terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

COLABORAÇÃO DR. JOSÉ ALEXANDRE LABOREIRO

O Jornalismo e a Liberdade

«Essa imensa tutela de milhares de homens, por seis ou sete homens é forçosamente absurda».
Alexandre Herculano

Atingiu foros de escândalo a notícia no “Expresso”, de que o ex-director dos Serviços de Informações Estratégicas de Defesa obteve uma listagem de chamadas e de “sms” do jornalista do “Público” Nuno Simas, em seguimento da desaparição misteriosa de um seu telemóvel. A propósito deste facto, a jornalista São José Almeida refere a opinião de que o que se vive em Portugal é o reino da total arbitrariedade e do descontrolo neste domínio, tanto mais que quando a liberdade de imprensa é posta em causa desta maneira, então é a Democracia que está ferida - tanto mais que a lista de números de telefone de um jornalista inclui algo do que é mais sagrado e central no jornalismo, e o vínculo que se estabelece na relação de confiança entre o jornalista e a fonte é a essência do processo informativo. Diz-nos, ainda São José Almeida: “Há anos que se ouvem e lêem histórias sobre uso de meios de vigilância para servir interesses privados. Desde utilização de dados em segredo de Estado ou de meios de vigilância dos serviços de informação estatais, até à existência de centrais de escutas privadas, de vigilância pessoal e de recolha de dados, instrumentos estes que são postos em acção ao serviço de interesses particulares, empresariais, partidários ou clubísticos.”
Este fenómeno de obstrução à Liberdade, conduziu-nos às palavras de Raúl Rego, então director do jornal “República”, sobre a relação entre o Jornal e a Censura do Estado Novo; diz-nos Raúl Rego: “No final, a Censura funcionava mesmo em frente do “República”, do outro lado da rua ... Eles atrasavam a entrega das provas todos os dias, mas mesmo assim eu fazia sair o jornal. Eram capitães - mandados, sem nenhuma, sem nenhuma qualificação. Nenhuma! A maior parte nem cultos eram. Quando não percebiam o que estava escrito suspendiam, pura e simplesmente”.
E, como afirma John Keane (in “A Democracia e os Média”), a verdade precisa da liberdade de imprensa como sua aliada. Não deviam existir leis especiais para restringir a liberdade de os jornais; os diários, os livros e os panfletos publicarem factos e avançarem opiniões - pois só uma imprensa livre pode garantir que exista uma profusão de factos e de debates acerca destes, cultivando assim o hábito de questionar e corrigir opiniões e garantindo a vitória da verdade sobre a falsidade. E é assim, neste mesmo sentido, que Frei Bento Domingues O. P. afirma (in “Público”) que “A maior inimiga da cidadania é a manipulação dos meios de comunicação, dependentes dos poderes económicos e políticos; revelam ou ocultam, conforme os seus interesses, embora as novas tecnologias possam ajudar a romper o cerco” - constatação tão pertinente, se atendermos às recentes filosofias que presidem à produção dos jornais (“prendendo” os jornalistas aos comunicados das agências noticiosas, não libertando os jornalistas para um jornalismo de proximidade, para um jornalismo de pesquisa e coarctando um jornalismo de opinião).
Todos conhecemos o receio dos políticos, face a um jornalismo sério e descomprometido. Tal constatação é reforçada pelas palavras da jornalista Graça Franco (in “Ser Jornalista em Portugal”): “Mais frequentemente, acontece que os políticos preferem falar com os jornalistas que, ou desconhecem o tema completamente - e portanto não poderão colocar nunca as questões mais difíceis - ou dão provas de grande simpatia e empatia com as respectivas teses; ou, pura e simplesmente, não são incómodos”.
Condicionado por uma economia ferozmente neo-liberal (em certa medida, revestindo um interesse economicista selvagem), o mundo dos “media”, nunca como actualmente, transformaram a notícia em mercadoria, e sujeitaram as estratégias informativas às estratégias comerciais de que a valorização do secundário e a subvalorização do importante, o sensacionalismo e a superficialidade, a informação/espectáculo e a explosão e os excessos da imprensa cor de rosa constituem, em planos diversos, expressões concretas - como assinala Fernando Correia (no livro “Jornalismo e Sociedade”). Aqui, não existe a missão nobre do Jornalismo: informar e formar opiniões, construir cidadanias, edificar consciências democráticas.
Gérard Leclerc (in “A Sociedade da Comunicação”) lembra-nos: “A Modernidade encontra a sua realização política na democracia. Esta última implica a ausência de monopólio do Estado ou da Igreja sobre a educação e sobre os media. Supõe a alfabetização generalizada e a existência de um mercado livre da informação impressa e audiovisual. Durante a maior parte da história humana, o povo não sabia ler e era por conseguinte dependente do monopólio da leitura exercida por uma minoria letrada. É com Gutemberg que a situação começa a mudar, mas é apenas no séc. XVIII que a imprensa quotidiana permite uma maior participação do povo na vida colectiva, com a “penny press” inglesa e com os jornais revolucionários franceses”. Efectivamente, a noção de opinião pública pressupõe a liberdade de expressão, a possibilidade para o indivíduo de expressar publicamente as suas opiniões relativamente aos assuntos públicos (numa comunicação que vai dos cidadãos para o governo, em direcção aos seus representantes, e de seguida uma comunicação entre os próprios cidadãos). Afinal, como diria António Sérgio, “Ensine-se a ler, claríssimo está: mas façamo-lo tão-só como mero instrumento da cultura crítica, da disciplina do homem pelo seu próprio intelecto, da concentração do espírito e da mesura ética, da lucidez, da objectividade do movimento centrípeto - em suma, da vontade geral - no ânimo de cada um de nós”. E o jornalismo livre é fundamental nesta missão pedagógica, e cívica, da formação inspiradora do “aprender a ser”.
Para que não deixemos que o ruído da opinião dos outros abale a nossa voz interior - como alertou Steve Jobs (o fundador da Apple).
José Alexandre Laboreiro

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