A finura de um livro
Mão amiga fez-me chegar, em pleno
cemitério de São Francisco, imaginem, um livro fino. Fino, porque não é
espesso. E fino, porque é de um recorte literário pouco habitual para o qual o
título, sugestivo porque estranho, nos remete de imediato: História de um assassino vulgar e outras peças.
Os
discursos fragmentados que formam a colectânea, vindos de narradores nos
limites da loucura, são bem o reflexo da própria divisão, diria,
esquizofrénica, a que o ser humano é submetido, não poucas vezes, no decorrer
da sua existência, esta, muitas vezes, um percurso em permanente borderline.
Não são
poemas, não são contos, não são ensaios aquilo que li. À excepção da peça de
teatro propriamente dita, não sei o que são. Mas são literatura. Da boa. A confrontar-nos com o que de pior nos
desafia desde que nascemos: os nossos medos, a nossa consciência, a nossa
impotência, ou incompetência, de não termos escolhido outros caminhos que não
este que nos trouxe até ao hoje. “O corpo é que paga”, diz-nos a canção de
Variações. A mente é que paga, diz-nos Rui Sousa, o autor do livro.
Destaco,
apelando a uma leitura urgente, “História de um Assassino Vulgar”,
“Fragmento-Salazar” e “As Máscaras”, pelo seu conteúdo forte, actual, nu, cru e
desassombrado, de reprimidos que regressam em nossa constante perseguição
pessoal e colectiva; e “Guerra de Tróia”, pela viagem crítica a um dos grandes
mitos da nossa civilização.
O
livro é da Angelus Novus, editora de Coimbra, foi publicado em 2002 e não sei
por que razão absurda não me foi possível lê-lo mais cedo. (Faltava a mão
amiga.)
O
autor, que não conheço, nasceu em 1979, na cidade de Évora, tem raízes em
Montemor-o-Novo, onde trabalha actualmente e, um dia, se ele concordar, lá
teremos de trocar umas ideias sobre as palavras e sobre o que elas… escondem.
J.L.N
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