quarta-feira, 30 de maio de 2012

MEMÓRIAS CURTAS (Rubrica mensal do Professor Vitor Guita


Apesar das mudanças drásticas do tempo, Maio conseguiu colorir os campos de verde, salpicando-os com a garridice das flores silvestres. Também as hortas ganharam, subitamente, a pujança natural para esta época do ano. Valha-nos, ao menos, isso!
Maio fez ainda despertar lembranças de jardins floridos, em particular do jardim público, ali, junto ao Calvário. No filme da nossa memória, passam jardineiros, à hora da rega; sente-se o cheiro do buxo e da terra molhada; respira-se o suave perfume das rosas e o aroma intenso dos primeiros manjericos. Surgem  erupções refrescantes de repuxos e encontros e desencontros de namorados. Ouve-se também o gorjeio dos pássaros, à mistura com a chilreada da miudagem, do outro lado da rua, no jardim dos cavalinhos (dois tostões de entrada, com direito a fundilhos e joelhos rasgados).
Ao anoitecer, a música da passarada costumava ser substituída pelos acordes da Banda da Carlista, pelo repicar dos sinos, que o tio Zé Costa percutia com sabedoria de mestre, e pelo coro de vozes que, à hora do terço, vinha do interior da igreja.
Ali por perto, outros sons bem mais irreverentes tentavam imitar bandas de rock e cantores da moda.
Muitos dos amigos leitores, especialmente os que gostavam (ainda gostam) de dar o seu pé de dança, recordam-se, por certo, do Quinteto Zeus. 
De cima do palco, agarrados ao microfone, pudemos testemunhar como alguns se deixaram embalar e alimentaram paixões ao som do jovem conjunto musical. Felizes recordações!
Com a ajuda de ex-músicos e amigos, procurámos recuperar o que foi o percurso dos Zeus. Para isso, tivemos de recuar até finais dos anos 60, princípios de 70.
Talvez os estimados leitores não saibam, mas a designação Quinteto Zeus surgiu por proposta do António Coelho e do José Rasquinho, dois dos fundadores do grupo, na altura a estudarem em Évora. A ideia nasceu numa aula de História, em que se falava de mitologia. Com o pensamento noutras andanças, o Rasquinho avançou com o nome de Vénus, a deusa do amor. O Coelho achou que isso podia suscitar outras perversas interpretações e, vai daí, propôs o nome de Zeus, hipótese aceite pelo restante pessoal. Como, a certa altura, se cons-tatou que havia mais de cinco elementos no grupo, o conjunto passou a chamar-se Quinteto Zeus + 1.
O António Coelho fez ainda questão de recordar que, naquela época, raros eram os jovens que possuíam instrumentos musicais. Apenas alguns, por tradição familiar, tinham em casa uma viola, um acordeão ou, caso ainda mais raro, um velho piano vertical.
Contrariando esta tendência, um grupo de amigos, liderado pelo António Carmo, começou a fabricar as suas próprias violas. Vantagens  dos  cursos  técnicos, já se vê! A malta ajeitava-se a trabalhar a madeira e o metal.
Um desses instrumentos artesanais, uma viola baixo, foi totalmente construída à mão e viria a ser a primeira viola baixo eléctrica do grupo. O design, recordou o Coelho, era atraente, bonito de se ver. Porém, havia um pequeno senão: a afinação das cordas era feita através de um carrilhão que implicava o uso simultâneo de duas chaves de bocas. A operação era pouco estética e nada funcional. Além disso, dava uma imagem arcaica, pouco prestigiante para um grupo musical que se queria moderno.
Atarraxa daqui, desatarraxa dali, o que é facto é que os instrumentos lá foram aparecendo. Até o bombo da bateria, imagine-se, foi construído pela rapaziada. Umas folhas de platex, umas peles e…  toca a rufar (com o pedal, está bem de ver).
O construtor do primeiro bombo foi o saudoso amigo Orlando Tabaquinho. Mãos de artista! Além do seu talento natural para esculpir a madeira e combinar as tintas, o Orlando foi um dos primeiros jovens da sua geração a desafiar os “bons costumes”, exibindo a sua longa e desalinhada cabeleira. O Orlando estava uns furos à frente de todos nós!
A aventura musical dos primeiros Zeus começou na antiga Rua da Cadeia, por cima das grades, num armazém de cereais. Do núcleo inicial fizeram parte os já citados António Coelho, José Rasquinho, António Carmo, a que se juntaram o António Pisa e um jovem vocalista chamado Piolty de Almeida (haverá, porventura, um ou outro nome que nos pode escapar).

