Permito-me chamar a atenção para todos os verdadeiros desportistas para a crónica que se segue.
Chico Manuel
Vagueando pelo universo do Desporto
«Homem do futebol, foi Cândido. Militante voluntário do jogo inglês e jamais funcionário do futebol mais ou menos dependente dos plutocratas que acabaram por perverter a distracção preferida dos portugueses, dando-lhe perfis pessoais ou políticos».
Homero Serpa
(in “Cândido de Oliveira - Uma Biografia”)
Constatemos que teremos de fazer uma distinção entre o denominado desporto popular (o futebol, o atletismo, o voleibol, o basquetebol, por exemplo) e o desporto elitizado (a esgrima, a vela, o hipismo, o hóquei patinado) - pois teremos de admitir que o suporte económico exigido na prática do futebol ou do atletismo (onde o essencial está na posse de uma simples “bola trapeira” ou de umas sapatilhas e da vontade e gosto pelo desporto) não é idêntico ao investimento financeiro necessário nos desportos como a vela, o hóquei em patins, a equitação ou o automobilismo (com equipamentos desportivos bastante onerosos). Mas, o curioso é que os desportos populares proporcionaram aos atletas, face ao seu mérito, uma mobilidade social e uma visibilidade pública (não olhando a etnias ou origens sociais), que permitiriam às “estrelas” do firmamento do futebol ou do atletismo (por exemplo) serem consideradas modelos de vontade, de talento, de autodomínio - sendo, muitas vezes, condecorados mesmo como “varões assinalados” das suas pátrias.
Ora, entre nós (Portugueses), encontramos a prática do Desporto, a par do início da nossa Nacionalidade: é que Portugal foi construído, em grande parte, assentando na guerra (contra a vertente árabe-mourisca e contra os castelhanos), e - necessitando a nossa aristocracia (os cavaleiros, porque criadores dos cavalos de guerra e senhores das propriedades rurais) de manter o treino necessário à guerra, o estofo técnico no domínio do cavalo e no manejo da espada e da besta (arma de guerra medieval) - constantemente a ser exigidos no “terçar de armas” no avanço para sul, e para leste (até D. Afonso III) - então vemos a classe da Nobreza, em tempos de paz, a cultivar a caça ao veado ou à raposa, a praticar em torneios, ou a montar os seus ginetes - assim, os primitivos desportos da caça, da esgrima ou do hipismo; desportos reservados aos grupos aristocráticos, pois a plebe (entregue aos trabalhos nas suas “glebas”, de sol-a-sol) só poderiam dispor de algum tempo para uma safra de peixe (no rio ou na praia) - porém, uma pesca (não de desporto) mas de subsistência.
Mas, o Hipismo aristocrático e a “caça grossa”, teriam tido tal importância em finais da Idade Média, que D. João I escreveria um livro de ensinamentos cinegéticos (“O Livro da Montaria”) e D. Duarte seria autor de um livro de conselhos sobre Equitação (“A Arte de Bem Cavalgar Durante Toda a Sela”): porém, livros - não maiormente destinados a preparar guerreiros - mas desportistas na caça e no hipismo: enquanto livros formadores de cidadãos perfeitos (a sua finalidade).
Mas, por ironia do destino e da História do Desporto, vamos constatar que o denominado “desporto de massas”, o mais popular, com imensos praticantes oriundos de camadas proletárias - o futebol - teve em Portugal uma origem elitista, sendo praticado pela alta burguesia e pela aristocracia mais refinada. Henrique Parreirão diz-nos (no seu artigo in “Portugal Contemporâneo” - volume II) que o Futebol deu entrada em Portugal, por intermédio dos irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto (regressados de Inglaterra onde terminariam os seus cursos num dos Colégios britânicos) que haviam trazido consigo uma bola de futebol e o desejo de o fomentar no seu País: isto, em 1886. Em 1889, promoveram o primeiro encontro de futebol em Portugal (nas proximidades dos terrenos do Campo Pequeno). Os adversários, seriam os engenheiros ingleses que trabalhavam em Carcavelos, na montagem dos cabos submarinos. Ao espectáculo desportivo, segundo o “Jornal do Comércio” da época, assistiria a melhor sociedade (incluindo “elegantes senhoras”, transportadas em grande número de carruagens, puxadas por soberbas parelhas de cavalos pretos). O resultado do jogo: vitória dos portugueses por 2-1.
