segunda-feira, 29 de julho de 2013

MEMÓRIAS CURTAS - Rubrica de Vitor Guita

O mês de Julho entrou, a todos os títulos, escaldante.
Aproveitámos uma das manhãs mais brandas e perdemo-nos, propositadamente, estrada fora, ali para os lados dos Baldios.
Para quem aguentou horas a fio, encafuado em casa, sujeito à ditadura do calor, aquela viagem matinal, com uma suave brisa a bater-nos no rosto, assim como a imensa planura que se avista logo a seguir ao cruzamento da Torre da Gadanha, transmitiram-nos uma sensação de desafogo, de liberdade, sem ter de respirar o artifício do ar condicionado.
Se é verdade que a paisagem se revela aprazível aos olhos de quem passa, adivinha-se, no entanto, uma vida árdua para quem por ali trabalha. Quantas vezes o mel de uns é o fel de outros.
A dada altura do percurso, lembrámo-nos de que aquele foi, em tempos, o solitário caminho percorrido por alguns dos comerciantes que vinham à vila, em carroças, abastecer-se no armazém do Oliveira, na Rua Nova. Referimo-nos, por exemplo, ao António Amaro Barbosa, que tinha a venda nos Baldios; ao Zé Martins Coelho, estabelecido nas Casas Novas; ao António José Geraldes, que se deslocava semanalmente do Barrancão, lá quase nos confins do mundo.
Quando chegava o fim do Verão, alguns dos comerciantes traziam do campo panelas e potes de barro com o mel crestado em Agosto. Hoje, tanto quanto sabemos, começa-se a crestar mais cedo. Alguns apicultores defendem que a partir de Julho é que o mel atinge a maturação; outros dizem que o mel só está pronto a partir do quarto minguante de Agosto; outros ainda fazem depender a cresta do ritmo de criação das abelhas. Há também quem tire o mel mais do que uma vez por ano.
A propósito de mel, nos Baldios vive um apicultor que vem regularmente vender ao mercado, aos sábados de manhã, e que, por esta altura do ano, deve andar a crestar. Fomos ao seu encontro.
Vicente Luís Maltês, com os seus vigorosos 76 anos, recebeu--nos de forma franca, embora cautelosa, já que os melíferos insectos não largam a casa onde estão guardados o mel e diversos utensílios do apicultor. Aliás, é costume dizer-se que atrás do mel correm as abelhas. Basta que os pequenos apídeos lhe tomem o gosto ou tão simplesmente lhe sintam o cheiro, para nunca mais se esquecerem do lugar. Contou-nos o amigo Maltês que, ao nascer do sol, já as abelhas lhe estão a bater à porta e, mais do que isso, vão passando mensagem umas às outras. Fazem-no, dizem os entendidos, a grandes distâncias. Há certos dias em que o apicultor só consegue trabalhar com a rede mosquiteira a barrar-lhes a entrada ou então tem de aproveitar a escuridão. Quando se trata de fabricar a água-mel, os insectos até sonham com o cheiro da mistura adocicada, descendo pelo interior da chaminé.
O Vicente Maltês foi habituado a lidar de perto com as abelhas desde pequeno, embora só muito tarde se tenha dedicado a sério à exploração apícola. Em gaiato, tinha de passar pelos cortiços da família e dos vizinhos, a caminho da escola. Nessa época, era muita a gente do campo que possuía colmeias. Falamos de um tempo em que tudo era muito artesanal e em que, segundo a opinião de alguns, as abelhas pareciam mais mansas.
Foi por influência de familiares e de outros apicultores que o amigo Vicente começou com a criação das abelhas. O entusiasmo foi tanto que chegou a dirigir a associação concelhia de apicultores. Houve um período em que teve grande quantidade de colmeias espalhadas pela Espadaneira, Grou, Água-todo-ano e outras herdades das redondezas. Muitas das caixas começaram, porém, a ser roubadas. Hoje, Vicente Maltês possui cerca de quatro dezenas na Courela da Pereira e orgulha-se de alguns prémios recebidos, em particular com o mel de rosmaninho.
O nosso diálogo decorria interessante e calmo, quando um dos insectos de cor fulva e com o corpo coberto de pêlos começou a rondar-nos as mãos e a cara. É melhor não ligar! – alertou-nos, prontamente, o apicultor. Quando se sentem atacadas, as abelhas tornam-se perigosas.
Confessou-nos, depois, Vicente Maltês que, ainda hoje, com a experiência que tem e, apesar do fato e das luvas com que se protege, é rara a vez que vai tirar mel sem levar uma picadela. Há sempre uma abelha escondida onde menos se espera. Cresta sem uma boa ferroada não é cresta!
O tema do mel e das abelhas afigurava-se interminável, e o meio-dia estava, entretanto, ali à porta. Deixámos os Baldios, não com medo das abelhas, mas receosos de alguma ferroada do impiedoso sol de Julho.
