Os desempregados, esses culpados e uma pequena nota de humor
Eduardo Luciano
Quinta, 23 Fevereiro 2012 11:42
Os desempregados mais jovens têm sido alvo nos últimos tempos de uma espécie de campanha que até parece imbuída de boas intenções.
Não há dia em que não sejamos bafejados por reportagens e entrevistas que nos mostram jovens que venceram na vida porque criaram o seu próprio negócio ou que emigraram e agora têm um emprego fantástico, bem pago e socialmente reconhecido.
Tal insistência nestas excepções, normalmente sem contar a parte da história que promove a oportunidade aproveitada, parece ter um objectivo bem claro: pretende fazer acreditar à imensa massa de desempregados que basta um olhar vivo e vontade para que a sua situação se resolva, deixando no ar a ideia que a culpa por estar no desemprego é da sua falta de iniciativa e da incapacidade de sair daquele sítio que os especialistas em aconselhamento de “empreendedorismo” se habituaram a designar por “zona de conforto”.
A partir daí constrói-se um imaginário que passa por identificar erros que o desempregado terá cometido, desde que nasceu até aos dias de hoje.
Errou na escolha do “projecto de vida”, que como se sabe é algo que decidimos sentados à mesa, registando depois numa espécie de diário do futuro e que vamos conferindo à medida que o tempo passa.
Errou quando escolheu a área de estudos no secundário, errou quando decidiu estudar uma área do conhecimento que lhe parecia interessante em vez de escolher outra que, apesar de não corresponder aos seus interesses, teria supostamente mais saídas profissionais.
Estes especialistas, sentados na sua “zona de conforto”, reduzem os jovens em busca de emprego a um somatório de erros próprios e de falta de iniciativa.
A culpabilização individual pelo desemprego parece ser a estratégia de comunicação utilizada, como forma de distender a tensão social que resulta do facto de existir uma massa imensa de jovens que não se consegue autonomizar financeiramente das suas famílias de origem.
A outra face da manipulação consiste em convencer os mais novos que não têm emprego porque os mais velhos não podem ser despedidos.
Estes especialistas da coisa são de outro calibre e avançam com a solução final, que para eles só pode ser a flexibilização da legislação laboral, o facilitar e tornar mais baratos os despedimentos.
Como afirmou uma manifestante espanhola, entrevistada durante a manifestação em Madrid contra as alterações das leis laborais, “querem despedir os pais para contratar os filhos por metade do preço”.
Esta intoxicação ideológica será tanto mais agressiva quanto maior for a disposição dos jovens em lutar por um outro futuro. Resultará? Espero que não, porque seria passar um atestado de menoridade a várias gerações de portugueses.
Esta crónica só poderia terminar com um momento de bom humor.
A Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu à Câmara Municipal de Évora o prémio da melhor programação cultural autárquica, 2011. Ouviu bem. Uma de duas, ou é um claro erro de destinatário e o prémio deveria ser atribuído a cada um dos agentes culturais que, apesar da irrelevância da política cultural da câmara, consegue realizar uma programação de qualidade ou estamos perante a anedota do ano.
Até para a semana.
Eduardo Luciano

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