terça-feira, 26 de julho de 2011

MEMÓRIAS DO PASSADO – HOJE A “MEMÓRIA” É DO HELDER SALGADO

(Continuação do dia anterior)

EM MEMÓRIA DO ZÉ BORRÃO

UM DIA COM

As partidas do pescador
Nem só da pesca vivia o nosso protagonista.
A caça era um complemento de sobrevivência da família.
Também aqui nos legou uma peripécia.
Naquele dia o almoço fora marcado para a fonte das Galegas, Boa água e muita sombra. Aquela altura Terena era famosa em caça. As mesas do Pegolongo e da Barranca eram férteis em perdizes, em lebres a Coitada e a Vila Velha. Caçadores de outras regiões para lá se deslocavam. O Raminhos, cidadão de Lisboa para lá foi caçar. Homem simpático mas ingénuo, fisicamente parecido com o antigo actor de teatro e cinema, Costinha, que contracenou com a fadista Hermínia Silva no filme “Um homem do Ribatejo”. Naquele almoço falou-se na feira de Janeiro, em Vila Viçosa e na leitura das sinas pelas ciganas. O Raminhos, curioso, quis saber como é que se processava essa leitura.
O Borrão, dando de olho ao Mestre Manuel, diz que lê a sina ao Raminhos. Improvisam uma cama com as sacas já vazias de palha, que a burra tinha comido.
Mandam deitar o Raminhos de barriga para cima, depois para baixo, para o lado, várias vezes, até que o Raminhos já cansado de tanta volta dar, pergunta pela sina.
Resposta do Borrão - Você tem sina de burro, não vê que se está a espojar.
Como já se disse o Eduardo era o seu maior comprador e entre eles gerou-se uma confiança mútua.
O Borrão tinha um perdigueiro de nome poeta, bom caçador e mau guarda. Havia alguém que suspeitava do Borrão, que para depreciar um ervanário/curandeiro, que exercia a profissão no Rosário, natural de Terena e de alcunha “o poeta”, tinha posto este nome ao cão. Se o pescador elogiava o cão como caçador, já não o fazia como guarda e orgulhava-se de ter um casal de patos gansos mais sentidos do que ele. A esposa do senhor Eduardo, tendo uma galinha choca, pede ao pescador dois ovos de pata gansa.
O Borrão, na volta, satisfazendo o desejo da mulher, trás dois ovos.
Quando ovos foram tirados, saíram de lá dois cegonhos.

Partida do Peças ao Borrão.
Estamos a falar em ovos e vamos falar em galinhas.
A família vinha passar os Invernos a Terena e, por causa desta estadia muitos “bicos” eram sacrificados, outros eram trazidos pelos donos.
A pilona, era uma galinha de raça portuguesa de cor preta com o pescoço dourado. Toda a família gostava dela e teve a sorte de vir para Terena.
Ou por gostar de tratar da vida ou porque a comida não abundava no galinheiro, a pilona começou a visitar a tapada da Vinha, primeira sozinha depois com a ninhada.
A tapada estava semeada de trigo roma e nela se situava a oficina de ferrador do mestre Salgado, que trabalhava com o Peças, este logo pensou em pregar uma partida ao Borrão.
- O meu mestre diz, - e fazendo o gesto de torcer com ambas as mãos, - que lhe aperta o pescoço. O Borrão não perde tempo e vem falar com o mestre que, de surpreso, olha para o Peças e ambos começam a rir.
O Borrão volta-se para o Peças e diz - bem me parecia que me estavas a ......lixar.
Mas a história dos galináceos não acaba com o pilona. Da ninhada ficou um bonito frango, que tornando-se galo era o orgulho do Zé Borrão. Cantador/madrugador era o despertador de toda a vizinhança. O galo empoleirava-se cedo e no mais alto degrau do poleiro. Julgava-se em segurança, longe da ameaça dos predadores.
Uma noite sem que ele galo, sem que ele dono o adivinhassem, o cantador muda de sítio. O pilha/galo cometeu a infracção de não o abater, e o galo conhecedor do perigo que corria canta duas vezes seguidas. O dono, o Borrão ouve-o, levanta-se e bate á porta do futuro carrasco do galo e diz - dá-me o meu pintalúcio.
O galo nessa madrugada, já no seu poleiro, cantou muito e num cante provocador.
O Zé Rosado, naquela noite fora atacado pela espertina, estranhou o cedo cantar do galo e perguntou ao vizinho o que se tinha passado.
- Mudaram de sitio o meu pintalúcio, mas ele foi mais esperto que o ladrão.

