"Depois de reflectir no trabalho de investigação que estamos a apresentar da autoria de ANB, parece-nos também oportuno salientar que o problema politico estratégico associado à conjuntura das Viagens de Exploração africanas e do Mapa Cor de Rosa, reflecte bem as dificuldades que temos ultrapassado como país ao longo da História.
Senão veja-se, não será verdade que Portugal só se tem mantido à tona de água devido a um conjunto de heróis que desde sempre nos têm garantido uma soberania de que todos nós nos devemos orgulhar e lutar por manter.
É por isso que, agora que vamos dar por concluído o trabalho disponibilizado pelo ANB, e que temos vindo a publicar ao longo desta semana, aconselhamos os nossos leitores a fazerem a compilação do mesmo e reflectirem como Portugal perante todas as adversidades que enfrentou soube sempre estar por cima.
Chico Manuel
INTERFACES DA VIDA EM CAMPANHA DE HERMENEGILDO CAPELO
5. PARA FINALIZAR
Vejamos, em resumo, quais os resultados da expedição que ousamos chamar de POLÍTICO- CIENTIFICA de H. Capelo e R. Ivens, indo para além das FESTIVAS e ajantaradas CONFERÊNCIAS que tiveram lugar em Lisboa, Porto, Madrid sendo, no entanto, quase ignorada no resto da Europa. (5)
6.1. Quanto ao valor real da EXPEDIÇÂO CIENTIFICA, recapitulando, podemos dizer que valeu pelo exercício arguto do espírito de observação e rigor das descrições. Valeu também pelo registo dos dados observados e recolha de diversos materiais.
Além disso H. Capelo e R. Ivens deram a conhecer o percurso de vários afluentes dos principais rios africanos, a natureza litológica dos leitos e o seu posicionamento cartográfico.
No conjunto, fixaram-se os primeiros dados científicos relativos à HIDROGRAFIA e à GEOMORFOLOGIA do continente africano.
6.2. Relativamente às motivações e interesses políticos, basta lembrar que se tivermos em conta a gesta dos Descobrimentos e dos Cientistas do Renascimento nos séculos XV e XVI, foram concerteza, AS VIAGENS DE EXPLORAÇÃO NO INTERIOR DO CONTINENTE AFRICANO realizadas ao longo do século XIX que os reforçaram. A obra foi dos EXPLORADORES da primeira e das gerações seguintes na qual se foram destacando as acções de Mousinho de Albuquerque, Alves Roçadas, Paiva Couceiro. E do Alto Comissário em Angola, Norton de Matos: um nome pertencente à galeria de Homens que projectaram em «alto grau» e com visão política ideais de harmonia na sociedade afro-portuguesa. E que, Como Outros, que fomos nomeando, posicionaram PORTUGAL decisivamente nos caminhos da NOVA PARTILHA DE ÁFRICA, incluindo-nos novamente entre as PRINCIPAIS POTÊNCIAS EUROPEIAS até à I Guerra Mundial. Uma guerra civil europeia que incorporou problemas e repetidas ambições coloniais. Percebidas também como causa aceitável que levaram à nossa participação «tardia» em 9 de Março de1916 na Grande Guerra. Desfilando depois ao lado dos vencedores... sob o Arco do Triunfo.
Portanto, pesem embora os insucessos de um «NOVO BRASIL africano» e do MAPA em COR de ROSA, que terá servido, pelo menos, para assinalar e demarcar a nossa presença numa área compacta «de costa à costa» abrangendo a região entre Angola e Moçambique, não foi, afinal, por nenhuma destas vias que o IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUES se perdeu. Ou deixaram de continuar a pertencer-nos a SUL extensas áreas continentais. Preenchendo-nos «o Ego» colonial por muitas mais décadas. Com a vantagem política internacional acrescida de ver fixadas, de vez, as fronteiras de Angola e Moçambique.
