segunda-feira, 25 de julho de 2011

MEMÓRIAS DO PASSADO – HOJE A “MEMÓRIA” É DO HELDER SALGADO

EM MEMÓRIA DO ZÉ BORRÃO

UM DIA COM

O ZÉ BORRÃO era o irmão mais velho dos filhos do velho Borrão. O mais novo saiu de Terena e ingressou nas forças militarizadas. A irmã, a Ana, ficou em Terena como enfermeira, no antigo Hospital da Misericórdia, onde serviu até á decadência deste.
A família Borrão, apesar de modesta, não envergonhou a sua terra natal.
A irmã serviu a população no exercício das suas funções. Os dois irmãos embora tivessem saído de Terrena, a ela regressaram, assim como a Perpétua.
A Maria veio a falecer no concelho do Seixal.
Nesta amálgama de servir e ser servido, extrai-se esta pequena história.
O velho Borrão legou a arte da pesca aos filhos.
O Guadiana, no lugar dos Mussiços, foi palco dessa aprendizagem.
O Zé exerceu lá e na ribeira do Lucefécit, essa arte.
Criou um casal de filhos.
Enviuvou, altura em que rumou até Almada.
- Vou a tentar a reforma - disse numa despedida magoada aos amigos.
E eram tantos. O Manuel sapateiro, o Peças, o Zé Tatá, o Espada, o mestre Salgado, prof. Zé Jacinto, o Zé padeiro. Poder-se-ia afirmar, que em cada pessoa da Vila de Terena e até do Concelho tinha um amigo.
Um padre, recém-chegado a Terena, de nome Albano integra-se neste grupo de amigos, ganha uma grande confiança no Borrão.
Este padre, fora capelão-mor no exército, e pelas suas ideias cai, rapidamente, nas boas graças da população da Vila.
Revoluciona a festa dos Prazeres, nomeando nova Comissão.
O Zé Borrão andava muitas vezes descalço e o padre, quando o apanhava descuidado, pisava-o.
O Zé Borrão deixando-se rir, dizia para o padre - se te apanho nos Mussiços vais ao pego com batina e tudo.
O padre aumentando o sorriso, replicava - julgas que tenho medo? Fui baptizado no rio Jordão.
Era assim em salutar convivência que estes homens iam solidificando as amizades.
A comunidade de Terena, em Almada, recebeu de braços abertos.
Estive em casa dele.
Regressou a Terena e aqui ficou para sempre.
Convidou-os a fazerem parte desta pequena e simples homenagem ao Homem, que arriscando a sua vida, conseguiu resgatar das águas, vinte e oito pessoas, já cadáveres.
Bateu-se muitas vezes, levando sempre a melhor, com mergulhadores profissionais.
Apesar de ter casa em Terena, o monte do Borrão, a cabana na margem direita do Guadiana servia-lhe de casa. Era sólida esta choupana. Tinha uma armação em paus de choupo e de freixo, forrada com buínho compacto, revestido com palha de centeio. A cobertura com varas de esteva entrelaçada de piorno servia de telhado. Em redor, para escoamento das águas da chuva, tinha um rego fundo.
Nem frio, nem calor, nem chuva tinham ordem de lá entrar.
- Um paraíso - dizia com um certo orgulho.
Outras pequenas choças tinham para albergue dos seus animais. Patos gansos e marrecos, galinhas, perus, duas cabras e até um porco engordavam.
Apesar de dispor destes animais, como reserva de alimento, a pesca era a sua principal actividade e dela sobrevivia a família.
Transportava o peixe numa burra ruça, para todas as freguesias do Concelho, onde tinha fregueses certos.
Quando chegava a Terena pedia, a troco de peixe, ao tio Laurentino Manitas para apregoar o pescado.
E que “pulmões” tinha este homem. Parece que o estou a ouvir. Subia ao adro da igreja Matriz de São Pedro e de lá apregoava. Terminava sempre com esta frase - que lá se vende -. Depois era a costumada correria em busca do saboroso peixe.

