« E quem dirá
- seja qual for o desencanto futuro -
que esquecemos a magia,
ou que pudemos atraiçoar
na terra amarga,
a luta, a canção
e a vida ?
- ou aquilo a que temos direito ! »
Thomas Wolfe
É comum em tempos de crise ouvir dizer que as faixas etárias
mais indefesas são as crianças e os idosos.
É comum e é verdade.
As crianças por incompreensão das situações, e por não terem
nas mãos as armas de luta indispensáveis para se defenderem, são as primeiras a
sentir os efeitos da penúria. É por isso que, cada vez em maior número, chegam
à escola sem tomar o pequeno almoço; é por isso que se atiram à comida escolar,
na hora do almoço, cada vez com maiores ganas; é por isso – suponho – que
muitas autarquias e várias outras organizações – se esforçam por não deixar acabar os géneros
alimentares nas cantinas escolares e nas creches. É por isso que a fome, entre
os mais novos, ainda não está generalizada, embora para lá caminhando – suponho,
também.
Mas com os idosos a roca podia fiar mais fino, mesmo levando
em conta e considerando que, estando reformados, não podem causar amargos de
boca a quem nos governa, não podem contestar as medidas impostas, não podem
fazer greve, limitando-se a expressar a sua opinião apenas numa ou noutra
manifestação de protesto. Manifestações essas que os governantes ignoram por
completo.
Como se não existissem.
« Coisas de velhos » - Dirão os que estão sentados na
cadeira do poder.
Aceitam – que remédio! –
os cortes nos subsídios de férias e natal; aceitam os cortes no montante
das pensões; aceitam levar os netos à escola e aceitam ir buscá-los no fim das
aulas. Aceitam preencher o tempo, acompanhando os netos, já que os pais,
ocupados na lufa-lufa do dia a dia, não têm possibilidade de estar com os
filhos. Aceitam ainda, muitas vezes, ajudar no pagamento de compromissos
financeiros que os filhos assumiram no tempo em que tudo eram facilidades. No
tempo em que os bancos empurravam créditos para cima da sociedade; no tempo em
os cartões de crédito eram impostos a todos. No tempo em que a palavra de ordem
era: « Tu queres , tu tens ». No tempo em que o capitalismo pensava que a
História tinha chegado ao fim, vencido que estava o comunismo.
Afinal, a História não tinha chegado ao fim, como agora muito
bem se vê. Quando muito, a História, chegou a um novo patamar. A um patamar a
que o capitalismo apenas teve acesso com olhos gulosos, desejoso de controlar
toda a riqueza produzida, deixando indefesa a maior parte da Humanidade, aquela
parte da Humanidade que não tem voz
E é nessa parte da Humanidade que se quedam as crianças e os
seus avós.
Sabendo-se, como é sabido, que a sabedoria se atinge aliando
a experiência com o conhecimento, quem, mais que os velhos avós, tem estas duas
valências, a fim de trocar as voltas àqueles que as querem trocar aos velhos e
às crianças?
Pespeguem-se os avós e os netos frente a S. Bento,
protestando contra as medidas de miséria que lhes são impostas, e veremos então
qual será a atitude dos nossos governantes. E dessa atitude tiraremos as
devidas ilações.
Comigo podem contar. E com os meus netos também.
Eveline Sambraz
Mina do Bugalho
Maio de 2012.
1 comentário:
Obs.
Comungando da visão de História apresentada e elogiando a clareza geométrica deste bom texto
de Dona Eveline S. talvez (julgo eu) possa acrescentar a ideia de que todos já sabemos, desde Marx, que o capitalismo tem contradições insanáveis.
Assim como vem apresentando diversos "limites internos e externos" à sua própria evolução.
Atenção,
porque um deles é o de que o sistema (baseado nos Lucros imparaveis) só sobrevive correndo a uma velocidade maior do que a realidade social que o sustenta.
Daí,se não estou enganado, a merd@ das sucessivas ondas de especulação em torno das mais variadas Bolhas onde a porra dos mercados facilmente se sobrepõem, na pratica, a qualquer tipo de poder politico e social.Vide caso Ren/mexia.
Fico por aqui antes que Dona Eveline decida relembrar-me que esta estação de serviço do capitalismo que nos calhou viver só vem servindo para, desta vez, mais do que matar e phoder... estar agora também a Humilhar as pessoas.
É como (me)sinto face "à historicidade"
deste aparente modo de viver Velho e novo, de avós com netos.
Nacional e internacional.
Boa noite.
ANB
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