sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

CRÓNICA DE OPINIÃO DA RÁDIO DIANA FM

Transcrição da crónica diária transmitida aos microfones da :http://www.dianafm.com/

E se a troika estiver errada?
Martim Borges de Freitas

Sexta, 24 Fevereiro 2012 09:49
Pergunto-me, não raras vezes, se o caminho escolhido pelo PSD e pelo CDS para governarem o país era o único. Pergunto-me também se o Governo português previu, por um momento, o caso de o caminho escolhido poder desembocar num beco sem saída. Pergunto-me ainda, admitindo que o caminho escolhido possa não ter saída, se o Governo terá cenarizado alguma escapatória que permita a Portugal evitar o pior.
Vêm estas dúvidas à baila, porque, nesta corrida contra as várias crises, crises há que se vê nitidamente estarem a perder terreno, enquanto outras, pelo contrário, se agudizam. Não vou maçar os ouvintes a descrevê-las, até porque certamente cada um terá sobre cada uma a sua opinião, diferente, evidentemente. Contudo, quase todos retirarão a mesma conclusão. Ou seja, quase todos concluirão que, pelos indicadores disponíveis, há objectivos que parecem estar a ser alcançados e há outros que parecem estar cada vez mais distantes.
Esta semana, a nossa já muito conhecida Troika cá voltou a terras lusas para fazer nova avaliação sobre a execução do Memorando de Entendimento, por si elaborado. Enquanto em Novembro, quando cá esteve pela última vez, a Troika – e não só – me pareceu bastante mais animada, desta vez, pareceu-me menos efusiva. Aliás, o ambiente, todo ele me pareceu mais frio. Pode ser que esteja enganado, mas a verdade é que, pelo menos aparentemente, todos os intervenientes me pareceram menos crentes. Sinal também disso foi o facto de a esquerda mais radical ter sido mais radical no seu comentário e também o facto de o PS, mais comprometido e, portanto, menos livre, ter pela primeira vez arriscado ousar e propor alterações ao próprio Memorando de Entendimento, que negociou, assinou e com o qual se comprometeu. Alterações só nos prazos, é certo, mas alterações!
Portugal tem vindo a fazer tudo para cumprir o Memorando de Entendimento. Ora, apesar do traçado desta prova ter sido desenhado pela Troika e de o Governo português ter escolhido correr nele, o que me parece que deveria estar agora a acontecer era a haver pressão sobre a Troika. É que a circunstância de ter sido a Troika a desenhar os trajectos (não apenas o de Portugal como o da Grécia) e o facto de, na Grécia, as coisas estarem a correr mal, o que me pareceria adequado, dizia, é que, por essa razão, a Troika, também ela, estivesse sob rigoroso escrutínio. Não apenas nacional como internacional. E se calhar está. E talvez seja esta pressão sobre a Troika o que explica o tal ambiente menos alegre que rodeou esta visita.
Já o disse várias vezes: nós, portugueses, temos o direito e também o dever de, pela nossa parte, avaliar o comportamento do Governo, inclusive, o direito - e o dever - de avaliar a opção pelo caminho escolhido. No entanto, face à escolha do Governo, e desconhecendo se a pista tem escapatória e se o Governo tem forma de corrigir a trajectória se for necessário, é justo reconhecer que, pela sua parte, o Governo tem andado bem no cumprimento do Memorando de Entendimento. Por isso, a pergunta que cada vez mais deveremos colocar, nós, aqueles que pertencemos à base social de apoio do Governo ou ao conjunto dos seus eleitores, é esta: terá a Troika razão?
Ao dizer o que acabo de dizer, pode parecer que me estou a colocar no discurso mais radical da esquerda portuguesa. Há, todavia, uma diferença, aliás, fundamental: é que se Portugal tivesse seguido o caminho preconizado pela esquerda radical não teria havido Memorando de Entendimento, pois não, mas também não teria havido solvência. Com o Memorando de Entendimento e cumprido o Memorando de Entendimento, há autoridade para pôr a Troika sob pressão. Pode parecer modesta, muito modesta a nossa pressão. Mas há muita gente a olhar para nós. E, na União Europeia, não há lugar para duas Grécias. O que, objectivamente, beneficiará Portugal.
Lisboa, 23 de Fevereiro de 2012
Martim Borges de Freitas

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