quarta-feira, 28 de março de 2012

MEMÓRIAS CURTAS ( Professor Vitor Guita)

Nota do Editor:
Pessoa muito considerada no meio artístico cultural de Montemor, o Professor Vítor Guita é desde há muito considerado um marco saliente em todas as manifestações culturais aqui realizadas,
São inúmeras as participações, quer na parte das artes, quer da cultura, em que o Vítor Guita não esteja presente.
São muitas as participações quer em conferências, em apresentações sócio-culturais,, em tudo o que diz respeito à arte e cultura que o mesmo não tenha um papel preponderante .
Victor Guita, cronista habitual do jornal o Montemorense com o seu = Memórias Curtas= desde há muito era “cobiçado para compartilhar a transcrição da sua rubrica aqui no Al Tejo.
Após se inteirar dos fins que o Al Tejo persegue, concordou (o que para mim me enche de orgulho) em passar a ser mais um colaborador deste espaço.
Obrigado Professor.
Para si caro leitor tenho a certeza que vai apreciar e gostar destas “MEMÓRIAS CURTAS”, pois elas são o reflexo do nosso orgulho de bons Alentejanos de preservámos as nossas memórias.
Chico Manuel

MEMÓRIAS CURTAS

Deve ser andaço que deu em aparecer por aí! Anda meio mundo na mesma! – dizia-nos, num tom consolador, um velhíssimo amigo nosso.
Com andaço ou sem andaço, com estirpe gripal ou sem ela, o que é facto é que bastaram três gélidos arrepios, meia dúzia de tremores e um febrão daqueles a valer para irmos ao tapete em menos de um virote. Um rotundo nocaute! E logo nos dias em que precisávamos de ir para a rua, à procura de um bom motivo que alimentasse as nossas habituais Memórias Curtas.
Na iminência de faltarmos ao nosso compromisso mensal com O Montemorense e com os estimados leitores, perdemo-nos em cogitações, tentando reavivar lembranças que não implicassem ter de pôr os pés fora de casa. Ocorreram-nos múltiplos episódios e personagens, cenas campesinas relacionadas com o mês de Março e o despertar da Primavera. Aconteceu o mesmo com Abril, águas mil. Porém, a desolação que vai nos campos, a seca que se desenha no horizonte, não pediam bucolismos.
Aconteceu que, na circunstância, folheávamos uma colecção de primeiras páginas do Diário de Notícias, desde 1864, data da sua fundação, até ao bem mais recente ano de 1984. Além da leitura ajudar a matar o tempo, as páginas dos jornais são, regra geral, reflexos da vida dos povos. Talvez ali pudéssemos encontrar alguma ideia luminosa.


Como quem quer apontar um caminho, o livro grande abriu-se na página com data de 25 de Abril de 1974. Era uma quinta-feira e o jornal custava vinte e cinco tostões (pouco mais de um cêntimo). Aproveitámos a sugestão que a colectânea parecia querer oferecer-nos e, antecipando de algum modo as Memórias de Abril, avançámos com o discurso, desta vez um pouco mais autobiográfico do que é habitual.
Em 1974, não nos encontrávamos em Montemor. Prestávamos serviço militar na Armada, mais exactamente na Força de Fuzileiros do Continente, no Alfeite. Enclausurados no quartel, frequentemente de prevenção, faltavam-nos referências acerca do que se passava em terras do Almansor.


