quarta-feira, 30 de agosto de 2017

MAIS UM ENSAIO PARA UM QUADRO DE REVISTA – Pelo Helder Salgado


                                    A taberna do Torcato - (António Manuel)
Cenário
Balcão ao fundo da casa. Duas mesas, com cadeiras, ocupando o lado direito da sala frente a uma talha. Do lado oposto está um alambique, apenas como peça decorativa.
O taberneiro Torcato é homem de estatura meã. Está vestido com camisa branca e calça preta. Muito atencioso, afável e sorridente.
Está a conversar com um cliente. O tema é a recente descoberta, pelo padre Afonso, via inscrição latina, na cova do Poço da Morte, dum rio subterrâneo. Década de 50/60.
Torcato
 - Vê lá Zé Cata o que dizem por aí?
Diz isto com uma admiração incrédula.
 Zé Cata, expetante, pousa o copo de aguardente, que de momento bebia, em cima do balcão e presta atenção ao Taberneiro, tendo um olho semiaberto, e escuta.
- Dizem que o padre Afonso leu numa rocha, lá para a o poço da Morte, umas palavras em latim, que por baixo da pedra passa um rio. Pausa - O Alexandre Manuel Fernandes,... - o Presidente, atalha o Zé Cata.
- Sim, o Presidente - continua o Torcato - já diz que dá água a todo o concelho, - e sorriu.
- Achas isso possível, Zé?
Zé Cata atrapalhado, bandeando-se todo e pestanejando com rapidez.
- Bem eu, e mudando de tom - olhe quem não sabe latim fica assim.....como   eu. Lá que o padre é sabedor lá isso é, mas essa do rio, lá por baixo da terra, custa-me a engolir.
O Torcato ao ver entrar outro cliente.
- Vá Zé, bebe a aguardente que já estás há muito tempo sem engolir.
O Torcato prazenteiro e solicito cumprimenta o novo cliente.

- Como tem passado o meu amigo Zé Panseco?
O cliente
 - Se me tem chamado Zé Molhado tinha deveras acertado, diz o cliente.
O Taberneiro
vi que vem todo suado e voltando-se para o público - já cá me tinha chegado o pivete.
Cliente
- E para  a minha sêde  refrescar um beberete vou tomar.
Torcato, espantado com a frase do cliente
- Então,...  Vai uma cervejinha?
  Zé Panseco
- E, para a minha fome saciar quero algo para mastigar.
O taberneiro, continua surpreendido.
 - Já vi que o almoço foi fraco.
  Zé Panseco
- Foi um arroz de charraco.
Torcato para o público
 - Deve ter sido comprado a do Zé Mira - e voltando para o cliente - Já vi tudo, ela comeu o charraco e deu-te o arroz.
- Isso mesmo senhor Torcato - afirma o Panseco
Torcato
 - Mulher desnaturada que deixou o Panseco  a seco.
Panseco
- E é ela a minha amada, partidas como esta já muitas me tem feito.
Torcato
- Mas vamos lá dar um jeito para a cerveja acompanhar, um bolo de arroz também vais saborear. -  O Torcato para o publico - não tenho outro.
- Outra vez arroz?- diz o Panseco espantado.
Mas desta vez não tem charraco, e o bolo vai inteirinho para o teu papo. - afiança o Torcato.  E o bolinho ainda vem quentinho. Reforça.
O taberneiro traz, numa bandeja, a cerveja, um copo e o bolo.
Panseco
- Eu não mereço tanto aparato, mas se ela aqui estivesse levava com o bolo no focinho, que se havia de lembrar do charraco.
Torcato
- Ó homem não seja velhaco e coma lá o seu bolinho.
Zé Cata
- Por isso é que eu fiquei solteirinho, mesmo que alguns dias me falte o farnel, e grita - ó Torcato o Panseco também come o papel.
Torcato enrascado com receio de dizer ao Panseco que estava a comer o papel.
- Ó amigo, ó amigo ouça lá o que lhe digo - diz o Taberneiro.
- Não é preciso dizer que eu sei bem o que estou a fazer - Panseco continuando.
- Isto não é como o arroz daquela malvada....  Deste, não sobra nada. - diz o Panseco.
- Veja que se pode engasgar, diz o Torcato cauteloso.
- Então outra cerveja vou tomar, e o Zé Cata pode-me acompanhar, diz o Zé Panseco.
- Assim sendo duas cervejas vou levar, diz o Taberneiro.
- Cerveja e aguardente? é capaz de não resultar... Mas esta oferta não vou recusar, pois elas são tão custosas de apanhar. Diz o Zé Cata.
O Torcato, esfregando o dedo polegar e o indicador
- Parece-me que estes vão o caldo entornar. Mas enfim sempre dão algum a ganhar.
O Zé Panseco a cada golo de cerveja que bebe, tosse de engasgado e cospe para o chão.
Zé Cata começa a sentir-se incomodado e pede o escarrador ao Taberneiro.
- Ó Torcato traga o escarrador
Zé Cata para o Panseco.
- Amigo agora cuspa para aqui.
Panseco mira e remira o escarrador. Engasga-se novamente e cospe para o lado oposto ao escarrador.
Zé Cata muda o escarrador para o lado da última cuspidela.
Panseco volta cuspir para o outro lado. Zé Cata torna a mudar o escarrador.
Torcato observando a cena intervêm irritado.
- Ó Panseco então o Zé Cata  não te disse para cuspir para o escarrador?
Panseco responde
- Disse, disse mas eu não quero sujar uma coisa tão bonita e tão asseada.

Hélder Salgado
Terena,02-08-2017.
















2 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns Hélder pelo belíssimo texto que nos ofereceste. Moliére, se passásse por Terena e visse isto, nunca mais escrevia (se ainda vivesse). Abraço. MSubtil

Anónimo disse...


Felicito o Helder por este Magnífico "Mimo" com que nos presenteou.

Obrigada por se ter inspirado nestes HOMENS DE BEM e nos ter proporcionado
momentos deliciosos, de boa disposição e que nos transportam á nossa meninice, juventude e de que temos muita saudade; Por breves instantes estive lá!...

Todos eles, cada um á sua maneira, merecem o meu respeito e a minha admiração!

Relativamente ao Presidente ALEXANDRE MANUEL FERNANDES, ele não só prometeu, como CUMPRIU! MUITAS NOITES DE INSÓNIA, MUITAS LUTAS, MUITAS ARRELIAS, MUITA PERSISTÊNCIA, MAS CONSEGUIU REALIZAR O SEU GRANDE SONHO:
DAR ÁGUA A TODO O CONCELHO!

Faleceu com uma mágoa, um desgosto: VER ENTULHADOS OS CHAFARIZES..., também
obra dele...

Espero que o Helder não fique por aqui e nos ofereça mais do que muito bem sabe fazer, escrever!...