|
Quinta, 31 Maio 2012 10:52
A UNICEF apresentou na passada terça-feira um relatório que
pretende medir a pobreza infantil.
|
Baseado em dados indicadores de 2009, o relatório não tem ainda
em conta o aprofundamento da crise e as consequências das políticas de
austeridade impostas em países como Portugal.
Os resultados colocam o nosso país em 25.º lugar na lista de 29
países da OCDE e apontam para a existência de 27% de crianças portuguesas em
situação de carência.
Ou seja, com base num relatório construído com dados anteriores
a 2009, uma em cada 4 crianças até aos 16 anos de idade vivia em situação de
carência.
De referir ainda que 14,7% das crianças portuguesas vivem abaixo
do limiar da pobreza, o que significa que nas suas casas o rendimento anual por
adulto é 50% abaixo da mediana da distribuição de rendimentos, cerca de 400 euros.
Olhando para esta fotografia da nossa realidade, não podemos
deixar de pensar nos que nos atiram à cara que todos temos culpa da crise
porque vivemos acima das nossas possibilidades e que classificam, de forma
hipócrita, o empobrecimento generalizado da maioria, como um ajustamento da
realidade.
Ao insistirem na tese de que todos vivemos acima das nossas
possibilidades, estão a admitir que 27% das crianças portuguesas não deveriam
viver em situação de carência mas sim de indigência, porque as “nossas
possibilidades” não dão para mais.
Refiro aqui as crianças pela actualidade do relatório, mas
poderia lembrar os reformados e pensionistas que vivem abaixo do limiar da
pobreza ou os desempregados sem protecção social, ou a situação cada vez mais
comum de gente que, apesar de ainda ter emprego, o seu salário não chegar para
dar resposta às necessidades mais básicas.
Bastaria pensar um pouco nesta realidade para concluir que a
insistência na teoria que andámos todos a esbanjar à “tripa forra” e que agora
estamos a sofrer as consequências desse despautério, não passa no teste da
realidade do dia-a-dia.
Daqui a uns anos, quando for publicado novo relatório com
referência a dados de 2012, vamos verificar que a percentagem de crianças a
viver abaixo do limiar da pobreza aumentou substancialmente e, seguramente,
nessa altura não vai aparecer nenhum gabarolas a querer ficar com os louros das
políticas de “ajustamento” e ninguém vai querer ser o alvo dos elogios da
“troika” da “ajuda”.
Andámos “todos a viver acima das nossas possibilidades” e agora
“temos todos que fazer sacrifícios” repetem a cada passo. A minha prima Zulmira
acha que, na melhor das hipóteses, uns sacrificam o segundo iate e outros
sacrificam o almoço. Tudo isto porque os primeiros viveram acima das
possibilidades dos segundos.
Até pata a semana
Eduardo Luciano

1 comentário:
Parece que a D. Eveline Sambraz e o Sr. Eduardo Luciano se combinaram para escrever estas crónicas. É que vão as duas no mesmo sentido. Ou será apenas porque hoje é o Dia Mundial da Criança?
Enviar um comentário