terça-feira, 29 de maio de 2012

EM MEMÓRIA


O texto que se segue (outros lhe seguiram as pisadas) foi copiado do livro  “Castelo do Alandroal VII séculos”.
Pretendemos com os mesmos homenagear a memória de um grande amigo: Vicente Roma”

(Continuação)
O nosso viajante olha ainda mais para cima  e vê, sobreposto ao casario, o campo, que parece ali estar como cenário. Oliveiras, azinheiras, sobreiros….
Sobe então à Torre de Menagem, (não sabe que os Alandroalenses lhe chamam apenas Torre, não a confundindo, apesar de tudo, com as outras torres a que chamam torreões, sendo que aqui, ao contrário da regra, o sufixo deixa de ter carácter aumentativo, aparecendo mais diminutivo que nunca para destacar a importância da outra, simplesmente Torre).
Mesmo admitindo que o nosso visitante não seja especialista em história, não deixaremos de compreender que ele ache espúrio o crescento que se fez à Torre de Menagem: um relógio de quatro mostradores, sinos, um reboco de um branco imaculado a contrastar com a patine dos xistos.
«Que diabo! Um relógio?». Evita uma adjectivação mais crítica e refugia-se mais uma vez, no vocabulário curioso, que serve, à falta de melhor, para dar como compreendido o que não está. Acabou por deixar escapar um comentário para o lado, como se estivesse alguém ao pé de si: «tem qualquer coisa de árabe, a Torre. A Torre e tudo isto, as varandas solarengas, os arcos tímidos, as chaminés desmesuradas, as escadarias empedradas, o traço levemente sinuoso das ruas, no fundo pequenos rios afluentes que abriram caminho sem geometria e confluíram num abraço à muralha para depois se ramificarem novamente e começarem a escorregar até ao campo. De novo o campo, com azinheiras, sobreiros, mato, olivais. Algumas hortas, searas em mosaico.
O nosso homem estava francamente fatigado de tanto subir e descer íngremes e estreitas escadarias na sua visita ao Castelo. Estava também um tanto ou quanto extasiado com os contrastes e quase perturbado pelas interrogações, que não deixará de se colocar: « Os castelos estão quase sempre edificados no cimo da elevação mais notória. Aqui não, está no meio da encosta. Os castelos, na sua maioria, estão despidos de construções para terem mais visibilidade. Aqui não, temos a muralha como parede de sala de estar, , de quartos de meninos, do café, da oficina, da mercearia.
Nos castelos vulgares - escapou-lhe a palavra mas deixou-a  ficar porque assim não considerava este – a Torre de Menagem permanece intocável e nunca se refere a Torre sem dizer de Menagem. Aqui não. Coloca-se-lhe um relógio e dividem-se as horas em quartos de sonoras badaladas para balizar  o tempo dos alandroalenses em bocadinhos e  - pasme-se – repetem as badaladas das horas certas para aviso dos distraídos». Estava já descer a rampa de entrada do Castelo (agora de saída)e olhando para trás, sem contudo se deter, apercebeu-se que estava a dizer como se estivesse alguém a seu lado: curioso, curioso, curioso….
Este poderia ser um relato, quase romanceado, de um visitante e do seu Castelo.

(Continua...na próxima quinta feira iremos transcrever  maia algumas páginas)

2 comentários:

Anónimo disse...

Já um pouco fora de tempo, quero deixar uma opinião: O Vicente no seu melhor. Mesmo hoje, depois de ter partido, ainda nos dá ensinamentos, dos muitos que tinha, e levou consigo.

Há, porém, uma prenda que o Vicente me ofereceu e que eu guardo religiosamente. Que tenho neste momento em frente dos olhos e da qual nunca falei a não ser em família.
Foi no dia 02/05/1998. Foi durante uma saída nocturna, por terras mais meridionais que o Alandroal. Foi uma farra familiar: Eu e a minha mulher, o Vicente e a Grabriela, sua namorada. Uma moça extraordinária, que o acompanhou até ao fim. Atracámos, em fim de noite, numa casa que tinha o curioso nome de Sociedade Artística Farense, calculem. Num ambiente de que nos fizemos, mais tarde, fregueses habituais. O Vicente adorava as conquilhas daquela cozinha! Baile popular, toque de concertina! Que mais poderíamos nós querer?

No intervalo do arrastar dos pés, o Vicente foi fazendo o desenho da minha cara, de perfil, que era, em sua opinião, o meu melhor ângulo. Aqui houve risadas, está bem de ver.
Já alta madrugada, lá me presenteou com o meu retrato, depois de assinado e datado. Retrato feito no papel da mesa em que estávamos sentados.

Se as tecnologias o permitirem e o administrador do blogue estiver de acordo, ainda um dia o publicaremos.

Será mais uma homenagem ao Vicente, pois ele, para além de nos ter deixado estes textos, também era um extraordinário retratista.

Com saudades do Vicente.

OWK

francisco tátá disse...

Pois é meu caro amigo.
Nunca é tarde para aqui se relembrar o Vicente. Ele merecia estar aqui sempre em primeira linha.
Deixou-nos. É nosso dever relembrá-lo.
Fico ansiosamente a aguardar o envio do tal retrato, assim como um texto que realce as suas qualidades humanas.
Obrigado pelo comentário
Chico