quinta-feira, 31 de maio de 2012

EM MEMÓRIA


Continuamos a homenagear a memória do «Vicentinho»

UM CASTELO DIFERENTE

É natural e compreensível que muitas pessoas estranhem que o Castelo do Alandroal esteja envolvido por um semi-  anel  de edificações que, aparentemente. Lhe prejudica a imponência e lhe retira aquela dignidade austera que caracteriza a maioria dos castelos.
Nos anos quarenta/cinquenta, em Portugal, uma onda arquitectónica urbanística oficial varreu alguns pontos do país. Entre outros desígnios, preconizava uma espécie de purificação das fortalezas, entendem-se tal purificação como o despojo de construções que sufocavam.
Tal corrente foi então, e é hoje, objecto de apreciação contraditórias. E se foi responsável  por grandes edificações públicas fê-lo , em muitos casos, à custa de destruição de património edificado, evidentemente em nome da largueza de espaços e da importância arquitectónica e funcional das novas construções e do rasgar moderno  de espaçosas avenidas.
O que tem tudo isto a ver com o Alandroal e o seu Castelo? Provavelmente nada. Mas, tendo eu tido o atrevimento de aceitar o convite para participar num conjunto de palestras comemorativas dos sete séculos do Castelo do Alandroal, ao lado de investigadores de História e navegando eu noutras águas que não são propriamente  as da investigação histórica, pareceu-me que não seria totalmente despiciendo uma abordagem  noutra perspectiva, ainda dento das ciências sociais. Mais: a importância de um Castelo com o significado do de Alandroal, nos dias de hoje, legitima outros olhares, seguramente e desde logo, um espaço socioantropologico, de modo a retirar-lhe a visão exclusiva do passado enquanto passado, típica destas análises.
AS visões do passado, enquanto passado, são importantíssimas e as gerações actuais devem conhecer o passado, sobretudo o passado que mais directamente lhes diz respeito.
E isto raramente acontece ao nível da vulgarização do conhecimento histórico que, no fundo é qualquer coisa pela qual se tem respeito cerimonioso que se tem pelas coisas mortas.
Todavia, na minha opinião, que aliás partilha de correntes relativamente recentes, o conhecimento do passado, só por si, carece de vida e a vida continua aí. Isto é: matar-se um  monumento cristalizando-o  na época em que terá tido o seu auge funcional. Desde logo, os castelos, que se respeitam pela fotografia que nos dão de um passado. No fundo, no fundo respeitamo-los por estarem mortos
Uma abordagem sociológica questiona esta visão que, no limite, é o que apelidarei de paradigma isolacionista do castelo do castelo feitiche
O que eu pretendo dizer com isto e, em ultima análise, qual é o objecto  desta modesta contribuição para o ciclo de colóquios Castelos do Alandroal – VII séculos?
Em primeiro lugar defender a tese de que o aproveitamento hodierno de um monumento  como o do Castelo de Alandroal não passa pelo sacrifício  de edificações eventualmente consideradas espúrias e que aparentemente lhe retiram visibilidade,
Efectivamente estas edificações encostadas ao Castelo e à Muralha não lhe retiram a visibilidade, mas conferem-lhe, sim, outra visibilidade. A tese contrária  seria retirar história à história. Esta tese, se não existe agora, já existiu, e nada nos garante que não venha a ser defendida.
Em segundo lugar, defender aquilo que aparece como corolário da primeira tese: o que está, está, e como tal deve ser pontencionado. Por outras palavras: a mais valia que os Alandroalenses, ao longo de séculos, acrescentaram ao seu Castelo não pode, nem deve, ser apagado da história.
Ela traduz a vida das pessoas que foram e são tão ou mais importantes que aquelas que apenas que apenas por um esforço de abstracção poderemos localizar em determinado período de tempo.
(Continua na próxima semana)

4 comentários:

Anónimo disse...

Já um pouco fora de tempo, quero deixar uma opinião: O Vicente no seu melhor. Mesmo hoje, depois de ter partido, ainda nos dá ensinamentos, dos muitos que tinha, e levou consigo. Há, porém, uma prenda que o Vicente me ofereceu e que eu guardo religiosamente. Que tenho neste momento em frente dos olhos e da qual nunca falei a não ser em família. Foi no dia 02/05/1998. Foi durante uma saída nocturna, por terras mais meridionais que o Alandroal. Foi uma farra familiar: Eu e a minha mulher, o Vicente e a Grabriela, sua namorada. Uma moça extraordinária, que o acompanhou até ao fim. Atracámos, em fim de noite, numa casa que tinha o curioso nome de Sociedade Artística Farense, calculem. Num ambiente de que nos fizemos, mais tarde, fregueses habituais. O Vicente adorava as conquilhas daquela cozinha! Baile popular, toque de concertina! Que mais poderíamos nós querer? No intervalo do arrastar dos pés, o Vicente foi fazendo o desenho da minha cara, de perfil, que era, em sua opinião,

francisco tátá disse...

Pois é meu caro amigo. Nunca é tarde para aqui se relembrar o Vicente. Ele merecia estar aqui sempre em primeira linha. Deixou-nos. É nosso dever relembrá-lo. Fico ansiosamente a aguardar o envio do tal retrato, assim como um texto que realce as suas qualidades humanas. Obrigado pelo comentário Chico

Anónimo disse...

Sr. Francisco Manuel, fica a impressão que o comentário não está completo já que acaba com uma vírgula. Coisas da blogosfera, não?

francisco tátá disse...

Tem razão. Recuperações de comentários colocados no local errado. Mas a essencia está lá.
Obrigado
Chico