A apresentação foi no cine-teatro Curvo Semedo, por ocasião de uma festa de finalistas da Escola Industrial e Comercial. Estava-se em finais dos anos 60. O gigantismo do palco fez com que os jovens músicos se sentissem perdidos no meio daquela imensidão.
Entretanto, ali ao lado, na igreja do Calvário, criara-se um belíssimo coro, dirigido pelo maestro António Pinto de Sá, que passou a contar com a colaboração do recém-nascido grupo. Foi uma experiência arrojadíssima do pároco, Padre Alberto Dias Barbosa. Poucos imaginariam a celebração de uma missa com acompanhamento de violas eléctricas e ruidosos tambores. Viviam-se tempos de mudança!
No referido grupo coral, cantavam dois futuros Zeus: o Vítor Guita e o Zé Tivo. O primeiro era mais poliglota; o segundo, mais fadista. Fruto desta aproximação entre músicos e o coro, os ensaios passaram a acontecer na igreja de S. Sebastião e, mais tarde, numa sala do edifício do Calvário.
Outros novos elementos foram chegando, trazendo a força da sua juventude, riqueza musical e, mais do que isso, uma grande e sólida amizade. De Mora, chegou o António Caldeira e, da Guiné, veio o Adriano Ferreira, que estudava, nessa ocasião, em Évora. O som estava a cargo do Luís Leandro, que era, ao mesmo tempo, condutor, mecânico (e afins). Aquilo a que se chama o homem dos sete ofícios.
A caminhada do grupo foi ascensional, apesar do serviço militar e razões  várias interferirem, a espaços, na composição do grupo. Partiam uns; chegavam outros. Durante alguns meses, foi possível contar com o angolano Santos e, em finais de 71, chegou de terras algarvias o Fernando Delca com uma esplendorosa bateria Broadway. Apesar da sua juventude, o Delca trazia na bagagem a experiência e o saber adquiridos no meio de grandes músicos, incluindo o seu tio Abílio. Sobrinho de peixe…!
Durante um dos muitos bailes, algures no Ribatejo, aconteceu amor à primeira vista. O alpiarcense António José transferiu-se, naquela noite, do conjunto onde tocava para o jovem Quinteto de Montemor. “Com vocês é que eu gostava de tocar!” E assim foi. O Tózé tocava, cantava e encantava. Ainda hoje o faz de forma genial.
As primeiras actuações dos Zeus foram acontecendo nas colectividades locais, nas festas populares das freguesias e noutros pequenos lugares. Vieram, depois, as concorridas festas de finalistas em vilas e cidades; os grandes réveillons e bailes de Carnaval; as digressões ao Algarve.
Para se deslocarem, os Zeus necessitavam de um meio de transporte. O primeiro carro era um velho Chevrolet, com um motor só comparável ao de uma camioneta, e foi adquirido a um negociante de sucata aqui da terra. Para a compra se efectuar, impunha-se uma condição: o automóvel tinha de subir, carregado de gente, a Rua do Quebra-Costas. O teste foi bem sucedido e o negócio fechado: 1.500$00 e uma bateria nova para o carro. O pior era que o matulão sorvia, num ápice, 18 litros de combustível. Uma fortuna! Além do mais, o pesado carro pregava as suas partidas: teimoso em arrancar; cláxon preso; fusíveis queimados; rupturas no radiador; macacos impotentes para o levantar. Valia a competência do António Maria Magina, que foi condutor e mecânico. Que sorte ter um colaborador assim!
Em situações limite, avançava o carro da família Coelho, o Opel azul do José Leandro ou, quase clandestinamente, o BMW preto e prateado, que pertencera à família Cunhal. Um verdadeiro luxo! 
Que grande carro! Que grande aparelhagem! Até têm um preto e tudo! – ouvia-se comentar por essas terras fora. Mal sabiam as pessoas que o tamanho dos equipamentos estava na razão inversa da sua qualidade.
Depois de algum tempo a tocar com amplificadores rudimentares (tipo feira), chegaram outros equipamentos mais modernos. Trinta e tal contos foi quanto custou uma aparelhagem Honner, paga em letras mensais à firma Leandro & Gatinho. Para aguentar as pesadas letras, era preciso inventar bailes, matinés, pequenas representações, o que fosse…
Há cerca de 40 anos, O Montemorense tecia rasgados elogios ao Quinteto Zeus, ao empenhado trabalho dos seus jovens elementos e vaticinava êxitos musicais.
Já tínhamos esquecido boa parte desta epopeia. Valeu a pena!
Até um dia destes.
Vítor Guita

2 comentários:

Anónimo disse...

Bonita viagem por outros tempos!

Anónimo disse...

BONS TEMPOS. MUITA SAUDE A QUEM OS RECORDA