Apesar das
mudanças drásticas do tempo, Maio conseguiu colorir os campos de verde,
salpicando-os com a garridice das flores silvestres. Também as hortas ganharam,
subitamente, a pujança natural para esta época do ano. Valha-nos, ao menos,
isso!
Maio fez
ainda despertar lembranças de jardins floridos, em particular do jardim
público, ali, junto ao Calvário. No filme da nossa memória, passam jardineiros,
à hora da rega; sente-se o cheiro do buxo e da terra molhada; respira-se o
suave perfume das rosas e o aroma intenso dos primeiros manjericos. Surgem erupções refrescantes de repuxos e encontros
e desencontros de namorados. Ouve-se também o gorjeio dos pássaros, à mistura
com a chilreada da miudagem, do outro lado da rua, no jardim dos cavalinhos
(dois tostões de entrada, com direito a fundilhos e joelhos rasgados).
Ao
anoitecer, a música da passarada costumava ser substituída pelos acordes da
Banda da Carlista, pelo repicar dos sinos, que o tio Zé Costa percutia com
sabedoria de mestre, e pelo coro de vozes que, à hora do terço, vinha do
interior da igreja.
Ali por
perto, outros sons bem mais irreverentes tentavam imitar bandas de rock e
cantores da moda.
Muitos dos
amigos leitores, especialmente os que gostavam (ainda gostam) de dar o seu pé
de dança, recordam-se, por certo, do Quinteto Zeus.
De cima do palco, agarrados
ao microfone, pudemos testemunhar como alguns se deixaram embalar e alimentaram
paixões ao som do jovem conjunto musical. Felizes recordações!
Com a ajuda
de ex-músicos e amigos, procurámos recuperar o que foi o percurso dos Zeus. Para
isso, tivemos de recuar até finais dos anos 60, princípios de 70.
Talvez os
estimados leitores não saibam, mas a designação Quinteto Zeus surgiu por
proposta do António Coelho e do José Rasquinho, dois dos fundadores do grupo,
na altura a estudarem em Évora. A ideia nasceu numa aula de História, em que se
falava de mitologia. Com o pensamento noutras andanças, o Rasquinho avançou com
o nome de Vénus, a deusa do amor. O Coelho achou que isso podia suscitar outras
perversas interpretações e, vai daí, propôs o nome de Zeus, hipótese aceite
pelo restante pessoal. Como, a certa altura, se cons-tatou que havia mais de
cinco elementos no grupo, o conjunto passou a chamar-se Quinteto Zeus + 1.
O António
Coelho fez ainda questão de recordar que, naquela época, raros eram os jovens
que possuíam instrumentos musicais. Apenas alguns, por tradição familiar,
tinham em casa uma viola, um acordeão ou, caso ainda mais raro, um velho piano
vertical.
Contrariando
esta tendência, um grupo de amigos, liderado pelo António Carmo, começou a
fabricar as suas próprias violas. Vantagens
dos cursos técnicos, já se vê! A malta ajeitava-se a
trabalhar a madeira e o metal.
Um desses
instrumentos artesanais, uma viola baixo, foi totalmente construída à mão e
viria a ser a primeira viola baixo eléctrica do grupo. O design, recordou o
Coelho, era atraente, bonito de se ver. Porém, havia um pequeno senão: a
afinação das cordas era feita através de um carrilhão que implicava o uso
simultâneo de duas chaves de bocas. A operação era pouco estética e nada
funcional. Além disso, dava uma imagem arcaica, pouco prestigiante para um
grupo musical que se queria moderno.
Atarraxa
daqui, desatarraxa dali, o que é facto é que os instrumentos lá foram
aparecendo. Até o bombo da bateria, imagine-se, foi construído pela rapaziada.
Umas folhas de platex, umas peles e…
toca a rufar (com o pedal, está bem de ver).
O construtor
do primeiro bombo foi o saudoso amigo Orlando Tabaquinho. Mãos de artista! Além
do seu talento natural para esculpir a madeira e combinar as tintas, o Orlando
foi um dos primeiros jovens da sua geração a desafiar os “bons costumes”,
exibindo a sua longa e desalinhada cabeleira. O Orlando estava uns furos à
frente de todos nós!
A aventura
musical dos primeiros Zeus começou na antiga Rua da Cadeia, por cima das
grades, num armazém de cereais. Do núcleo inicial fizeram parte os já citados
António Coelho, José Rasquinho, António Carmo, a que se juntaram o António Pisa
e um jovem vocalista chamado Piolty de Almeida (haverá, porventura, um ou outro
nome que nos pode escapar).
