Transcrição da crónica diária transmitida aos microfones da :http://www.dianafm.com/
A rua
Eduardo Luciano
Quinta, 24 Fevereiro 2011 11:27
Ontem, em Évora, os agentes culturais decidiram ocupar a rua para manifestar a sua indignação pelo estado de crescente desertificação cultural da Cidade.
Falou-se muito sobre dívidas, compromissos e dificuldades de sobrevivência de projectos há muito enraizados no concelho.
Quase que ficou submersa a questão essencial que levou os agentes ao protesto de rua: a ausência por parte do município de uma estratégia clara e participada que permita transformar a cultura como elemento estratégico do processo de desenvolvimento do concelho.
Évora não é um território qualquer. Tem características próprias moldadas pelo tempo histórico que lhe permite ser palco privilegiado de construção, divulgação e fruição cultural.
Esta realidade tem que ter como consequência a assumpção deste território como pólo de desenvolvimento cultural regional, nacional e de projecção internacional.
Mas para isso é necessário mudar de paradigma quanto à relação do município com os agentes culturais, contrariando a tendência assente em relações de fornecedor/cliente.
É preciso transformar essa relação numa parceria de serviço público no interesse dos cidadãos.
Só uma relação assente nestes princípios permitirá planear uma programação cultural coerente, multidisciplinar e plural que contrarie a lógica de que a cultura se esgota na oferta de produtos de entretenimento comprados em pacote para consumo massivo e imediato.
A afirmação de Évora como cidade de cultura impõe a definição de um conjunto de eventos âncora suportados numa sólida estratégia de promoção que potencie a relação entre a actividade cultural e o património edificado.
Existindo em Évora um conjunto de agentes culturais empenhados e disponíveis para trabalhar em prol do concelho, não há estratégia séria para a política cultural sem o seu envolvimento.
Mais do que a compreensível luta imediata pelo cumprimento dos compromissos assumidos, deve ser a exigência da parte dos poderes públicos da prossecução de uma verdadeira política cultural para a Cidade.
Sem essa ideia clara de como fazer e com que objectivo, a imagem de Évora como Cidade de Cultura vai ficando cada vez mais ténue até que se transforme numa lembrança dos tempos em que a oferta cultural era a sua imagem de marca.
Durante a reunião de câmara uma actriz resolveu entrar em cena e colocar uma meia com intenso cheiro a queijo em frente de cada um dos eleitos.
A reacção zangada do presidente de câmara é sintomática e reveladora.
Um poder que não está disponível para entender que a Cultura também é a disponibilidade para a subversão, não tem a capacidade necessária para a criatividade que se exige para enfrentar os desafios que se avizinham.
Nem isso, nem o sentido de humor necessário para tornar a nossa existência mais leve.
Até para a semana... quem sabe
Eduardo Luciano
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