sexta-feira, 30 de março de 2012

A CIDADE DO ENDOVÉLICO - (João Cardoso Justa)

Esta publicação, breve síntese de outra, mais abrangente e detalhada que penso editar oportunamente, não tem a pretensão de ser considerada um documento histórico apesar do extremo rigor (documentado) de tudo o nela é referido. Não segue essa metodologia, não é escrita por alguém com formação em História, nem é preferencialmente dirigida ao “mundo académico"
J.C..

( Continuação dos dias anteriores)

O CERCO DE LACÓBRIGA

Para a compreensão definitiva deste acontecimento ocorrido há mais de 2000 anos, é fundamental determinar a localização dos aquartelamentos das legiões de Cecílio Metelo e do acampamento dos guerrilheiros de Sertório. Quanto ao quartel-general do procônsul romano, Manuel Andrade Maia dá-nos uma ajuda preciosa (Romanização do território português ao Sul do Tejo / Faculdade de Letras de Lisboa / 1987) (pág. 165): «Domergue (Claude Domergue) contribuiu, de forma notável, para confirmar o apoio das populações da futura Bética à causa de Metelo, ao dar a conhecer glandes de chumbo, por utilizar, em Azuaga (província de Badajoz). Estas balas, apresentam a marca “Q. ME” ou “Q. MET” que o autor identifica, logicamente, com o procônsul da Ulterior, Q. Cecilius Metellus Pius. A inscrição demonstra que as glandes foram manufacturadas naquela localidade da Sierra Morena, quando o procônsul tinha estabelecido, na região, o seu quartel-general e base, contra Sertório.» Quanto ao acampamento dos guerreiros do sublevado Sertório, parece-me indesmentível, depois de lermos Plutarco e tantos outros autores (André de Resende tudo fez para o ligar a Évora, até lhe “deu” casa, mulher, e serva), seria nas franjas da Serra D´Ossa viradas para a cidade eborense, há quem refira Vale de Infantes, outros a povoação de Pomares, até mesmo Evoramonte, S. Gens, etc. Não me querendo intrometer sobre a discussão subjacente, a localização do mítico Monte Vénus corresponder a um destes locais, deixo aqui apenas estas palavras de Tito Lívio quando trata da acomodação das tropas sertorianas entre as populações locais: «… os venusianos (naturalmente os habitantes do monte Vénus!) depois de repartir estes homens entre as famílias, para que aí fossem recebidos e bem tratados…»

Assim, sem obrigar os homens de Sertório a correr mais que cavalos, de odres às costas, desenfreados para o Algarve, ou para a Serra da Arrábida, nem as legiões de Cecílio Metelo a deslocarem-se, quais fantasmas invisíveis, para cercarem essas zonas, tudo se passou, afinal, numa área de aproximadamente 50 km o que, justifica desde logo, o pouco aprovisionamento das tropas romanas. O procônsul atravessou o Anas (Guadiana) vindo das cercanias de Badajoz, por Juromenha (que nesta época se chamaria Dippo, ou Dipone,) e montou o cerco a Lacóbriga remetendo os habitantes para o interior das muralhas onde ficaram dependentes da água existente na única cisterna. Os guerrilheiros de Sertório, acampados na Serra D’Ossa, tiveram de imediato conhecimento do cerco (ainda hoje há atalaias por toda aquela zona), e, sem marchas forçadas, profundos conhecedores do terreno, durante a noite desceram pelos trilhos da serra e introduziram os afamados odres dentro da cidade sitiada. Os restantes guerreiros, com Sertório á cabeça, rodearam a zona invadida e armaram a cilada onde chacinaram todos os soldados que acompanhavam Aquílio quando se ia reabastecer. Avisado do desaire e da aproximação de Sertório, Cecílio Metelo levantou o cerco, atravessou o Guadiana e refugiou-se nas cidades que dominava para lá deste rio. Como sempre, afinal, quando a verdade impera, a explicação é simples.
Os pressupostos anteriores, na localização dos respectivos quartéis-generais, de Sertório e do procônsul Metelo, são afinal, os mesmos que serviram para entender o chamado “problema da batalha de Segóvia”, cuja localização “saltou” centenas e centenas de quilómetros por toda a Península Ibérica e pelo imaginário dos historiadores, até que em 1981, Teresa Gamito, apontou o dedo para Segóvia, no concelho de Elvas (!).

A CONSTRUÇÃO (ou reconstrução) DE LACÓBRIGA

Depois de localizada Lacóbriga, recuemos quatrocentos anos desde este episódio com Sertório, e vejamos também, sem cidades celtas no Algarve, sem barcos gregos carregados de Ídolos e sacerdotisas, e sem arrufos do deus Cupido, o que resulta da versão do “criativo” Frei Bernardo de Brito quando descreve, no mesmo texto, a construção da cidade Lacobricense e do Templo a Endovélico.
O governador Bahodes, era responsável pelas feitorias cartaginesas que ao longo do Guadiana (lembremo-nos que nessa época as “estradas”, as vias de transporte, eram os rios e os seus afluentes, muito mais caudalosos que no presente) recolhiam os bens produzidos em abundância no interior da Península (ouro, prata, estanho, cereais, carne, lã, entre outros), trocando-os por armas, tecidos, estatuetas, peças de vidro, cerâmica, e demais produtos produzidos em zonas mediterrânicas. Assim, Bahodes, inteligentemente, percebeu o valor estratégico de possuir um entreposto no local onde afluíam tantos peregrinos (razão pela qual muitos historiadores afirmam que instituiu uma grande feira anual em Lacóbriga) e propôs aos nativos a construção de uma nova cidade (ou reconstrução da antiga, alegadamente destruída por um terramoto), apoderando-se assim de todo o comércio na zona que albergava os devotos. Por esta razão, Frei Brito escreve - «Os nossos, a quem não eram suspeitos estes negócios, pelas frescas pazes, lhe concederam logo a sua petição…». Erguida (ou reerguida) a cidade, Bahodes é rendido pelo governador Maharbal que, ao visitar a recente construção e prestar homenagem ao Deus Endovélico (assim homenageando a cultura nativa), achou por bom investimento a construção de um Templo, certamente com a grandiosidade da, depois designada, por cultura greco-romana, junto ao tempo primordial celta (que seria uma grande formação natural junto à água, característica comum aos templos célticos). Portanto, Bahodes edificou uma nova Lacóbriga, e Maharbal edificou-lhe um novo Templo. Simples.
J.C.J

(Continua)
(Na próxima semana serão publicadas as conclusões finais)

1 comentário:

francisco tátá disse...

Sr comentador das 17,35 do dia 30/03 só o seu "especialisados" diz tudo.
Não meta o "bedelho" onde não é chamado.
XOU ...XOU
O Chico