segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

MEMÓRIAS DO PASSADO – HOJE A “MEMÓRIA” É DO HELDER SALGADO

(Continuação)

Voltamos novamente a esta magnifica história contada pelo Helder, colocando mais dois capítulos. Relembramos que pode lêr a história completa em : http://alsul.blogspot.com/

O VELHO APERTA -  A HISTÓRIA DE UM TOCADOR

O Carnaval
Duas pretensões começaram a ocupar o cérebro, do Tonho Aperta.
Uma, a de puxar namoro à Bia Figueiras, outra, a de comprar o harmónio. Um dilema começa, também a afligi-lo, se comprasse o instrumento teria que tocar em qualquer lado e assim não tinha tempo para a rapariga, pois apenas tinha o tempo da “gavela”, a manhã de domingo disponível.
O entusiasmo de ter o harmónio foi mais forte e ei-lo em Évora, na casa da Musica, a comprar o seu, hà muito desejado, instrumento.
- Sabe tocar - pergunta-lhe o vendedor.
O Tonho tentou não responder, mas não foi capaz e gaguejando disse - Não sei, mas compro-o na mesma.
Julgava ele que para tocar algo de jeito bastaria premir os botões e, por encanto, as músicas apareciam, Tinha até pensado que a primeira música que tocasse, seria um tango “Um tango à média luz”, que dedicaria à sua já considerada namorada, a Bia Figueiras.
Ao tentar tocar, já na aldeia, o som que obtinha não se assemelhava a nenhuma música.
Tenta uma, duas, três vezes e o resultado era sempre o mesmo, soava-lhe sempre mal.
- Que raio de instrumento é este? e já estava a pensar que fora enganado
O nosso homem recupera o discernimento e serenando pensou melhor.
- Hei-de aprender, ao menos assim já tempo para puxar namoro à Bia, - conformou-se e pareceu-lhe que o acto de puxar namoro à Bia, era tarefa fácil e já ganha.
Decidiu ser Domingo de Carnaval o desfecho do projectado e esperado acontecimento.
Durante o dia, depois de muito bem aperaltado, para espanto da mãe e a tolerância alegre do pai, segui para a festa.
Procurou apanhar a rapariga sozinha e não consegui. - Depois de almoço talvez consiga chegar perto dela - e começou a admitir falar-lhe mesmo na frente de outras pessoas, fossem rapazes, raparigas, homens ou mulheres.
Já estava por tudo.
Em frente à taberna do tio Sabino e no meio dos festejos, surgiu a oportunidade.
Respirou fundo, deu um jeito na gravata e em passada firme, vai acerca-se da jovem.
Ia começar a dirigir-lhe a palavra quando ouve um chamamento, - Bia anda cá - era a mãe Figueiras que notando o vestido da filha desabotoado a chamava.
Com a mãe da rapariga por perto, o Tonho não se atreveu, novamente, a abeirar-se da Bia e logo, outro pensamento de conformidade dele se apodera - Ficará para o baile.
Este pensamento, talvez por ser a última oportunidade do dia de Carnaval, começou a deixá-lo um pouco inquieto. Deu voltas e voltas ao cérebro, na tentativa de descobrir a causa daquela, embora pequena, mas preocupante inquietação.
Não lhe parecia ser da rapariga, pois na troca de olhares via nela uma desejada aceitação, que os sorrisos e a despedida no moinho da Cinza avalizaram.
- Que será? - interrogava-se constantemente.
Mal comeu a refeição do jantar, o que foi admoestado pela mãe, e mais uma vez tolerado pelo pai.

O baile
O ímpeto e a determinação que até então tinha tido começaram a refrear e, o nosso homem, já no baile, esperou duas séries de três músicas, com o observador.
À terceira decidiu ir buscar a rapariga, que dava “cabaços” a todos os rapazes, sintoma que ela estaria à espera que ele a fosse buscar.
Um estranho pensamento afluiu-lhe no cérebro.
- Não há duas sem três - não fez caso desse presságio e caminhou em direcção da rapariga.
O pedido para dançar foi uma delicada vénia de dobragem de corpo, que pela perfeição e estilo provocou a admiração da rapariga.
Ergueu-se e sorriu.
Ela levantando-se da cadeira vem ao seu encontro, com um largo sorriso e braços meio abertos parecendo dizer, estou aqui, estou à tua disposição.
De mãos dadas procuram o meio do baile para começar a dança.
Começam a dançar ou melhor tentam começar porque o Tonho, apesar do esforço da rapariga não acerta.
Tentam por algum tempo e as melhoras não apareciam, não conseguiam acertar nenhuma música.
Os outros pares começam a jogar-lhe piadas e a mãe Figueiras, irritada com aquele ambiente, grita para dentro do recinto do baile, - Deixa esse paspalhão, não vês que não sabe dançar - ainda não se tinha apercebido que a filha gostava do Tonho Aperta.
Este ruborizou, sentindo dentro de si a fúria de um animal ferido, por um chumbo de zagalote que nunca merecera.
Ah se aquela frase fosse a sós .....
Recuperando a calma e diz para a rapariga - Vamo-nos embora, um dia todos os que de nós, de nós não, de mim se riram hão-de admirar-me.
Aquelas palavras surgiram aos ouvidos da rapariga como uma ordem, à qual obedeceu. Também ela se sentia vexada com as galhofas dos rapazes e raparigas, algumas delas suas amigas.
Ao sair do recinto, o nosso Tonho encontra o seu moral de parelhas o tio Zé Mocho, que o acalma e o tranquiliza.
O Tonho ignorou o conselho do seu moral para aprender a dançar, ainda que fosse com um pau.
O rapaz chorou de raiva e a rapariga de desgosto.

(Continua)

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