terça-feira, 25 de setembro de 2012

MEMÓRIAS - UMA HISTÓRIA DO HÉLDER SALGADO

(Continuação do dia anterior)
A explicação de Passarinha
- Refugiei-me no jogo da semana e do hidroavião.
Era leve e rápido. Depressa me adaptei ao jogo. O meu jeito, um pouco afeminado, dava-me uma certa graciosidade ao jogar.
Este jogo era atribuído às meninas e logo alguns rapazes me começaram a chamar de Passarinha.
Devo-lhe confessar senhor Helder, - mais uma vez o interrompi. Senhor Helder? como descobriste o meu nome, Plínio?
- Entrei no seu imaginário. Foi fácil uma vez que o senhor já tinha idealizado as minhas alcunhas, - justificou-se e eu concordei.
- O imaginário é um mundo onde cabemos todos, basta sabê-lo utilizar.
Plínio pareceu sentir o efeito desta frase, entristeceu-se e sentou-se numa laje que pela sua frieza mais parecia um bocado de um iceberg.
Levantou a vista e encarou-me retomando a frase.
- Confessou-lhe que foi aqui que comecei a ser um sonhador ou um realista, conforme se entenda. As raparigas adoravam-me e confiavam-se em mim. Muitas pediam-me conselhos. Como haviam de proceder perante os pais, perante os namoricos que principiavam hoje e acabavam amanhã.
O meu pai cedo me confiou algumas tarefas de menor responsabilidade, parecia que toda a gente gostava de mim, - era um desabafo, uma amargura a denunciar um revés de vida e continuou sem alterar a voz, - depois apareceu a Maria Pulquéria.

A terceira explicação
- A Maria Pulquéria era a menina mais bonita da escola.
Cabelos louros que logo pela manhazinha e banhados pelo Sol outonal ou primaveril brilhavam como ouro. Olhos azuis irrequietos e cintilantes. Corpo escultural, curvilíneo, adorável. Cedo fixei a sua imagem recordando-a sempre quando não estava comigo, - pensei em interrompe-lo, mas preferi deixá-lo continuar - não gostei de mais ninguém, - conclui no mesmo tom magoado.



- Plínio gostava de ouvir a tua história amorosa completa, - pedi-lhe.
- Com todo o gosto Amigo, - Amigo?, - deixei escapar surpreendido.
- Amigo, sim senhor Helder, - reforçou Plínio, comovendo-me uma vez mais.
- As pessoas que sabem escutar, que nos dão atenção, que vivem os problemas de cada um, só podem ser Amigos.
- Por favor, Plínio, mesmo no imaginário onde nos encontramos poupa-me à comoção, aliás, já não sei se este diálogo é uma conversa de vivos ou de mortos, - disse isto denunciando alguma ansiedade, que não escapou ao meu interlocutor.
- Que importância tem no ambiente em que nos encontramos, estarmos vivos ou mortos. O senhor está de olhos fechados, mas vivo e a julgar-se já morto, e eu de olhos abertos, morto a fingir-me vivo.
O grau de relatividade é o mesmo para ambos, - e continuou
- Há entre nós uma razão e duas verdades, - Plínio pronunciou esta frase com uma voz assustadora, parecia divina e ordenou-me.
- Escreva um 6, - escrevo um 6, sem papel, sem caneta, nem lápis e de olhos fechados, - disse surpreendido.
- Escreva na atmosfera, ainda está vivo, - ordenou-me com a mesma voz, mas ainda mais acentuada, que me levou a pensar que eu não iria sair vivo deste imaginário.
- O senhor escreveu seis e eu do lado oposto leio nove. Se trocarmos de lugar a leitura é invertida, mas a algarismo é a mesmo e só um, provocando duas interpretações, duas verdades. Os Homens justos nunca fogem à razão que se alcança dos factos observados. A razão é eternamente imutável.
Depois respirou com alguma dificuldade e o seu rosto teve uma pequena mas bem visível transformação.
 - Estou cansado. Os mortos quando trabalham e se comovem, também se cansam.
Descansamos uns minutos - disse-me com uma voz de agradável audição, que me tranquilizou.
Com a decorrência da conversa Plínio surpreendia-me a cada momento.
Dissera-me que morrera cedo e demonstrava-me uma experiência de vida invulgar, própria de quem vivera uma eternidade.
Mesmo com os olhos fechados vi o rapaz adormecer deitado na laje que não parava de escorrer água. O corpo do Plínio estava abrasando.
Sem abrir os olhos adormeci.

A alcunha Borboleta.
Plínio ao acordar parecia outra pessoa. O seu corpo depressa alcançou a naturalidade de um ser vivo e começou a falar da Maria Pulquéria, da sua amada.
- Pela leveza e rapidez que eu me entregava no jogo da “semana” começou a chamar-me Borboleta. Se já me agradava estar perto das raparigas devido ao jogo, mais me agradou a alcunha vinda da Maria Pulquéria, - Plínio contava-me isto, completamente refeito do cansaço. O sono restabelecera-o e eu refresquei-me um pouco, parecendo sair do estado mórbido em que já me julgava encontrar.
- Vejo que és um romântico e com a tua grande capacidade de inteligência, conseguias superar as deficiências do teu corpo. Admiro-te por essa capacidade.
Ao ouvir estas palavras Plínio só sorriu.
- E a escola Plínio?- perguntei-lhe de chofre.

(Continua amanhã)






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