Os compradores de peixe do rio

O taberneiro Eduardo, do Alandroal, era o melhor freguês em todo o Concelho, do Zé Borrão. No Rosário o Mamede, apesar do Borrão ir vendendo pelas ruas, sempre lhe ficava com algum.
O fiel da balança de braços, já corroída pela idade, pendia sempre para o lado da mercadoria.
Em Montejuntos o velho Aperta, tocador de harmónio, homem de copos e neste ofício, parceiro do Borrão, era o distribuidor.
O Faustino, taberneiro de Ferreira, assim como o Manuel coxo, em Faleiros sempre lhe compravam peixe.
Apesar destas vendas, tinha sempre o cuidado de não chegar a Terena sem peixe.
Sabia que se o fizesse teria que ouvir os companheiros de farra, especialmente o Peças, o Espada e o Zé Tatá, do Redondo e farmacêutico em Terena, que no grupo faziam dos cozinheiros. Na preparação das refeições havia um senão. O Borrão não esperava que o peixe morresse e começava a escamá-lo e a estripá-lo vivo. O Tatá não conseguia ver isto e retirava-se, vindo depois para cozinhá-lo.
O vizinho Zé Rosado era sempre presenteado com o maior peixe da safra.
Era, apesar de brincalhão e por vezes judeu, bom vizinho e bom companheiro.
Homem de palavra, sério e alegre, que irradiava confiança e honestidade.
Tinha sempre as portas abertas e nem na loja da senhora Cesaltina, nem na taberna do Quintino, o fiado, quando necessitava em tempo de crise, nomeadamente no Inverno, nunca lhes fora negado.
Procurámos, e falo no plural, ser fiéis nestes relatos, porque tenho a certeza absoluta que o leitor que neste momento me lê e conheceu o Zé Borrão ou dele ouviu falar, comunga comigo esta homenagem.
Terena e até mesmo as Hortinhas tinham bons pescadores. O Silva, o Charló, o Ramalho, o Caturra que pescavam no Lucefécit e raramente iam ao Guadiana.
Um dia o Grupo de amigos decidiu ir ter com o Borrão, aos Mussiços.
Partiram de véspera e á tardinha para irem lá dormir.
De manhã espalharam as redes, cujos tresmalhos chegavam a ter trinta metros.
Para um homem só, era uma tarefa morosa e cansativa e o nosso pescador era muita vez, auxiliado por amigos. Depois desta operação era esperar que o peixe caísse na rede e se enleasse nas malhas.
Alguns dos companheiros não querendo estar á espera, entretinham-se á pesca com cana. Era preciso isco para os anzóis e a minhoca era o isco preferido. No Verão esta rareava e os gafanhotos substituíam-na. O professor Zé Jacinto, não tendo paciência para esperar, decide ir pescar com cana. Colhe umas varas de piorno e vai apanhar gafanhotos. De cócoras, pé ante pé e da vara em riste, aproxima-se do gafanhoto, dispara e o gafanhoto voa, nova tentativa, novo voo do gafanhoto. Os companheiros desatam a rir e o professor não perdendo a calma, voltou-se para eles, diz - isto é mais bonito que uma fita de cinema.
O Borrão tinha sempre reserva de peixe. As nassas e nos galrichos tinha sempre peixe e as refeições estavam sempre asseguradas. Melhor que um frigorifico, como ele dizia, porque está fresco e vivo.

As judiarias do Zé Borrão.

