segunda-feira, 27 de junho de 2016

VASCULHAR O PASSADO - Rubrica de Augusto Mesquita

Uma vez por mês Augusto Mesquita recorda-nos pessoas, monumentos, tradições usos e                                                             costumes de outros tempos

            Há 25 anos, foi inaugurado  O Monumento ao Antifascista
 Percorrendo as ruas das cidades, é comum encontrar-mos alguns monumentos. Os monumentos são construídos para homenagear pessoas importantes daquela região, ou factos extraordinários ocorridos ao longo da história. Mas afinal o que é um monumento?
Um monumento é toda a obra criada pela mão do homem e construída com a finalidade de conservar sempre viva e presente na consciência das gerações futuras, a lembrança de determinada acção ou de uma existência.
Perante esta herança Patrimonial, a comunidade tem a responsabilidade de a preservar, utilizar e valorizar. Por isso é necessário conhecê-la em profundidade para podermos intervir e usufruí-la da melhor maneira, de modo a transmiti-la ainda mais qualificada e enriquecida às gerações vindouras.
                                                               História do monumento
Em 23 de Junho de 1986, na sequência da inauguração do Monumento a José Adelino dos Santos (um assalariado rural, assassinado a tiro pela GNR, durante uma manifestação de protesto e reivindicação por trabalho, junto à Câmara Municipal), executado por iniciativa do núcleo de Montemor-o-Novo da URAP – União dos Resistentes Antifascistas Portugueses, surgiu a ideia da construção de um Monumento aos Resistentes Antifascistas do concelho.
Montemor-o-Novo tem, como muita gente sabe, por experiência ou conhecimento, um longo e doloroso historial nas lutas contra a ditadura, com todo o seu cortejo de injustiças, prepotências, miséria, prisões, torturas e mortes. Não é um lugar comum referir tudo isto, que pode ser incómodo para algumas memórias mais enfraquecidas, mas por outro lado tem muito quem não queira, nem possa esquecer e tenha concordado ser indispensável lembrar e homenagear a acção de tanta gente, que lutou, que sofreu e morreu por ideais de justiça e liberdade, de que hoje, mais ou menos, todos usufruímos.
Sensíveis a esta realidade, os elementos da URAP de Montemor-o-Novo, fizeram diligências no sentido de angariarem fundos, resultando uma verba de cento e vinte mil escudos a favor do Monumento. Mas, por razões várias, a iniciativa não avançou.
Em 1993, em reunião do núcleo que se pretendeu alargar, foi reactivada a ideia do Monumento, sendo feita então uma proposta no sentido de homenagear não só os Resistentes do concelho de Montemor-o-Novo, mas também e com toda a razão, os Resistentes de todo o Alentejo.
Assim, surgiu a proposta de construção do Monumento aos Resistentes Antifascistas do Alentejo, que em 1 de Junho de 1996 foi inaugurado, com orgulho, com emoção, e também com alívio.
Orçamentado em dez mil contos, a Comissão meteu mãos à tarefa de conseguir esse dinheiro, e foi através de uma série de iniciativas que o foram angariando. Listas de recolha de fundos, mealheiros, medalhas, postais, autocolantes, espectáculos de teatro, exposições, convívios, colóquios, com relevo especial para a Reforma Agrária, autarquias dos distritos de Beja, Évora, Portalegre e Setúbal, o povo anónimo, grupos e pessoas individuais de vários pontos do País, que enviaram também preciosas contribuições.
                                                                             A passagem
Resto de muro atravessando a linear palidez da praça, este protesto que homenageia lutadores antifascistas de outrora, vem instaurar aqui, e assim, e ainda, um grito de novo polémico. Como se houvesse na emergência documental, a urgência de combater sombras ou fantasmas existindo outra vez de retorno. Se esse medo da opressão não fosse sobrevivente e palpável, maior que todos, carnal ou mítico, o povo teria ordenado, talvez, um apelo e não uma reverência, a fecundação de novas searas, de melhores futuros, a sagração da terra e da água, patrimónios que se degradam nos desertos sociais em volta.
Por vezes, com determinação, é preciso violar o silêncio e a harmonia da urbe. A escultura assim implantada no lugar (neste lugar), poderia plasmar-se nele, anónima e disfarçada, quase inexistindo, ou poderia integrar-se contra ele, como acontece, obrigando a comunidade ao debate da sua vivência, entre dissonâncias, assimetrias, obstruções – algo que tendo rasgado o solo, em ocasionalidade de pura força, tapando fronteiras e dividindo espaços, logo se pintou da alvura envolvente, logo pactuou com a memória branca da cidade na memória dos sujos e opacos muros que já a oprimiram demoradamente. Este muro é apenas uma referência lavada, para que ninguém se esqueça de nada, às verdadeiras muralhas do cerco, antes da hora em que os homens e as mulheres (daqui) se levantaram do chão. Controversa, a parede lavada não serve senão para isso, porque não tem função arquitectónica e prática, é escultura, é poesia, redime-se ao nível das cabeças erguidas por se ter fendido em forma de rosto, perfil esperançado que faz sobrar perto de si, na dobra do fenómeno, um arco humanizado, como nos jardins de brincar, sob o qual se podem fazer inúmeras travessias – bendita deambulação entre o lado de cá e o lado de lá, sendo certo que o retorno é agora igual, volta-se de lá para cá exactamente para a mesma dimensão da primeira passagem. Atravessar o muro, pelo centro da memória, dá-nos a ver que somos igualmente donos dos nossos passos de cá e lá, de lá e de cá.