A
apresentação foi no cine-teatro Curvo Semedo, por ocasião de uma festa de
finalistas da Escola Industrial e Comercial. Estava-se em finais dos anos 60. O
gigantismo do palco fez com que os jovens músicos se sentissem perdidos no meio
daquela imensidão.
Entretanto,
ali ao lado, na igreja do Calvário, criara-se um belíssimo coro, dirigido pelo
maestro António Pinto de Sá, que passou a contar com a colaboração do
recém-nascido grupo. Foi uma experiência arrojadíssima do pároco, Padre Alberto
Dias Barbosa. Poucos imaginariam a celebração de uma missa com acompanhamento
de violas eléctricas e ruidosos tambores. Viviam-se tempos de mudança!
No referido
grupo coral, cantavam dois futuros Zeus: o Vítor Guita e o Zé Tivo. O primeiro
era mais poliglota; o segundo, mais fadista. Fruto desta aproximação entre
músicos e o coro, os ensaios passaram a acontecer na igreja de S. Sebastião e,
mais tarde, numa sala do edifício do Calvário.
Outros novos
elementos foram chegando, trazendo a força da sua juventude, riqueza musical e,
mais do que isso, uma grande e sólida amizade. De Mora, chegou o António
Caldeira e, da Guiné, veio o Adriano Ferreira, que estudava, nessa ocasião, em
Évora. O som estava a cargo do Luís Leandro, que era, ao mesmo tempo, condutor,
mecânico (e afins). Aquilo a que se chama o homem dos sete ofícios.
A caminhada
do grupo foi ascensional, apesar do serviço militar e razões várias interferirem, a espaços, na composição
do grupo. Partiam uns; chegavam outros. Durante alguns meses, foi possível
contar com o angolano Santos e, em finais de 71, chegou de terras algarvias o
Fernando Delca com uma esplendorosa bateria Broadway. Apesar da sua juventude,
o Delca trazia na bagagem a experiência e o saber adquiridos no meio de grandes
músicos, incluindo o seu tio Abílio. Sobrinho de peixe…!
Durante um
dos muitos bailes, algures no Ribatejo, aconteceu amor à primeira vista. O
alpiarcense António José transferiu-se, naquela noite, do conjunto onde tocava
para o jovem Quinteto de Montemor. “Com vocês é que eu gostava de tocar!” E
assim foi. O Tózé tocava, cantava e encantava. Ainda hoje o faz de forma
genial.
As primeiras
actuações dos Zeus foram acontecendo nas colectividades locais, nas festas
populares das freguesias e noutros pequenos lugares. Vieram, depois, as
concorridas festas de finalistas em vilas e cidades; os grandes réveillons e
bailes de Carnaval; as digressões ao Algarve.
Para se
deslocarem, os Zeus necessitavam de um meio de transporte. O primeiro carro era
um velho Chevrolet, com um motor só comparável ao de uma camioneta, e foi
adquirido a um negociante de sucata aqui da terra. Para a compra se efectuar,
impunha-se uma condição: o automóvel tinha de subir, carregado de gente, a Rua
do Quebra-Costas. O teste foi bem sucedido e o negócio fechado: 1.500$00 e uma
bateria nova para o carro. O pior era que o matulão sorvia, num ápice, 18 litros de combustível.
Uma fortuna! Além do mais, o pesado carro pregava as suas partidas: teimoso em
arrancar; cláxon preso; fusíveis queimados; rupturas no radiador; macacos
impotentes para o levantar. Valia a competência do António Maria Magina, que
foi condutor e mecânico. Que sorte ter um colaborador assim!
Em situações
limite, avançava o carro da família Coelho, o Opel azul do José Leandro ou,
quase clandestinamente, o BMW preto e prateado, que pertencera à família
Cunhal. Um verdadeiro luxo!
Que grande
carro! Que grande aparelhagem! Até têm um preto e tudo! – ouvia-se comentar por
essas terras fora. Mal sabiam as pessoas que o tamanho dos equipamentos estava
na razão inversa da sua qualidade.
Depois de
algum tempo a tocar com amplificadores rudimentares (tipo feira), chegaram
outros equipamentos mais modernos. Trinta e tal contos foi quanto custou uma
aparelhagem Honner, paga em letras mensais à firma Leandro & Gatinho. Para
aguentar as pesadas letras, era preciso inventar bailes, matinés, pequenas
representações, o que fosse…
Há cerca de
40 anos, O Montemorense tecia rasgados elogios ao Quinteto Zeus, ao empenhado
trabalho dos seus jovens elementos e vaticinava êxitos musicais.
Já tínhamos
esquecido boa parte desta epopeia. Valeu a pena!
Até um dia
destes.
Vítor Guita



2 comentários:
Bonita viagem por outros tempos!
BONS TEMPOS. MUITA SAUDE A QUEM OS RECORDA
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