Uma vez por
mês Augusto Mesquita recorda-nos pessoas, monumentos, tradições usos e costumes
de outros tempos.
A má sorte de ter nascido em Montemor
O
Senhor Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça, nasceu em
Montemor-o-Novo. Com 25 anos de idade, integra a lista dos seis fundadores dos
Bombeiros Voluntários de Montemor-o-Novo, nascidos em 10 de Agosto de 1930.
Quando da construção do Quartel dos
nossos Soldados da Paz, que se iniciou em 1946, era Presidente da Direcção
daquela prestigiada associação humanitária. Pagou do seu bolso, o projecto e a
maqueta do desejado edifício, que viria a ser inaugurado com pompa e
circunstância, em 17 de Janeiro de 1954.
Em 1950,
o Senhor Engenheiro Costa Praça, entrou para Presidente da Direcção do Asilo de
Mendicidade, quando ele funcionava no edificio do antigo Palácio de Valenças.
Ali se foram conservando os idosos, não obstante a incomodidade de uma casa de
três pisos, cujo deficiente estado de conservação, naturalmente se foi
agravando. Pode-se mesmo dizer que entre as várias instituições existentes em
Montemor-o-Novo, os “Velhinhos do Asilo” eram os que estavam mais mal
instalados.
Quase
cinquenta anos ali estiveram os idosos albergados. O desgaste do tempo e o
desconforto do edifício, que exigia a utilização de escadas, foram urgindo a
necessidade de novo edifício, mais adaptado às condições dos seus moradores.
Ao
aperceber-se “in loco” desta situação, idealizou a construção de um maior e
melhor edifício. Este desejo foi deixado escrito em carta, cujo conteúdo,
apenas o seu grande amigo Padre Gustavo Adolfo Ribeiro conhecia. Infelizmente
não o pode fazer, pois viria a falecer em 18 de Setembro de 1961, quando tinha
apenas 56 anos de idade.
Ao ter
conhecimento da referida carta, o cunhado e primo do falecido, Engenheiro João
Garcia Nunes Mexia, com a aceitação dos herdeiros do malogrado António Justino,
resolveu meter ombros à grande e difícil tarefa, apenas com recursos da ilustre
família.
Sob a
orientação e administração do Engenheiro Nunes Mexia a obra se realizou.
Projectou-a e acompanhou os trabalhos dedicadamente o Arquitecto Raul Santa
Clara que, na concepção do admirável conjunto agiu sob o império de um
princípio fundamental, que foi o de dar aos seus ocupantes, já de avançada
idade, o melhor conforto e comodidade para os seus movimentos. Com excepção dos
poucos degraus e soleiras das entradas, não existe dentro do edifício qualquer
diferença de nível. A edificação, constituída por vários corpos interligados,
compreende os serviços de secretaria, direcção, gabinetes para médicos e
tratamentos, duas enfermarias, dormitórios, quartos para casais, sala de estar,
refeitório, copa, despensa geral e diária, rouparia, tratamento de roupas e
engomados, refeitório para o pessoal trabalhador, oficinas de artesanato para
entretimento dos internados, casas de banho e instalações sanitárias
correspondentes a cada sector. O vestíbulo principal dá acesso a uma
encantadora capela.
Na
entrada principal, sob pedestal de pedra, foi colocado o busto de bronze do
Engenheiro António Justino Mexia da Costa Praça. Na sala de estar, o de seu
pai, o Dr. António Justino da Costa Praça – ambas as obras da autoria do
escultor Anselmo Dias Ramalho, que também colaborou no embelezamento geral do
edifício com um formoso cruzeiro, um grupo escultórico dedicado à maternidade,
e outras belas obras, entre elas um Santo António, colocado por cima da lareira
existente no refeitório.
A
empreitada de construção civil foi adjudicada à Firma Ferreiras & Cunha, a
mesma que construiu o primeiro Pavilhão do Hospital Infantil de S. João de
Deus.
O custo
da construção e do equipamento do novo edifício do Abrigo dos Velhos
Trabalhadores, inaugurado em 13 de Junho de 1967, já lá vão cinquenta anos, importou
em 5.000 contos, e foi exclusivamente suportado pela Família Costa Praça Nunes
Mexia. Tendo em conta as despesas de manutenção do edifício, a bondosa Família
doou quatro casas situadas na Rua dos Cavalos, nesta vila, no valor de 250
contos, para que as rendas sejam nessa manutenção aplicadas, e ainda, ofereceu
mais 250 contos em dinheiro.
A obra é
uma justa homenagem a António Justino da Costa Praça, que tanto carinho teve
pela instituição, a que teve ligado durante onze anos.
A homenagem
A homenagem.
Pelas 11,00 horas, à entrada do antigo Largo da Porta do Sol, compareceram
representações das várias colectividades locais com seus estandartes, várias
autoridades civis e militares, o Senhor Arcebispo de Évora D. David de Sousa,
familiares do homenageado, o Arquitecto Santa Clara e a população local.
O
Presidente da Câmara Municipal, António Lopes de Andrade Júnior, leu a certidão
da acta da sessão camarária em que se justifica e delibera dar ao antigo Largo
da Porta do Sol o nome de “Largo Engenheiro António Justino Mexia da Costa
Praça”. Em seguida, convidou o menino
António Miguel Mexia Castelo Branco, sobrinho-neto do homenageado, a descerrar
a respectiva lápide, acto que foi coroado com uma salva de palmas de todos os
presentes.
