sexta-feira, 25 de agosto de 2017

VASCULHAR O PASSADO

Uma vez por mês Augusto Mesquita recorda-nos pessoas, monumentos, tradições usos e costumes de outros tempos.
                                     A má sorte de ter nascido em Montemor
           
            O Senhor Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça, nasceu em Montemor-o-Novo. Com 25 anos de idade, integra a lista dos seis fundadores dos Bombeiros Voluntários de Montemor-o-Novo, nascidos em 10 de Agosto de 1930. Quando da construção do  Quartel dos nossos Soldados da Paz, que se iniciou em 1946, era Presidente da Direcção daquela prestigiada associação humanitária. Pagou do seu bolso, o projecto e a maqueta do desejado edifício, que viria a ser inaugurado com pompa e circunstância, em  17 de Janeiro de 1954.
            Em 1950, o Senhor Engenheiro Costa Praça, entrou para Presidente da Direcção do Asilo de Mendicidade, quando ele funcionava no edificio do antigo Palácio de Valenças. Ali se foram conservando os idosos, não obstante a incomodidade de uma casa de três pisos, cujo deficiente estado de conservação, naturalmente se foi agravando. Pode-se mesmo dizer que entre as várias instituições existentes em Montemor-o-Novo, os “Velhinhos do Asilo” eram os que estavam mais mal instalados.

            Quase cinquenta anos ali estiveram os idosos albergados. O desgaste do tempo e o desconforto do edifício, que exigia a utilização de escadas, foram urgindo a necessidade de novo edifício, mais adaptado às condições dos seus moradores.
            Ao aperceber-se “in loco” desta situação, idealizou a construção de um maior e melhor edifício. Este desejo foi deixado escrito em carta, cujo conteúdo, apenas o seu grande amigo Padre Gustavo Adolfo Ribeiro conhecia. Infelizmente não o pode fazer, pois viria a falecer em 18 de Setembro de 1961, quando tinha apenas 56 anos de idade.
            Ao ter conhecimento da referida carta, o cunhado e primo do falecido, Engenheiro João Garcia Nunes Mexia, com a aceitação dos herdeiros do malogrado António Justino, resolveu meter ombros à grande e difícil tarefa, apenas com recursos da ilustre família.
            Sob a orientação e administração do Engenheiro Nunes Mexia a obra se realizou. Projectou-a e acompanhou os trabalhos dedicadamente o Arquitecto Raul Santa Clara que, na concepção do admirável conjunto agiu sob o império de um princípio fundamental, que foi o de dar aos seus ocupantes, já de avançada idade, o melhor conforto e comodidade para os seus movimentos. Com excepção dos poucos degraus e soleiras das entradas, não existe dentro do edifício qualquer diferença de nível. A edificação, constituída por vários corpos interligados, compreende os serviços de secretaria, direcção, gabinetes para médicos e tratamentos, duas enfermarias, dormitórios, quartos para casais, sala de estar, refeitório, copa, despensa geral e diária, rouparia, tratamento de roupas e engomados, refeitório para o pessoal trabalhador, oficinas de artesanato para entretimento dos internados, casas de banho e instalações sanitárias correspondentes a cada sector. O vestíbulo principal dá acesso a uma encantadora capela.


            Na entrada principal, sob pedestal de pedra, foi colocado o busto de bronze do Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça. Na sala de estar, o de seu pai, o Dr. António Justino da Costa Praça – ambas as obras da autoria do escultor Anselmo Dias Ramalho, que também colaborou no embelezamento geral do edifício com um formoso cruzeiro, um grupo escultórico dedicado à maternidade, e outras belas obras, entre elas um Santo António, colocado por cima da lareira existente no refeitório.
            A empreitada de construção civil foi adjudicada à Firma Ferreiras & Cunha, a mesma que construiu o primeiro Pavilhão do Hospital Infantil de S. João de Deus.
O custo da construção e do equipamento do novo edifício do Abrigo dos Velhos Trabalhadores, inaugurado em 13 de Junho de 1967, já lá vão cinquenta anos, importou em 5.000 contos, e foi exclusivamente suportado pela Família Costa Praça Nunes Mexia. Tendo em conta as despesas de manutenção do edifício, a bondosa Família doou quatro casas situadas na Rua dos Cavalos, nesta vila, no valor de 250 contos, para que as rendas sejam nessa manutenção aplicadas, e ainda, ofereceu mais 250 contos em dinheiro.
            A obra é uma justa homenagem a António Justino da Costa Praça, que tanto carinho teve pela instituição, a que teve ligado durante onze anos.

            A homenagem

            A homenagem. Pelas 11,00 horas, à entrada do antigo Largo da Porta do Sol, compareceram representações das várias colectividades locais com seus estandartes, várias autoridades civis e militares, o Senhor Arcebispo de Évora D. David de Sousa, familiares do homenageado, o Arquitecto Santa Clara e a população local.
            O Presidente da Câmara Municipal, António Lopes de Andrade Júnior, leu a certidão da acta da sessão camarária em que se justifica e delibera dar ao antigo Largo da Porta do Sol o nome de “Largo Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça”.  Em seguida, convidou o menino António Miguel Mexia Castelo Branco, sobrinho-neto do homenageado, a descerrar a respectiva lápide, acto que foi coroado com uma salva de palmas de todos os presentes.
            Após esta cerimónia, a comitiva deslocou-se a pé para as novas instalações do Abrigo dos Velhos Trabalhadores. O Senhor Arcebispo procedeu aí à benção do edifício e sua Capela, e logo a seguir celebrou a Santa Missa, que foi abrilhantada pelo Grupo Coral do Calvário. Terminada a Missa foi lido um poema de Manuel Justino Ferreira denominado “Bendito aquele que vem em nome do Senhor”. A pequena Maria Antónia Leal Charneca que lera o poema, entregou um lindo pergaminho com o texto  declamado à mãe do malogrado Engenheiro António Justino, D. Eufrásia Mexia da Costa Praça. A seguir foi servida a primeira refeição na nova Casa.
            Seis meses depois da Revolução do 25 de Abril, mais propriamente no dia 5 de Outubro de 1974, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, deliberou substituir alguns topónimos, e entre eles, está o Largo Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça, que passou a chamar-se Largo General Humberto Delgado. Duvido que conhecessem este historial...

