quinta-feira, 27 de setembro de 2012

CRÓNICA DIÁRIA DA RÁDIO DIANA/FM




Quinta, 27 Setembro 2012 08:31
É estranha a política local. No espaço de uma semana foram tomadas decisões comprometedoras para o futuro do concelho que depois de comunicadas deveriam originar, no mínimo, uma redobrada atenção da comunicação social local e no máximo um levantamento popular contra as consequências dessas decisões.
Apesar disso tudo foi tratado com pinças, sublinhando a necessidade e a inevitabilidade da decisões e fugindo da descrição das consequências como se fossem coisa de menor monta.
Todos sabemos que a Câmara de Évora se encontra em situação de desequilíbrio financeiro estrutural ou, para fugir ao jargão técnico, em situação de falência anunciada ou, utilizando uma linguagem ainda mais impressiva, num buraco tão fundo e escuro que não se vislumbra qualquer saída.
Apesar de todos sabermos isto, parece haver uma preocupação generalizada em não apontar os responsáveis pela situação, como se fosse coisa da autoria de marcianos ou de alguma praga que nos rogaram.
Chegámos ao cúmulo de se afirmar, num documento apresentado pelo presidente da câmara, que a adesão ao sistema multimunicipal de água e saneamento contribuiu decisivamente para o descalabro das finanças municipais como se esse acontecimento tivesse sido uma fatalidade imposta e não uma decisão política dos que hoje contra ela reclamam.
É neste contexto que surge a candidatura ao denominado Programa de Apoio à Economia Local que irá fazer entrar nos cofres do município, para pagamento a credores diversos, a quantia de 32 milhões de euros.
Como a generalidade das notícias se fica por aqui, deixem-me em breves palavras falar-vos das consequências do recurso a esse empréstimo que tem como contrapartida a execução de um “plano de ajustamento financeiro”.
Esse “plano de ajustamento financeiro” impõe a colocação do IMI nas suas taxas máximas, obriga à determinação da participação variável no IRS à taxa máxima prevista na Lei das Finanças Locais, obriga à fixação do preço cobrado pelo saneamento, água e resíduos nos termos definidos nas recomendações da Entidade Reguladora, significando isto um brutal aumento do preço destes serviços.
O município fica impedido de apoiar os agentes culturais desportivos e sociais, vê-se obrigado a reduzir a sua actividade aos serviços mínimos e por via da imposição da redução da despesa abre-se a porta à possibilidade de despedimento de trabalhadores municipais.
A Câmara passa a ser gerida na prática por organismos governamentais, quase transformando os eleitos pelo povo em mandatários da tutela governativa, durante os 20 anos de duração do empréstimo.
Nos primeiros 5 anos da duração até a elaboração dos orçamentos municipais terá que ter a aprovação prévia da tutela governativa antes de ser submetida à Assembleia Municipal.
Em traços muito largos são estas as consequências do recurso a tal financiamento de 32 milhões de euros, metade dos quais será entregue à empresa Águas do Centro Alentejo.
Alguns ingénuos argumentam que as finanças municipais melhoram, mas estão enganados. A dívida vai continuar a aumentar e o desequilíbrio financeiro estrutural manter-se-á nos mesmos moldes.
A menos de um ano do fim do mandato, o PS recorre à famosa atitude tão bem ilustrada na frase “quem vier atrás que feche a porta”. Se ainda houver porta para fechar, acrescento eu.
 
Até para a semana
 Eduardo Luciano

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