Após esta
cerimónia, a comitiva deslocou-se a pé para as novas instalações do Abrigo dos
Velhos Trabalhadores. O Senhor Arcebispo procedeu aí à benção do edifício e sua
Capela, e logo a seguir celebrou a Santa Missa, que foi abrilhantada pelo Grupo
Coral do Calvário. Terminada a Missa foi lido um poema de Manuel Justino
Ferreira denominado “Bendito aquele que vem em nome do Senhor”. A pequena Maria
Antónia Leal Charneca que lera o poema, entregou um lindo pergaminho com o
texto declamado à mãe do malogrado
Engenheiro António Justino, D. Eufrásia Mexia da Costa Praça. A seguir foi
servida a primeira refeição na nova Casa.
Seis
meses depois da Revolução do 25 de Abril, mais propriamente no dia 5 de Outubro
de 1974, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, deliberou substituir
alguns topónimos, e entre eles, está o Largo Engenheiro António Justino Mexia
da Costa Praça, que passou a chamar-se Largo General Humberto Delgado. Duvido
que conhecessem este historial...
Cidadão
Honorário
Cidadão
Honorário - O Engenheiro João Garcia Nunes Mexia recebeu o Diploma de “Cidadão
Honorário” de Montemor-o-Novo e deu o
seu nome a uma artéria da cidade
Além da
proposta de atribuição do nome do Engenheiro António Justino da Costa Praça, ao
Largo da Porta do Sol, aprovada na sessão ordinária realizada no dia 1 de Junho
de 1967, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade uma segunda deliberação,
não menos fundamentada na razão e na justiça, refere-se ao exímio e generoso
executor da construção do novo Abrigo dos Velhos Trabalhadores. A forma como o
Engenheiro João Garcia Nunes Mexia, resolveu por sua livre e generosa
iniciativa, realizar o plano e desejos do seu falecido cunhado – Engenheiro
António Justino – e de sua Exma. Família, em boa verdade está acima de todos os
louvores a que tem incontestável direito. Por isso a nossa Câmara em boa hora
houve por bem aprovar a segunda proposta do seu Presidente: “nomear
oficialmente CIDADÃO HONORÁRIO DE
MONTEMOR-O-NOVO o Senhor Engenheiro João Garcia Nunes Mexia”.
No dia 7
de Setembro de 1967, efectuou-se, no Salão Nobre da Câmara Municipal, a
cerimónia da entrega oficial do Diploma de “Cidadão Honorário de
Montemor-o-Novo” ao dedicado benemérito desta vila Senhor Engenheiro João
Garcia Nunes Mexia.
Cidadão
Honorário é um título que uma pessoa recebe de um município, por ter prestado
benefícios que ajudaram no desenvolvimento social local.
O título
de Cidadão Honorário equipara a pessoa homenageada a uma adopção oficial. A
pessoa agraciada passa a ser um irmão, um conterrâneo, uma pessoa da terra
natal. Mesmo que um homenageado não tenha nascido ou não resida no município,
para que se lhe conceda tal homenagem, é necessário que se diga o que ele
(homenageado) fez, sem visar lucros, interesses pessoais ou profissionais, em
defesa do povo do município que lhe concedeu tal cidadania.
Quem foi João Garcia Nunes Mexia?
Nasceu em Mora, a 3 de Agosto de 1899 e casou em
Montemor-o-Novo a 25 de Maio de 1929 com D. Elisiária Margarida da Costa Lopes
Praça Nunes Mexia.
Licenciou-se
em agronomia pelo Instituto Superior Agrícola. Foi Director da Associação
Central da Agricultura Portuguesa nas décadas de 1930 e 1940, Presidente da
Sociedade de Ciências Agronómicas em 1942, e Presidente da Junta Nacional dos
Produtos Pecuários entre 1939 e 1945. Foi o terceiro silvicultor a fazer uma
tese de licenciatura sobre o tema do montado em 1934, e foi Delegado de
Portugal à Conferência Internacional da Cortiça.
Na
carreira parlamentar, foi deputado nas II, III e IV legislaturas, que
decorreram entre 1938 e 1949 sob o Regime Corporativo.
Como
grande proprietário agrícola, o Engenheiro Nunes Mexia importou de França o
primeiro núcleo de animais da raça Limousine que se conhece em Portugal.
Durante
anos, os exemplares da Casa Agrícola Praça Mexia, conquistaram dezenas de
prémios em exposições pecuárias em que participaram, principalmente na Feira do
Ribatejo, actualmente, Feira Nacional da Agricultura.
Na década
de sessenta, a pedido do Padre Alberto Dias Barbosa, encabeça uma Comissão que
fundou o Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo. Depois da sua constituição, foi a
vez da aquisição e remodelação do arruinado Convento de São Domingos, para
cujas obras contribuiu com dois mil contos.
Trinta e
seis anos após a atribuição do título de “Cidadão Honorário”, e depois de
vencidas inúmeras dificuldades, a tolerância, tal fruto que demorou a
amadurecer, chegou há muito à Vila Notável. Por deliberação do município de 6
de Março de 2003 foi atribuído a uma praceta da cidade (loteamento da Quinta da
Nora), o nome do Benemérito Engenheiro
João Garcia Nunes Mexia, a quem a nossa cidade muito deve, principalmente o
Abrigo dos Velhos Trabalhadores e o Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo.
Face ao
acima relatado, está na hora do Município de Montemor-o-Novo remediar erros cometidos
pouco depois da Revolução dos Cravos, repondo o nome do Engenheiro António
Justino Mexia da Costa Praça, e o de outras personalidades na mesma
situação, na toponímia local, porque
esta dualidade de critérios é inexplicável, e dá razão ao título deste artigo.
Augusto Mesquita
Agosto/2017


1 comentário:
Uma pequena correção, o Escultor chama-se Anselmo Dias Brandão.
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