No Alfeite, o nosso primeiro comandante era José Baptista Pinheiro de Azevedo, um dos oficiais que viria a integrar a Junta de Salvação Nacional e que foi, mais tarde, primeiro-ministro. Alguns chamaram-lhe Almirante sem Medo.
Por imperativo do cargo que desempenhávamos, durante cerca de dois anos e meio fomos a despacho no seu gabinete, no primeiro andar do edifício do comando. Tinham de ser tomadas decisões sobre ocorrências quase sempre gravosas: deserções e outras situações de natureza disciplinar. Era ainda preciso dar resposta a problemas pessoais e familiares dos marinheiros.
Aquela unidade militar era complexa. Além de ser um importante quartel de fuzileiros, comportava, no seu interior, uma Companhia de Adidos por onde transitava grande parte do pessoal da Marinha. As suas instalações funcionavam ainda como um vasto depósito disciplinar onde iam parar os “rapazes mal comportados” dos impolutos navios e de outras unidades em terra. Havia até quem lhe chamasse “o cu da Armada”, tal era a enxurrada de problemas que ali ia desaguar.
Por outro lado, cruzávamo-nos diariamente com pessoal portador de deficiência física ou mental. Eram as marcas da guerra e não só, a fazer lembrar as palavras do poeta Fernando Pessoa: “malhas que o Império tece”.
No cenário, que tinha como pano de fundo a zona de Miratejo, arrastavam-se ociosamente ao longo da parada, de gabinete em gabinete, os que aguardavam resultados da Junta Médica ou a hora de irem a Tribunal para julgamentos que demoravam a acontecer. A justiça era lenta. A justiça, pelos vistos, foi sempre lenta.
As prisões estavam pejadas de gente muito jovem, quase imberbe, à mistura com outros que faziam impor a sua máscula vete-rania. Situação promíscua, muito pouco salutar. Já nessa época, a homossexualidade grassava entre reclusos e o tráfico de droga começava a proliferar. Estamos a falar do início dos anos 70.
Vá-se lá saber porquê, aos vinte e poucos anos, nomearam--nos para averiguar e resolver parte dos intricados problemas daquela rapaziada. Para quem já tinha alguma formação académica na área da sociologia, temos de confessar que a Marinha foi, de facto, a nossa primeira grande universidade. Lidámos com toda a espécie de delinquência, com pessoal oriundo ou, pelo menos, muito batido no Cais do Sodré, no Intendente e noutros “intendentes” deste país. Conhecemos o Sabú, o Orelhas, o Carinhas e mais uns quantos “filhos da escola” com “carreiras militares” pouco brilhantes. Verdade seja dita, e apesar da gravidade das situações, nunca tivemos problemas. Presumimos que há por aí gente bem mais perigosa!
Aprendemos com aquela malta a utilizar a gíria dos marginais. Ficámos a saber, por exemplo, que o “creme nívea” era o carro da polícia; que “sereno” significava guarda-nocturno; que um “saco” correspondia a uma nota de mil escudos e que uma “ventoinha” ou uma “aflita” eram os nomes dados a uma nota de vinte. Sem dúvida, um universo linguístico cheio de criatividade.
Com a nossa eterna mania das teatrices e de outras formas de animação, e coadjuvados por outros jovens oficiais igualmente inconformados, ajudámos a dar a volta ao difícil ambiente prisional. Com indisfarçável orgulho, podemos afirmar que estávamos à frente do tempo.
Os bons resultados obtidos fizeram com que o nosso mais que previsível embarque para as matas e as insalubres bolanhas da Guiné fosse sucessivamente adiado. O 25 de Abril veio definitivamente pôr um ponto final nessa possibilidade. A nossa aventura marinheira vivemo-la, maioritariamente, encafuados em gabinetes pré-fabricados e em visitas constantes à prisão, fazendo as vezes de assistentes sociais.
A madrugada de 25 e boa parte desse dia foram vividas de forma particularmente tensa. As mensagens sucediam-se em catadupa e havia um corrupio pouco habitual de viaturas à porta de armas. O pessoal fuzileiro foi informado de que, a qualquer momento, poderia ser chamado a intervir. A dada altura, constou que a artilharia de Vendas Novas se encaminhava, em peso, para o morro do Cristo-rei. Uma preocupação e, de algum modo, uma humilhação para a Armada. Ainda por cima, havia uma fragata no rio, frente ao Terreiro do Paço. Um caso sério! A Marinha tinha por obrigação controlar a entrada e saída de navios.
Foram longas e duras horas de conversações entre as chefias militares. Na tarde do dia 25, sentiu-se uma espécie de descompressão. Marinha, Exército e outras forças tinham chegado a entendimento. A Revolução parecia estar consolidada.
Entretanto, começavam a circular panfletos dos mais variados grupos políticos. A situação era bizarra. Não era hábito a política entrar nos portões daquela unidade militar. Os plenários de marinheiros fervilhavam nas cantinas, nos refeitórios, um pouco por toda a parte. Reclamava-se igualdade de tratamento para oficiais, sargentos e praças. Alguns exageravam nas reivindicações.
Consolidada a situação militar e com as ruas cheias de populares, começaram a sair da Força sucessivos pelotões de homens armados com destino a Caxias e outros estabelecimentos prisionais. Tratava-se de libertar os presos políticos. Outros grupos de fuzileiros atravessaram o rio e subiram em direcção ao Chiado para ocuparem o velho edifício da António Maria Cardoso, o quartel-general da PIDE/DGS. De volta ao Alfeite, os marinheiros traziam impressionantes relatos do sofisticado arsenal e dos imensos ficheiros encontrados. Vinham estupefactos com o que viram.
Sem ordem de saída, nós continuávamos ocupados com as tarefas do costume, e já davam água pela barba! Intramuros, os reclusos pressentiam que, do lado de fora, algo tinha mudado. Adivinhava-se, a todo o momento, uma amnistia, sobretudo para os que tinham desertado. Em Maio, tal como se esperava, chegou a ordem para a amnistia imediata dos refractários e desertores. Dos mais diversos cantos do mundo, começou a apresentar-se um exército de gente que tinha recusado integrar as fileiras militares, muito à conta da guerra colonial.
De barbas e cabelos compridos, calças à boca-de-sino, jovens e menos jovens amontoavam-se, às dezenas, na esperança de lhes ser resolvida a situação militar. Muitos tinham trabalho e família constituída no estrangeiro.
Foram dias de intenso trabalho, sobretudo para quem tinha de lidar com as montanhas de processos. Era necessário e urgente muito empenho e, ao mesmo tempo, muita flexibilidade e compreensão para os problemas.
Não pretendemos, com estas Memórias, efectuar um relato exaustivo dos acontecimentos. Se, no entanto acrescentámos alguma informação àquela de que o caro leitor já dispunha, valeu a pena este exercício de memória. Até breve!
Vitor Guita

1 comentário:

Cloreto de Sódio disse...

Os textos do meu colega Vítor Guita são dos mais coloridos, odorosos e suculentos que "O Montemorense" tem vindo a publicar desde há largos meses. Isto em termos de "embrulho". O recheio, por sua vez, é um precioso contributo para que fiquem registadas as vivências, os nomes dos protagonistas da História ou das pequenas estórias da nossa cidade. Nomes de pessoas, de objectos e de sensações. São narrativas que nos envolvem e nos espevitam. São palavras que nos ajudam a entender os caminhos que nos trouxeram até aqui. Publicar textos do Dr. Vítor Guita, aqui ou noutro suporte qualquer, é um acto de serviço público.