Transcrição da crónica diária transmitida aos microfones da :http://www.dianafm.com/
Dados de Passos e passos dados
Martim Borges de Freitas
Sexta, 30 Março 2012 10:05
Decorreu no passado fim-de-semana o Congresso do PSD. O 34º Congresso do PSD. Por razões que todos conhecemos e que têm directamente a ver com a cada vez maior personalização ou fulanização da política, cingirei a minha análise ao Congresso à performance do líder do PSD, Pedro Passos Coelho e às suas principais consequências.
O Congresso começou na sexta-feira, o que, deixem-me dizê-lo, foi bom. Perceba-se: foi bom o congresso ter três dias. Em benefício da participação dos militantes, mais do que do próprio debate, mas também em benefício deste. É bom que os Congressos prevejam tempo de intervenção para os congressistas e é bom que haja uma separação entre o prestar de contas da Direcção Nacional dos partidos (o que deverá acontecer na sexta-feira) e o debate sobre o futuro (o que deverá acontecer no decorrer de todo o dia de sábado e, eventualmente, manhã de domingo).
Vamos, então, ao Congresso do PSD e a Pedro Passos Coelho.
Começou mal o líder do PSD na sexta-feira, ao ter proferido um discurso por muitos considerado errático e muito contra o anterior governo. Se quanto ao primeiro aspecto, não percebi a falta de cuidado de Pedro Passos Coelho, interessa-me sobretudo o segundo aspecto, já que, a meu ver, as inúmeras referências ao anterior governo permitiram que os discursos subsequentes fossem de ataque cerrado e às vezes de muito mau gosto, ao PS, a Sócrates e ao governo de Sócrates, e a António José Seguro e à sua liderança. Se quisermos ser benevolentes, talvez Passos Coelho tenha feito o mau discurso inicial que fez exactamente porque teve a noção de que as pessoas que estavam a ouvir o seu discurso e que não eram congressistas naquele Congresso, não era aquele discurso que gostariam de ter ouvido. Neste sentido, Passos Coelho perdeu uma grande oportunidade para marcar pontos. Basta imaginar o tipo de comentários que se teriam feito e que ainda estariam a ser feitos ao seu discurso e, por essa via, ao Congresso do PSD, se o mote, porque foi disso que verdadeiramente se tratou, se o mote tivesse sido simplesmente Portugal!
Eu bem sei que nestas coisas dos congressos também interessa ao poder instituído que algumas verdades sejam ditas para que não fiquem esquecidas. E quem melhor do que os militantes de base, sobretudo os mais papistas, para dizerem essas verdades… convenientes! Mas, com congressos ultramediatizados, há gente que se interessa por política e que deles espera muito mais. E quando esse muito mais está ausente, não existe, a consequência para quem conduz o partido é má e os danos causados demoram tempo a reconstituir. É neste sentido que falo de oportunidade perdida. Acresce que, também no último discurso, Passos Coelho não conseguiu nem terá querido travar, antes alimentar, a tentativa de condicionar ao máximo o PS e, em particular, a liderança do PS. Já uma vez aqui o disse, volto a repetir: nestas coisas da política, há sempre um momento a partir do qual o feitiço se volta contra o feiticeiro. Ou seja, há um momento a partir do qual por muito que repitamos que a culpa é dos outros, toda a gente vê que já não é. Nem sempre, eu diria, quase nunca, esse momento é controlável. Portanto, já neste Congresso e apesar de ter sido o primeiro do ciclo pós-Sócrates, o PSD poderia ter marcado a diferença. Não o quis fazer, está no seu pleníssimo direito.
Mas o Congresso do PSD teve um lado muito positivo e que importa registar e enaltecer: foi o regresso à vida política activa de um homem que prezo bastante e cujo percurso político é, a todos os títulos, irrepreensível. Trata-se de Jorge Moreira da Silva. Foi Presidente da JSD (o que, hoje em dia vale um bocadinho mais do que já valeu, mas, verdade seja dita, vale de muito pouco – ter-se sido presidente de uma organização partidária de juventude corresponde exactamente ao contrário de um bom cartão de visita). Mas, depois, Jorge Moreira da Silva foi deputado ao Parlamento Europeu e, facto notável, abdicou de ser deputado ao Parlamento Europeu para ser Secretário de Estado de um Governo que, ainda por cima, durou muito pouco tempo e que deixou Jorge Moreira da Silva fora da vida política. Invoco este seu percurso, porque poucos, muito poucos teriam abdicado do lugar de deputado ao Parlamento Europeu para serem Secretários de Estado. Já depois de ter sido Secretário de Estado, Jorge Moreira da Silva fez o seu percurso fora da vida política activa directa. E quando se esperava, já com Passos Coelho na liderança do PSD, que fosse Ministro – cargo para o qual terá mesmo sido convidado – eis que acabou por não ser escolhido, não por razões que tenham a ver com a sua competência, perfil ou até preferência do Primeiro-ministro, mas por questões de equilíbrio político que, quando há coligações, existem. Saúdo, pois, o regresso de Jorge Moreira da Silva à vida política activa, certo de que quem mais ganhou com este regresso foi Passos Coelho e o PSD. Por esta via, também o país.
Não fora o passo em falso dado no início do Congresso e que, a meu ver, condicionou negativamente todo o conclave, e o sentimento de incómodo que me parece estar a sentir-se, hoje, no PSD, não teria razão de ser.
Lisboa, 30 de Março de 2012.
Martim Borges de Freitas
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