quinta-feira, 30 de junho de 2011

CRÓNICA DE OPINIÃO DA RÁDIO DIANA FM

Transcrição da crónica diária transmitida aos microfones da :http://www.dianafm.com/

 A cair de maduros
Eduardo Luciano

Quinta, 30 Junho 2011 09:27
O local chama-se Horta das Laranjeiras, fica em Évora junto ao Rossio de S. Brás e é utilizado durante a Feira de S. João para a instalação de Tasquinhas sorteadas entre o movimento associativo local.
Nesse espaço, com laranjeiras, entendeu a Plataforma da Cultura em Évora colocar algumas laranjas em cartolina com frases de sensibilização para a importância da actividade cultural.
Frases como “a cultura dá frutos”, “cultura igual a cidadania” ou “cultura gera riqueza” eram o sumo das laranjas de cartolina.
Fê-lo em dia de inauguração de Feira, com o espaço já composto de visitantes e com a atitude provocatória que permite agitar consciências. Nada mais que isto.
Ao saber de tal acção por parte dos agentes culturais da cidade, o Presidente da Câmara Municipal comunicou de imediato aos serviços camarários que, acompanhados da PSP, rapidamente trataram de impedir a colocação das laranjas nas laranjeiras e procederam à identificação de alguns dos artistas e dirigentes associativos que participavam na acção de sensibilização.
Os argumentos aventados por polícias e fiscais municipais, centravam-se em torno do “regulamento” que não permitiria a colocação de publicidade não autorizada.
Confusão estabelecida e os funcionários municipais, alguns visivelmente constrangidos, limparam as laranjeiras das laranjas cultas, perante a estupefacção dos visitantes da Feira perante tal aparato e sanha no cumprimento do “regulamento”, chegando mesmo a retirar laranjas de cartolina que tinham sido colocadas nos espaços das Tasquinhas.
Percebe-se… o “regulamento” permite que se coloque uma cartolina com a frase “há caracóis”, mas já não permite que se coloque com a frase “a cultura dá frutos”, ainda que com a concordância da instituição que pagou para a utilização do espaço.
Tudo isto não passaria de uma longa anedota mal contada, se não estivesse em causa um estilo de exercício de poder que para além de distante dos cidadãos, agora ainda se permite chamar a polícia quando imagina que 10 pessoas juntas com cartolinas na mão são um perigo para a paz e tranquilidade públicas e uma ofensa ao todo poderoso “regulamento”.
A gestão do PS, que rapidamente trocou o diálogo pela conversa de surdos, agora conseguiu ir mais longe ao mandar identificar como perigosos prevaricadores as pessoas com quem deveria estabelecer diálogo.
Não deixa de ser curioso que os agentes culturais, que se encontram em situação particularmente difícil devido ao incumprimento de compromissos e ao defraudar de expectativas criadas pela Câmara Municipal Évora, tenham decidido realizar uma acção de sensibilização tranquila e divertida e que os responsáveis pela situação criada tenham respondido com a polícia.
O grau de apodrecimento do poder também se mede pela intolerância com que reage ao que acha ser adverso. E se este poder municipal acha que a afirmação “cultura igual a cidadania” é uma crítica, então está politicamente morto e ainda não se apercebeu do facto.
Até para a semana
Eduardo Luciano

1 comentário:

Anónimo disse...

tudo aquilo que faça o cidadão comum pensar por ele, ter ideias, ser criativo, analisar, criticar, opinar está cada vez mais sujeita a pressões e a politicas parciais.
tinha aquela ideia romantica do século passado que o século XXI seria o século de avanço tecnlógico e das mentalidades. que todos seríamos capazes de mostrar com inteligência superior as nossas capacidades e ser actuantes num mundo "moderno" onde todos e cada um de nós contribuiria de forma positiva com o saber cumulativo do saber da tradição, da experiência e da aquisição de novos e bons saberes.
pura ficção.
não darão sumo cultural as laranjas da horta nem as atitudes dos politicos locais em relação à cultura. não me perguntem porquê mas a critica, a opinião ou mesmo o mero comentário individual / colectivo tem cada vez menos hipótese de vingar numa politica local que cada vez nos quer menos "sumarentos"