Um mocinho espanhol de Cheles, atravessava o rio, pelo açude do moinho e vinha ter com o Borrão. Pretendia que este lhe ensinasse os segredos da pesca, sobretudo na pesca á lapa. Mergulhavam ao mesmo tempo e quando o Borrão vinha ao cimo de água o espanhol já lá estava.
Se no estender das redes o espanhol era um bom auxiliar, ali estava a ser um estorvo. Além disso estava lá o dia inteiro, comia e muitas vezes lá dormia.
O Borrão começou a aborrecer-se, mas como não tinha coragem de mandar o moço embora, resolve fazer-lhe uma partida.
Procurou um pego com lodo e pouco fundo. Ensinou-lhe como deveria controlar a respiração debaixo de água e esforçar-se por lá se manter o mais tempo possível.
O espanhol ficou radiante e mergulharam.
O Borrão faz as necessidades debaixo de água e misturando-as com lodo, esfrega-as na cabeça do moço. O rapaz bem lavava a cabeça mas o cheiro não passava. Resolveu ir a para casa.
- Já me desfiz dele - pensou o pescador.
No outro dia de manhã aparece o espanhol de cabeça rapada.
- Foi o lodo? - perguntou Zé Borrão.
- Não, foi a mierda del cu - respondeu o rapaz.
O espanhol acabou por ficar com a família Borrão até ir cumprir o serviço militar, e quando falavam no caso ao pescador, este respondia – nem a merda me livrou dele.
Um dia o Borrão, soube que o moço espanhol estava de férias em Cheles, foi visitá-lo aproveitando a ida, para comprar víveres. Levou consigo a filha e uma sobrinha.
Demorou-se demasiado tempo e o Guadiana encheu. Temerário mete-se á água. Um remoinho vira-lhe o barco. Fazendo jus á sua grande destreza e coragem consegue salvar as duas crianças e atingir a outra margem. Vozes que chegaram até nós afirmaram que o Borrão nadava com a mão direita, trazendo na esquerda uma menina e na boca, agarrada pela blusa, a outra.
Dois dias depois é surpreendido pelo espanhol, que de barco, chega á cabana.
O pescador expectante espera-o. O espanhol avança e quando está a dois metros do pescador, voltando-se para trás, diz - é teu. O Zé Borrão sentiu uma tão grande dor no peito, que se julgou trespassado por um raio, provocado por uma trovoada das rabanadas de Maio.
O que disseram, o que sentiram ou as lágrimas que choraram nunca ninguém soube.
Um dia na oficina de ferrador do meu pai, o mestre Salgado, perante este, o Peças, o Zé Tatá, um pouco mais refeito do susto, desabafou - levei duas lições, uma da água, outra do espanhol.
Homem grato e simples que não tolerava a gabarolice.
O Farinheira, apesar da alcunha ou para dissimular a pressão que esta lhe causava, gabava-se de ser o maior garanhão das redondezas.
Um dia numa paródia bem bebida, o Farinheira excedeu-se deixando os restantes companheiros incomodados.
O Borrão apanhando-o a dormir a sesta deitou-lhe azeite embebido em malagueta, pelo rego do rabo. “Aqui del rei”, o outro passou o resto do dia e parte da noite dentro da água.

Hélder Salgado

18-07-2011.

Amanhã e a finalizar esta homenagem não deixe de lêr:
As partidas do pescador
Partida do Peças ao Borrão
A última historieta.

3 comentários:

Carlos Damas disse...

Gostei muito de ler a bonita história Real do senhor Burrão. Engraçada e bem contada, pelo senhor Hélder Salgado

Anónimo disse...

Meu amigo

Precisamos disto como do peixe do Zé Borrão para nos alimentar.
Lembro-me do nome..., mas das histórias que contas, e que me deu um grande prazer lê-las, nada sabia. Obrigado pela passagem do testemunho, tão bem relatado que os personagens, mesmo não os conhecendo, se nos tornam familiares. E o acontecimento da entrega de um novo barco, depois do acidente cheio de heroísmo, deixou-me extasiado. Por vezes de Espanha também vem bom vento!

Um abraço do

AC

Anónimo disse...

Caro Amigo HELDER!!!
Adorei ler todo o teu texto, primeiro porque ainda me lembro dessa carismática figura do ZÉ BORRÃO, segundo também pelos outros intervenientes, alguns deles tambêm conheci, terceiro pela
maneira como descreves todas as andanças do ZÉ...
A forma como apresentas a vida de todos os personagens, fazendo uma comparativa aos tempos actuais, até quase que me doi o peito ao olhar para a sociedade que nos rodeia,sem amizades,sem amor,sem digmnidade,é uma triste realidade...felizmente a nossa época, que foi de geração á rasca,
que passámos o que passámos,que muitos de nós, subimos na vida a pulso,quase sem grandes ajudas, conseguimos manter, guardar e fortalecer as nossas amizades e muitas vezes é com alguma lágrima no canto do olho, que extasiamos ao ler tais textos...
Que nunca pares...
Um abraço,
HOMERO