segunda-feira, 30 de julho de 2012

PÁGINA CULTURAL (Colaboração Dr. Alexandre Laboreiro)


A opinião pública e os “media”


«Educar uma sociedade é fazê-la progredir.»
João de Barros

 “Um escritor progressista conduz o leitor a um pensamento profundo, a um estudo profundo, partindo dos dados mais simples e conhecidos, mostrando, com a ajuda de alguns raciocínios ou de exemplos bem escolhidos, as conclusões principais decorrentes destes dados, levando o leitor pensante a novas questões”  -  refere Vladimir Hudeo (in “O que é o Jornalismo”). Ora, nesta linha de pensamento, revela-se intrínseco o pressuposto de que um Jornalismo interventivo (com preocupações de informação/formação para a cidadania) tem em vista construir uma opinião pública consciente (assente numa mente lúcida, de uma inteligência treinada) -  que, sabendo pôr em causa as ortodoxias, saiba depurar o verdadeiro das aparências.
António Sérgio (no seu Ensaio “Democracia”) escreve: “Passando da teoria para a prática, consiste o problema político em seleccionar experimentalmente os meios de obter representantes da opinião pública (os deputados) -  fiscalizadores dos governos, votantes das bases da legislação,  -  o mais possível animados duma “vontade geral”. Para isso, uma das essenciais condições é que eles não surjam como representantes de uma classe de “produtores”, porque o interesse de uma classe de “produtores” é oposto ao interesse do “consumidor”, e o interesse do “consumidor” é sempre e em tudo o interesse geral. Só determinados indivíduos são produtores de trigo, moageiros, criadores de gado, alfaiates, etc., etc., constituindo classes profissionais no regime vigente de venda e compra; todos, porém, são consumidores de mantimentos e de vestuário, e todos, como consumidores, desejam concordemente a mesma coisa. No ponto de vista da economia, os deputados devem ser todos, e sempre, representantes do interesse do consumidor, que é o que impõe a “vontade geral”. Aliás, na mesma onda de propósito, é a afirmação de Andrei Sakharov: “Um Estado torna-se mais perigoso se não for governado abertamente pelo povo, mas sim em segredo por forças políticas que não são amplamente conhecidas nem compreendidas.”
E, desta forma, é incontornável a grande responsabilidade cívica dos “media” na aculturação (através da informação e formação) das sociedades  -  enquanto construtores de cidadãos conscientes de si próprios, autónomos, esclarecidos, cônscios dos seus direitos e deveres; em suma: livres e não feudalizados, cidadãos e não vassalos  -  como afirmou Victor de Sá.
E se os Portugueses foram induzidos, pela primeira vez, à criação de uma opinião pública em 1809  -  que os conduziria a um levantamento nacional (através da luta de guerrilha) contra as invasões francesas  -  que forçariam a exaustão e a derrota de um exército profissional  e bem organizado como eram as forças militares napoleónicas, seria contudo Garrett quem  -  através dos seus Discursos Parlamentares, dos vários jornais em que colaborou (sobretudo “O Português”), da sua actividade político-cultural a favor das reformas do ensino, do teatro, da defesa dos direitos de autor e da independência jornalística  -  manifestaria uma estruturada preocupação na formação e alargamento de uma opinião pública portuguesa (agora, contra os Absolutistas): consciencializando os Portugueses de que a Democracia (nascida com a Revolução Liberal de 1820) a defender contra os reaccionários Miguelistas, assentaria na Soberania popular esclarecida: daí, o seu intuito de formação/informação orientada para a criação de novos intelectuais bem como de novos públicos; deseja uma opinião pública e uma classe média o mais alargadas possível (“façamos com que a classe média recrute quanto mais puder das fileiras do infeliz povo para as suas privilegiadas cortes: facilitemos quanto é possível a passagem; mas não mintamos, não vamos embair de falsas esperanças os desgraçados que podem ter a miséria de nos acreditar”  -  dir-nos-ia Garrett em Discurso Parlamentar  - 1837). Assim, numa atitude franca, aberta, sincera (como apanágio de um Parlamentar verdadeiramente culto e democrata), Almeida Garrett denuncia ao País, o atraso, o subdesenvolvimento, o obscurantismo, a miséria económica, moral e cultural, em que os Miguelistas  -  em defesa dos privilégios de alguns que queriam subjugar despoticamente o País  -  deixaram um Portugal exausto: que recuou economicamente, culturalmente, politicamente, socialmente na História com o Miguelismo.
E eram estes “cacos” sociais, económicos, culturais, políticos e religiosos -  provocados pelo Miguelismo, que Almeida Garrett pretendia tornar “cidadãos”  -  ilustrando-os, inserindo-os na “opinião pública”, em nome da Democracia, reerguendo-os.
Era a Monarquia Liberal de Garrett, como a que seria de Antero, Oliveira Martins, José Estevão  -  que seria aliás atraiçoada pelos “homens da finança”, conduzindo ao Portugal que, tanto Eça ou Ramalho, como Antero ou Junqueiro, ou Fialho de Almeida analisam: “Nas redacções é o redactor principal o personagem de importância; trabalhe por conta própria ou ajornalado ao serviço de uma parceria, galardoam-lhe de ordinário os talentos com trinta mil réis mensais e a promessa de um oficialato de setenta mil; e como poucas vezes seja um escritor, um homem de gostos ou propendência artística de senso, acontece que este cavalheiro, afora a sornice do antiguinho político, de nada mais se importa e nada mais sabe fazer. A missão de, nas outras secções da folha, espalhar ideias e fazer opinião sobre os problemas correntes, fica pois entregue ao rato da redacção, que é quem faz tudo, desde a cinta dos jornais até à crítica dos livros ...”  -  anota Fialho sobre os jornais da época (finais do séc. XIX).
José Vitor Malheiros (in “Público”  -  Novembro de 2009), escreve: “Quando comecei a fazer jornalismo considerava-se que as notícias eram a parte mais nobre do trabalho do jornalista. Fazer entrevistas ou escrever crónicas podia ser interessante, mas considerava-se que eram as notícias  -  o relato de novos acontecimentos  -  que permitiam cumprir a responsabilidade central do jornalismo, pois eram elas que permitiam que os leitores criassem a sua visão das coisas e das pessoas e consolidassem as suas opiniões ... O jornalismo que se exige numa altura onde as notícias estão por todo o lado e são produzidas por todas as pessoas e todas as entidades não é um jornalismo que se soma ao ruído de fundo, mas um jornalismo que ajuda a distinguir no meio do ruído de fundo o que é relevante, que torna explícito o que é obscuro e que desmonta as mentiras oficiais que se escondem por trás dos factos ocorridos. É um jornalismo de investigação e de denúncia, de rigor e perseverança, que exige investimento em tempo e em competências, em inabalável sentido cívico, a coragem de ser incómodo e uma feroz independência perante todos os poderes e todos os interesses. Infelizmente, é esse jornalismo que cada vez escasseia mais”.
Contudo, Bernard Voyenne e D. Bruckuer, vêem no jornalismo como “uma antena de transmissão de recepção” - julgando o mais importante ser transmitir notícias interessantes e sensacionais (aconselhando a atenção aos acidentes, cerimónias, crimes de toda a espécie, recepções, julgamentos criminais e outros, desportos, catástrofes naturais). Afirmam o facto de os leitores se interessarem sobretudo por estes assuntos.
            
José Alexandre Laboreiro


1 comentário:

Anónimo disse...

Ora aqui está um ensaio bem estruturado e de uma grande lucidez.