas não há
comédia em "Wonder Wheel". É um puro drama."
A entrevista é muito interessante, aliás
como sempre quando se trata de Woody Allen. Ficamos com a sensação que
concordamos com tudo o que diz.
Afinal parece-me que tinha razão ao
contrário de algumas consideradas sumidades da crítica...
E a propósito: se gostam mesmo da Sétima
Arte, NÃO PERCAM !



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