6.3. EM ULTIMA ANÁLISE,
Ao apontarmos para uma visão da História que deve existir em torno da verdade, acreditamos que H. Capelo companheiro de sempre de R. Ivens terá aceite e assumido que enquanto explorador, viajante, escritor e sócio da então ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS e ESCRIPTORES PORTUGUESES, lhe cabia defender e representar os direitos históricos, interesses vitais, e as razões políticas que o levaram a traçar uma vez mais «forte e sábia presença» portuguesa em terras africanas. De acordo com o seu experiente (e «Palmelense») sentido de Descoberta/Aventura e UNIVERSALISMO DOS PORTUGUESES. (6)
Objectivamente posto ao serviço, quem melhor o poderá saber, do que já hoje andamos a designar por C.P.L.P. apelando, em crescendo, ao exercício urgente, íntimo e corrente da LUSOFONIA no século XXI.
Neste sentido, podemos concluir que os valores que iluminaram a vida, a Biografia e o exemplo de H. Capelo ( e do seu irmão Guilherme Capelo) não podem desaparecer. Ou deixar de inspirar o futuro cada vez mais próximo.
NOTAS
(1)- Francisco de Oliveira Chamiço, membro da Comissão Africana da Sociedade de Geografia, fundador e governador do Banco Nacional Ultramarino, o primeiro banco europeu com funções emissoras de moeda nas colónias, tomou a seu cargo, a representação das colónias portuguesas na Exposição Universal de Antuérpia de 1885. Aí se mostravam produtos do Congo Português. Dizia nesta circunstância, Eduardo Coelho:« Então Portugal tem um Congo, e assim tão desenvolvido?»
In revista História, Nº65, Março de 1984, pág.7.
(2)- Convém destacar que a análise das ACTAS e dos Boletins da Sociedade de Geografia de Lisboa, a partir de 1876, um trabalho levado a cabo pela Professora Angela Guimarães (ISCTE) permite esclarecer os objectivos que marcaram as três FASES PRINCIPAIS das actividades da instituição:
« De 1876 a 1880, a Sociedade de Geografia concentrou todos os seus esforços em garantir o lugar de Portugal no movimento expansionista. De 1880 a 1882, esforça-se por fazer um balanço das forças nacionais disponíveis para investir na competição internacional. De 1882 a 1895, dedica-se a orientar a política e a gestão coloniais sobre o conjunto do império, embora as circunstâncias a levassem a concentrar o máximo das suas atenções em Moçambique».
Ver Angela Guimarães, Uma Corrente do Colonialismo Português: a Sociedade de Geografia de Lisboa, 1875-1895, Lisboa, Livros Horizonte, 1984, p.21;
(3)- Caso curioso, é o de que, à boa maneira portuguesa, tendo-se iniciado a expedição de H. Capelo e R. Ivens ao Dia 12 de Março para logo a seguir ser suspensa e só recomeçar em 24 de Abril, por desistência e fuga de um grupo de carregadores, logo em Lisboa, correu o boato que os EXPLORADORES haviam abandonado o projecto. Equivoco que levou o próprio R. Ivens a escrever uma carta a um amigo em Lisboa, em princípios de Abril, na qual salientava que «não está porém em nada comprometida a expedição, como poderá por aí alguém propalar; apenas nos roubaram três fardos de fazendas, e 15 ou 20 armas, que é fácil repor mas em breve prosseguirá tendo de novo».
Esta carta foi publicada em três colunas da primeira página do Diário de Noticias de 20 de Maio de 1884, então dirigido por Eduardo Coelho. Sem contudo como parece óbvio se indicar o nome do destinatário.
(4) Observa-se que o governo progressista presidido por José Luciano de Castro, após ter aceite o Ultimato britânico, demitiu-se em 14 de Janeiro sendo substituído por um governo regenerador presidido por ANTÓNIO SERPA PIMENTEL com Hintze Ribeiro na pasta dos Negócios Estrangeiros.
Ver J. Calvet de Magalhães, Breve História Diplomática de Portugal, Lisboa, Pub. Europa-América,1991, p.201.