Na manhã seguinte, prosseguimos a nossa rota. Quisemos ouvir um outro registo, de preferência o testemunho de quem se manteve fiel à tradição de criar abelhas em cortiços
Lembrámo-nos de um outro Vicente. Desta vez, do nosso amigo Vicente Manuel Roque, que nos aturou, durante um bom bocado, com uma paciência de Job. Encontrámo-lo na horta, ali para os lados do Reguengo de São Mateus. O hortelão tinha acabado a rega da manhã, o que significa que já tinha um bom par de horas de trabalho em cima do corpo. No Verão, as plantas mais melindrosas precisam de ser regadas de manhã  cedo e ao fim da tarde. “O sol papa a água toda e, este ano, o calor está bravo!”
Cada vez que vamos à horta do Vicente Roque, este diz-nos repetidamente que tem de acabar com a labuta. Aos 81 anos, já custa a acudir a tudo ao mesmo tempo. Como ele costuma dizer: “Enrega a ser duro com tanta idade!” Se tivesse agora 50 anos, tudo seria uma brincadeira. Tempo houve em que deu conta de uma pecuária, horta e searas. Além disso, exceptuando o período da emigração, há quase cinquenta anos que faz a venda no mercado.
Mas, vamos lá às abelhas e ao mel. O amigo Vicente teve, em tempos, sessenta e tal cortiços. Hoje, não passam de uma dezena. Dá para o gasto de casa e pouco mais.
As abelhas gostam da proximidade e da frescura da horta, das flores do meloal, das pereiras, das nespereiras e de outras plantas em floração. Não largam, por exemplo, o alecrim e os rapazinhos.
Se houver alguma cura a fazer, só mesmo lá para o lado da noite. De manhã, rega-se tudo, em jeito de lavagem. As abelhas não toleram as químicas.
Enquanto conversávamos, olhámos para um tufo de poejo já bem espigadote. A mancha de abelhas em seu redor era tão densa, que negrejava no meio do azul-violeta das flores. Ali mesmo ao lado, numa espécie de dança, uma outra esquadrilha de apídeos pousava e levantava voo junto a um canteiro acabado de regar. Veio-nos à ideia aquele velho provérbio, que diz: Abelha perto do monte, com fonte e casa abrigada, produz mel e cera redobrada.
As abelhas de Vicente Roque, ao contrário do que vem sendo cada vez mais comum, necessitam de produzir toda a cera com que constroem a sua moradia. O apicultor do Reguengo tem optado por métodos tradicionais e, pelos vistos, não é agora que vai mudar.
Não vamos aqui falar de todos esses processos nem referir, de forma detalhada, o ciclo de vida das abelhas. Não é esse o nosso objectivo. Vamos concentrar a nossa atenção, acima de tudo, no modo como o nosso apicultor faz a cresta e em mais umas quantas tarefas que vêm a seguir.
Quando chega o momento de crestar, o apicultor/hortelão socorre-se, muitas vezes, de um ajudante, que lhe dá fumo e, com toalhas, tapa o recipiente onde vão sendo depositados os favos. Depois de levantada a tampa do cortiço e de umas baforadas com o fumigador para afugentar as abelhas, procede-se à extracção. O apicultor serve-se de uma crestadeira com que corta e retira os favos de mel. Se algum insecto ainda vem agarrado, é afastado com uma escova. Apesar da protecção adequada, todo o cuidado é pouco. As abelhas não gostam que lhe mexam no mel. É como mexer no dinheiro de quem o tem.
O amigo Roque faz sempre questão de deixar uma porção de favo a acompanhar a parede interior do cortiço, que servirá para alimentar as abelhas no Inverno e para que, a partir dali, elas reconstruam a sua moradia. Cuidados de limpeza não podem faltar, já que as abelhas gostam da casa bem asseada.
Acabada a cresta, os favos são esmagados à mão, postos a escorrer para dentro de um alguidar, e o mel posteriormente coado através de finas peneiras. Antigamente utilizava-se um cabanejo por cima do alguidar, por onde escorria o espesso líquido. Ainda segundo a tradição, depois de fabricada a água-mel, os favos voltavam a ser apertados e a cera moldada em forma de bola, para ser vendida em lojas da vila, como acontecia com a casa Raposo.
A cera tinha como destino os fabricantes de velas, de produtos para encerar, e havia quem  aproveitasse a matéria-prima para fazer, com sebo e pez, o chamado cerol de sapateiro. Quem negociava sabia, pela cor clara ou escura da cera, se esta provinha de um enxame novo ou de um enxame velho. Daí, dependia o preço.
Enfim! Segredos do mundo fascinante das abelhas e de tudo o que gira à sua volta! Vamos ter de ficar por aqui. 
Até breve e boas férias.

Vítor Guita

1 comentário:

Anónimo disse...

estou banzado!
Obrigado.