A
opinião pública e os “media”
«Educar uma sociedade é fazê-la
progredir.»
João de Barros
António Sérgio
(no seu Ensaio “Democracia”) escreve: “Passando
da teoria para a prática, consiste o problema político em seleccionar
experimentalmente os meios de obter representantes da opinião pública (os deputados)
- fiscalizadores dos governos, votantes
das bases da legislação, - o mais possível animados duma “vontade
geral”. Para isso, uma das essenciais condições é que eles não surjam como
representantes de uma classe de “produtores”,
porque o interesse de uma classe de “produtores” é oposto ao interesse do “consumidor”, e o interesse do “consumidor” é sempre e em tudo o
interesse geral. Só determinados indivíduos são produtores de trigo, moageiros,
criadores de gado, alfaiates, etc., etc., constituindo classes profissionais no
regime vigente de venda e compra; todos, porém, são consumidores de mantimentos
e de vestuário, e todos, como consumidores, desejam concordemente a mesma
coisa. No ponto de vista da economia, os deputados devem ser todos, e sempre,
representantes do interesse do consumidor, que é o que impõe a “vontade geral”. Aliás, na mesma onda de
propósito, é a afirmação de Andrei Sakharov: “Um Estado torna-se mais perigoso se não for governado abertamente pelo
povo, mas sim em segredo por forças políticas que não são amplamente conhecidas
nem compreendidas.”
E, desta
forma, é incontornável a grande responsabilidade cívica dos “media” na
aculturação (através da informação e formação) das sociedades -
enquanto construtores de cidadãos conscientes de si próprios, autónomos,
esclarecidos, cônscios dos seus direitos e deveres; em suma: livres e não
feudalizados, cidadãos e não vassalos
- como afirmou Victor de Sá.
E se os
Portugueses foram induzidos, pela primeira vez, à criação de uma opinião pública
em 1809 - que os conduziria a um levantamento nacional
(através da luta de guerrilha) contra as invasões francesas - que
forçariam a exaustão e a derrota de um exército profissional e bem organizado como eram as forças
militares napoleónicas, seria contudo Garrett quem -
através dos seus Discursos Parlamentares, dos vários jornais em que
colaborou (sobretudo “O Português”), da sua actividade político-cultural a
favor das reformas do ensino, do teatro, da defesa dos direitos de autor e da
independência jornalística - manifestaria uma estruturada preocupação na
formação e alargamento de uma opinião pública portuguesa (agora, contra os
Absolutistas): consciencializando os Portugueses de que a Democracia (nascida
com a Revolução Liberal de 1820) a defender contra os reaccionários
Miguelistas, assentaria na Soberania popular esclarecida: daí, o seu intuito de
formação/informação orientada para a criação de novos intelectuais bem como de
novos públicos; deseja uma opinião pública e uma classe média o mais alargadas
possível (“façamos com que a classe média
recrute quanto mais puder das fileiras do infeliz povo para as suas
privilegiadas cortes: facilitemos quanto é possível a passagem; mas não mintamos,
não vamos embair de falsas esperanças os desgraçados que podem ter a miséria de
nos acreditar” - dir-nos-ia Garrett em Discurso Parlamentar - 1837). Assim, numa atitude franca, aberta,
sincera (como apanágio de um Parlamentar verdadeiramente culto e democrata),
Almeida Garrett denuncia ao País, o atraso, o subdesenvolvimento, o
obscurantismo, a miséria económica, moral e cultural, em que os
Miguelistas - em defesa dos privilégios de alguns que
queriam subjugar despoticamente o País
- deixaram um Portugal exausto:
que recuou economicamente, culturalmente, politicamente, socialmente na
História com o Miguelismo.
E eram estes “cacos” sociais, económicos, culturais,
políticos e religiosos - provocados pelo
Miguelismo, que Almeida Garrett pretendia tornar “cidadãos” - ilustrando-os, inserindo-os na “opinião pública”, em nome da
Democracia, reerguendo-os.
Era a
Monarquia Liberal de Garrett, como a que seria de Antero, Oliveira Martins,
José Estevão - que seria aliás atraiçoada pelos “homens da finança”, conduzindo ao
Portugal que, tanto Eça ou Ramalho, como Antero ou Junqueiro, ou Fialho de
Almeida analisam: “Nas redacções é o
redactor principal o personagem de importância; trabalhe por conta própria ou
ajornalado ao serviço de uma parceria, galardoam-lhe de ordinário os talentos
com trinta mil réis mensais e a promessa de um oficialato de setenta mil; e
como poucas vezes seja um escritor, um homem de gostos ou propendência
artística de senso, acontece que este cavalheiro, afora a sornice do antiguinho
político, de nada mais se importa e nada mais sabe fazer. A missão de, nas
outras secções da folha, espalhar ideias e fazer opinião sobre os problemas
correntes, fica pois entregue ao rato da redacção, que é quem faz tudo, desde a
cinta dos jornais até à crítica dos livros ...” -
anota Fialho sobre os jornais da época (finais do séc. XIX).
José Vitor Malheiros (in “Público” -
Novembro de 2009), escreve: “Quando
comecei a fazer jornalismo considerava-se que as notícias eram a parte mais
nobre do trabalho do jornalista. Fazer entrevistas ou escrever crónicas podia
ser interessante, mas considerava-se que eram as notícias - o
relato de novos acontecimentos - que permitiam cumprir a responsabilidade
central do jornalismo, pois eram elas que permitiam que os leitores criassem a
sua visão das coisas e das pessoas e consolidassem as suas opiniões ... O
jornalismo que se exige numa altura onde as notícias estão por todo o lado e
são produzidas por todas as pessoas e todas as entidades não é um jornalismo
que se soma ao ruído de fundo, mas um jornalismo que ajuda a distinguir no meio
do ruído de fundo o que é relevante, que torna explícito o que é obscuro e que
desmonta as mentiras oficiais que se escondem por trás dos factos ocorridos. É
um jornalismo de investigação e de denúncia, de rigor e perseverança, que exige
investimento em tempo e em competências, em inabalável sentido cívico, a
coragem de ser incómodo e uma feroz independência perante todos os poderes e
todos os interesses. Infelizmente, é esse jornalismo que cada vez escasseia
mais”.
Contudo, Bernard
Voyenne e D. Bruckuer, vêem no jornalismo como “uma antena de transmissão de recepção” - julgando o mais importante
ser transmitir notícias interessantes e sensacionais (aconselhando a atenção
aos acidentes, cerimónias, crimes de toda a espécie, recepções, julgamentos
criminais e outros, desportos, catástrofes naturais). Afirmam o facto de os
leitores se interessarem sobretudo por estes assuntos.
José Alexandre
Laboreiro

1 comentário:
Ora aqui está um ensaio bem estruturado e de uma grande lucidez.
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