A arquitectura popular alentejana é trabalhada com paredes brancas, universo raso e harmonioso que nos seduz de fora – da planície às casas térreas – casas onde sabemos haver abrigo lavado, no aconchego das salas também brancas, entre rostos solidários. É a partir dessa noção que a escultura concebida por Hélder Batista, ele próprio alentejano, se deve entender com maior legitimidade – o muro branco, mais comprido do que alto, redimido da sua inicial e indecorosa implantação na terra, no burgo, no peito dos homens, torna-se memória colectiva, alguém exerceu sobre ele uma resistência humanizante, operou nele essa fenda logo florescida em forma de rosto. Um rosto que se abre, afinal, como qualquer das nossas portas francas, para deixar passar o irmão, o amigo, o visitante. É um rosto remodelado em perfil de cabeça – e nada melhor do que um rosto poderia, erguido e sonhador, simbolizar lutas longas, sonhos, triunfos, esperanças, passagens.
O chão, e o espaço em volta, marcam percursos, cruzamentos, a liberdade de novas travessias – as que nos levam à igreja, as que nos fazem demandar jardim e teatro, retornando ao fundo da cidade e a um novo calor de quotidianos. Todos juntos, os habitantes desta terra que cicatrizou honradamente graves feridas, venceram o obstáculo do muro - símbolo de antigas opressões – porque o pintaram da cor da sua arquitectura e porque lhe abriram uma porta em forma de rosto para nunca mais se crucificarem nos labirintos da clandestinidade.
Este texto da autoria de Rocha de Sousa foi lido pela consagrada actriz Maria do Céu Guerra.
                                                                        Ficha técnica
Autor – Professor escultor Hélder Batista; Projecto de cofragem -  Isócrona, Ldª (Srs. Florêncio Pimenta e Fradique Ribeiro). Projecto de arranjos exteriores – Arquitecta Paisagista Helena Paixão; Direcção técnica da obra – Eng.º Civil Vítor Cotovio; Construção – Srs. Floriano Mendes e Albino Barrocas; Construção do molde – Sr. Tiago da Sociedade Construções Soares da Costa, S.A.
                                                                Programa da inauguração
 10H00 – Câmara Municipal
                 Recepção às entidades oficiais, com a presença da Fanfarra dos Bombeiros, Ranchos            Folclóricos, Bandas de Música e Grupos Corais
  11H00 - Início do cortejo até ao Largo Dr. António José de Almeida (local onde está o monumento).
  12H00 – Inauguração do Monumento.
  15H00 – Espectáculo no Jardim Público com a participação dos seguintes agrupamentos: Rancho Folclórico “Fazendeiros de Montemor-o-Novo, Rancho Folclórico de Cortiçadas de Lavre, Rancho Folclórico da Boa Vista – Portalegre, Banda da Sociedade Carlista, Banda Simão da Veiga de Lavre, Banda Visconde de Alcácer de Alcácer do Sal, Coral “Os Ceifeiros de Cuba” e Coral “Os Mineiros de Aljustrel.
 21H30 – Cine Teatro Curvo Semedo, exibição do filme de José Fonseca e Costa “Cinco Dias Cinco Noites”.
Balancete
Receita           
Comparticipação de autarquias
1 394 950$00
Comparticipação de cooperativas
3 035 000$00
Comparticipação de Delegações da URAP
1 008 000$00
Comparticipação de particulares
2 285 000$00
Oferta de materiais (contabilizados em escudos)
         777 732$00
Receita referente à realização de espectáculos, venda de livros, medalhas, postais, etc.
1 302 333$00
Diversos
     70 581$00
Total
9 874 131$00

Despesa
Prémios de participação no concurso de ideias
         600 000$00
Honorários do escultor vencedor
2 000 000$00
Molde
3 003 793$00
Fundações / betonagem
3 120 400$00
Edição do livro “Fascismo e antifascismo o exemplo de Montemor-o-Novo”
         237 000$00
Emissão de medalhas
         450 000$00
Expediente
         229 234$00
Despesas de representação
         111 748$00
Diversos
           70 976$00
Total
9 823 151$00
                                                              Comissão do Monumento:
António Calção, Francisco Pinto de Sá, João Joaquim Machado, José Luís Pereira e José Manuel Roque.
No pavimento, foi descerrada uma placa, que entre outras informações, deixa a seguinte mensagem: “que os olhos vejam, que a memória recorde, que o exemplo não se perca”.

Junho/2016
 Augusto Mesquita
Transcrição do Jornal Folha de Montemor autorizada pelo Autor

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