Cidadão Honorário
           
            Cidadão Honorário - O Engenheiro João Garcia Nunes Mexia recebeu o Diploma de “Cidadão Honorário” de Montemor-o-Novo e  deu o seu nome a uma artéria da cidade
            Além da proposta de atribuição do nome do Engenheiro António Justino da Costa Praça, ao Largo da Porta do Sol, aprovada na sessão ordinária realizada no dia 1 de Junho de 1967, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade uma segunda deliberação, não menos fundamentada na razão e na justiça, refere-se ao exímio e generoso executor da construção do novo Abrigo dos Velhos Trabalhadores. A forma como o Engenheiro João Garcia Nunes Mexia, resolveu por sua livre e generosa iniciativa, realizar o plano e desejos do seu falecido cunhado – Engenheiro António Justino – e de sua Exma. Família, em boa verdade está acima de todos os louvores a que tem incontestável direito. Por isso a nossa Câmara em boa hora houve por bem aprovar a segunda proposta do seu Presidente: “nomear oficialmente CIDADÃO HONORÁRIO DE MONTEMOR-O-NOVO o Senhor Engenheiro João Garcia Nunes Mexia”.
            No dia 7 de Setembro de 1967, efectuou-se, no Salão Nobre da Câmara Municipal, a cerimónia da entrega oficial do Diploma de “Cidadão Honorário de Montemor-o-Novo” ao dedicado benemérito desta vila Senhor Engenheiro João Garcia Nunes Mexia.
            Cidadão Honorário é um título que uma pessoa recebe de um município, por ter prestado benefícios que ajudaram no desenvolvimento social local.
            O título de Cidadão Honorário equipara a pessoa homenageada a uma adopção oficial. A pessoa agraciada passa a ser um irmão, um conterrâneo, uma pessoa da terra natal. Mesmo que um homenageado não tenha nascido ou não resida no município, para que se lhe conceda tal homenagem, é necessário que se diga o que ele (homenageado) fez, sem visar lucros, interesses pessoais ou profissionais, em defesa do povo do município que lhe concedeu tal cidadania.

             Quem foi João Garcia Nunes Mexia?
    
Nasceu em Mora, a 3 de Agosto de 1899 e casou em Montemor-o-Novo a 25 de Maio de 1929 com D. Elisiária Margarida da Costa Lopes Praça Nunes Mexia.
            Licenciou-se em agronomia pelo Instituto Superior Agrícola. Foi Director da Associação Central da Agricultura Portuguesa nas décadas de 1930 e 1940, Presidente da Sociedade de Ciências Agronómicas em 1942, e Presidente da Junta Nacional dos Produtos Pecuários entre 1939 e 1945. Foi o terceiro silvicultor a fazer uma tese de licenciatura sobre o tema do montado em 1934, e foi Delegado de Portugal à Conferência Internacional da Cortiça.
            Na carreira parlamentar, foi deputado nas II, III e IV legislaturas, que decorreram entre 1938 e 1949 sob o Regime Corporativo.
            Como grande proprietário agrícola, o Engenheiro Nunes Mexia importou de França o primeiro núcleo de animais da raça Limousine que se conhece em Portugal.
            Durante anos, os exemplares da Casa Agrícola Praça Mexia, conquistaram dezenas de prémios em exposições pecuárias em que participaram, principalmente na Feira do Ribatejo, actualmente, Feira Nacional da Agricultura.
            Na década de sessenta, a pedido do Padre Alberto Dias Barbosa, encabeça uma Comissão que fundou o Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo. Depois da sua constituição, foi a vez da aquisição e remodelação do arruinado Convento de São Domingos, para cujas obras contribuiu com dois mil contos.
            Trinta e seis anos após a atribuição do título de “Cidadão Honorário”, e depois de vencidas inúmeras dificuldades, a tolerância, tal fruto que demorou a amadurecer, chegou há muito à Vila Notável. Por deliberação do município de 6 de Março de 2003 foi atribuído a uma praceta da cidade (loteamento da Quinta da Nora), o nome do  Benemérito Engenheiro João Garcia Nunes Mexia, a quem a nossa cidade muito deve, principalmente o Abrigo dos Velhos Trabalhadores e o Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo.
            Face ao acima relatado, está na hora do Município de Montemor-o-Novo remediar erros cometidos pouco depois da Revolução dos Cravos, repondo o nome do Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça, e o de outras personalidades na mesma situação,  na toponímia local, porque esta dualidade de critérios é inexplicável, e dá razão ao título deste artigo.

Augusto Mesquita
Agosto/2017
               



1 comentário:

Sergio Reis disse...

Uma pequena correção, o Escultor chama-se Anselmo Dias Brandão.