A última historieta
Muitos episódios da vida deste homem poderiam ser passados para o papel, mas vamos á última historieta, vamos com ele pescar no Lucefécit.
Um ano, no recovado, pescou duas eirós, que mais pareciam duas jibóias.
Lembro-me, perfeitamente, de as ver junto ao café do senhor Torcato.
Constatava-se que o Caturra, pescador das Hortinhas, gostava nem que fosse um só dia  de pescar com o Borrão.
O Manuel sapateiro entendeu aquela vontade como um desafio e arranjou uma pescaria para o pego de entrada. Este, era o primeiro pego digno do nome e situava-se após o moinho do Setil, no sopé da serra de são Miguel.
Era um pego arborizado e do lado da margem das Hortinhas tinha dois freixos cujas raízes ficavam na água.
Para lá foi o grupo de amigos incluídos os mestre Salgado e o cunhado Peças.
O meu primo Bráulio, logo de manhã começa a pressionar-me para pedir á minha mãe e para ela pedir á irmã, á minha tia Gertrudes, mãe do Bráulio, para nos deixarem ir ter com os nossos pais, ao pego de entrada.
A minha tia era a mais difícil de convencer porque o rapaz traquina com o era, metia-se em cada sarilho, (por vezes também o metiam), que terminava em sova.
Encobriu-o algumas vezes, correndo também o risco de me escancararem os olhos.
As sovas que o meu primo levava são dignas deste registo.
A casa tinha uma varanda avançada e era ali o palco da sova. A minha tia com um prato de esmalte na mão direita, daqueles muito bonitos e de cavalinho no meio, procurava acertar no filho, que segurava com a mão esquerda. O Bráulio correndo em círculo, fazia rodopiar a mãe. O rapaz gritava de propósito para a vizinhança aparecer. Resultava. - olhe que as Godinhas estão a ver - dizia em voz alta.
A minha tia largava-o quase sempre e se não o fazia abrandava as pratadas.
Naquele dia concordou, sem deixar de prevenir - não quero ouvir o teu pai.
Partimos com um pequeno farnel às costas e um cantil com água, emprestado pelo nosso tio Viegas, natural de Faro que prestava serviço na guarda republicana.
A tia Maria escravelha, minha mãe de leite, que morava na Alcaçarias, admirou-se com aquela autorização, assim como o tio Chico Claré, que ainda ordenava as ovelhas.
Sucedeu o mesmo com o tio Prego, que nos aconselhou - tenham cautela, as margens acima do moinho do Rainho são rochosas e ainda estão cheias de limos, tomem estes dois cacetes.
Atravessámos a coitada, onde podemos observar um lindo bando de perdizes, tendo o Bráulio logo descarregado o cacete.
Começámos a subir o Lucefécit a partir da horta do Zé Borrego, aí podemos observar a nora, engenho que servia para tirar água dos poços, aqui da ribeira e que veio substituir a cegonha ou picota. Normalmente era puxado por um burro que ligado a uma haste horizontal com tirantes, dava movimento a uma roda dentada, que fazendo girar outra, também dentada e acoplada de alcatruzes, que se enchiam de água e a transportavam de modo a ser utilizada. Os alcatruzes tinham um buraco no fundo o que despertou a nossa curiosidade. O hortelão explicou-nos que era para o ar sair e assim poderem vir cheios de água.
O tio Prego tinha razão as rochas estavam escorregadias e aqui e acolá havia um desequilíbrio sem consequências.
Chegados ao moinho do Rainho, este mostrou-se muito prazenteiro connosco. As famílias eram amigas. Novos conselhos e lá continuámos a viagem.
A paisagem maravilhávamo-nos com margens abrutas e águas tranquilas, agitadas, aqui e ali, pelo salto de uma rã ou do lento cágado. Vimos os galeirões com o seu suave nadar, a fugitiva galinha de água e o rapidíssimo guarda-rios.
Passado o sopé da serra de S. Miguel avistou-se o pego de entrada. A burra zurrou quando nos viu e deu o alarme. Todos ficaram contentes com a nossa chegada e os nossos pais surpreendidos.
Tinham estendido as redes e o nosso homenageado preparava-se para pescar á lapa os primeiros peixes para o almoço. Subiu a um ramo do freixo, encheu o peito de ar, tapou o nariz com a mão esquerda e mergulhou de pés juntos e a direito.
Ao entrar na água esta afasta-se em ondulações circulares. Fixei o sítio não desviando o olhar. Comecei a sentir uma estranha inquietação. O Borrão não aparecia. De repente noutro agitar de água surge o homem com três grandes peixes, um na boca e um em cada mão. Raramente só trazia dois. O Caturra homem também habituado a pescar e não sendo mau pescador ficou, tal como nós, admiradíssimo.
Eis que surge um senão. Tinham-se esquecido da panela para cozer o peixe. O Manuel sapateiro olha para nós e diz - mandem lá os gaiatos.
Torci o nariz e franzi a testa, mas nada disse. O Bráulio, rapidíssimo, responde ao sapateiro - vão lá vocês, nós temos almoço.
O peixe para a caldeta acabou por ser cozido no prato fundo da balança.
E foi com o relato deste último episódio que nós, eu e o Bráulio, passámos um dia com o Zé Borrão.

Hélder Salgado
18-07-2011.

1 comentário:

Anónimo disse...

OBs.

Helder

Não posso deixar de dizer-te que estas pequenas histórias,estão bem contadas e retratam personagens que fizeram parte de ti,do Braulio,de nós,prendendo-nos à sua leitura.

Por outro lado,parece-me que um dos seus traços mais marcantes, é o modo como essa tua gente de Terena vivia e mantinha relações humanas entre si sempre amigaveis,sempre brincalhonas,sempre inventivas e bem dispostas.

Do pouco conseguiam fazer tudo!


Assim como quem diz que, afinal, o importante e o caminho certo é sabermos estar e contar uns com os outros.


Abraço

Antonio neves Berbem