E os encontros de futebol foram-se multiplicando - ainda que elitizados nesses tempos: conta-nos a imprensa da época que o próprio Rei D. Carlos, fazia transportar cómodas poltronas para as imediações dos improvisados estádios, para assistir aos espectáculos de futebol.
Mas, o Futebol acabaria por se inserir no gosto e nos hábitos do povo: tocara-lhe o espírito - e assim invadiria as cidades portuguesas (Porto, Aveiro, Coimbra, Viana do Castelo, Setúbal - ou por influência de outros regressados de Inglaterra, ou pelo entusiasmo de desportistas portugueses). Surge o primeiro Clube de futebol português: o Clube Lisbonense.
Os clubes formam-se sucessivamente, em grande número (tal a popularidade do Futebol): e, a título de exemplo, surgem-nos o Futebol Clube do Porto (1º versão) em 1893, o Boavista (1903), o Sport Lisboa e Benfica (1908), o Sporting Clube de Portugal (1906).
Entretanto, o jogo de Futebol é regulamentado, surgindo as leis do jogo; bem como surgem as primeiras Associações de Futebol (que organizariam torneios).
Porém, falando de outras modalidades, o País foi recebendo influências e interagindo com o mundo do Desporto: há conhecimento do Tiro (de competição) desde 1780; da Natação (desportiva) desde 1381; da Vela (desde 1851); do Hóquei em Campo (desde 1860); da Ginástica (desde 1860); do Ténis e do Ciclismo (surgidos por volta de 1880).
Não queria, porém, terminar esta despretensiosa divagação pelo Mundo do Desporto, sem fazer alusão ao jornalismo desportivo. E tomo a liberdade para referir - em especial - a Figura incontornável do Homem do Desporto, fundador de “A Bola”, da Revista Ilustrada “Foot-Ball”, da “Gazeta Desportiva”, colaborador da Revista “Stadium”, autor do livro “Evolução Técnica do Futebol” e de “Tarrafal-Pântano da Morte” (obra clandestina, só publicada após a Revolução de Abril 1974); Homem generoso, inteligente, autêntico humanista, de espírito democrata. Alentejano de nascimento, casapiano de formação; de espírito aberto, seria o grande mentor da criação da Secção de Futebol da Associação Académica de Coimbra. Como jornalista, deu ao jornalismo desportivo um alcance intelectual e de intervenção cultural ao ponto de, aquando da cobertura jornalística de encontros de equipas portugueses no mundo ocidental livre, aproveitar as reportagens para informar e falar das realidades políticas, culturais, sociais e económicas dos países livres e desenvolvidos aonde ia.
Cândido de Oliveira - a quem nos referimos - foi, durante o regime do Estado Novo, ofuscado da memória dos Desportistas nacionais; porém, outro Homem grande do Jornalismo Desportivo, resgatou-o: Homero Serpa homenageou-o em “Biografia de Cândido de Oliveira” – atitude de Justiça e Solidariedade Intelectual e Desportiva.
José Alexandre Laboreiro
Nota do Administrador do Blogue: Após a leitura deste excente texto do Dr. Laboreiro ocorreu-me: E se os "borra-botas" que se dizem cronistas e que proliferam na nossa TV ( Dias seguintes - Trio de Ataque e outros que tais, que apenas fomentam o ódio e desprestigiam o futebol, tivessem pelo menos a coragem de divulgar no tempo de antena que lhes é concedido e bem pago textos como este?
Mas isso não cria audiências.....
Chico Manuel
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