(5) Em 1885, no seu regresso à METRÒPOLE, H. Capelo foi recebido por D Luís e, posteriormente, nomeado para outras missões, como a de Vice-Presidente do Instituto Ultramarino e Ajudante de campo dos reis D. Luís e D. Carlos, etc.
In Dicionário de História de Portugal ( dir. de Joel Serrão) Volume I, Porto, Livraria Figueirinhas/ Iniciativas Editoras, s.d.
ANEXO Introdutório
AGRADECIMENTOS especiais pelo amável Convite que me fizeram são devidos:
Ao Grupo de Amigos de Palmela, e à sua Direcção,
Ao Jorge Mares, o autor e «perseguidor» da ideia de me trazer até cá,
Ao respeitável Professor Alberto Trovão do Rosário
1. “INTERFACES DA VIDA EM CAMPANHA DE HERMENEGILDO CAPELO” foi o título que escolhemos para apresentar a Intervenção desta noite.
2. Antes porém, queria destacar Quatro NOTAS PREVIAS
A primeira, serve para lembrar que num trabalho que elaborámos sobre “A GEOPOLÌTICA DO ATLÂNTICO A SUL” andei a investigar as razões históricas, estratégicas e políticas relacionadas com a falta de um MAPA COR de ROSA, marítimo e desta vez azul, envolvendo Portugal, Cabo Verde, a Guiné, Moçambique, o Brasil e outras grandes potências euro-atlânticas, OPOSTO ao MAPA e IMPÉRIO de COR VERMELHA, continental e marítimo, que a União Soviética andou a construir nas décadas 60 e 70 do século XX, atraindo à sua esfera de poder, vários países africanos e os ricos mares quentes do sul. Sendo Angola, o caso «apetecido» mais evidente.
Sem que muita gente, especialista na matéria, bastante distraída e acomodada politicamente desse por isso.
A segunda nota, tem a ver com «o meu livrinho» de HISTÓRIA DE PORTUGAL da 4ª classe e Admissão aos Liceus, cuja primeira edição é de 1948. Trago-o por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar porque contém «Excelente Cronologia» uma bússola bastante em desuso e todavia indispensável ao Ensino e trabalhos de História. Depois, porque mostra de forma muito redutora, o exemplo incorrecto de uma descrição e mensagem histórica demasiado fechada e nacionalista. Inadequada aos nossos dias...
Ou seja, Deus nem sempre esteve do nosso lado. No caso africano, por vezes, ter-se-á mesmo distraído.
A terceira nota prévia, é para afirmar sinceramente que o tema suscitou-me o maior interesse e várias «estadias» na Sociedade de Geografia de Lisboa. As quais (me) provaram uma vez mais: o pouco saber que quase todos vamos mantendo sobre mais esta bela Saga dos Portugueses em África.
Uma coisa é certa: o filão biográfico dos Exploradores Portugueses da primeira e da segunda geração, existe, mantém-se em aberto e parece-nos longe de estar esgotado. Até porque, de acordo com Oliveira Marques, ainda não existe uma boa história geral das expedições portuguesas.
A última Nota Prévia, relaciona-se com a Bibliografia, e a Gravura de H. Capelo (ver Nota 6) uma obra de Caetano Alberto, informando que privilegiámos a consulta bibliográfica:
Do volume 9 (1851-1890) da História de Portugal, de J. Veríssimo Serrão, Lisboa,1984-1986;
Do volume 5 da História de Portugal, do Círculo de Leitores, direcção de José Mattoso,1993;
Consultámos também a sóbria História de Portugal de A. de Oliveira Marques, 1º edição, Janeiro de 1974.
Serviu-nos, muito particularmente, de apoio um artigo de Ilídio Rocha, Nº65 da revista História, Março de1985, intitulado « De Capelo e Ivens a Salazar»
Também tivemos em conta os trabalhos de Maria Emília Madeira Santos, 1978. E a obra de António da Silva Rego, O ULTRAMAR PORTUGUÊS NO SÉCULO XIX (1834-1910), Lisboa, 1966.
António Neves Berbém
Em IV/V de Maio de MMV
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