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O jogo do empurra
Martim Borges de Freitas
Sexta, 28 Janeiro 2011 10:50
Portugal precisa de uma mudança política. Não tendo ocorrido em 2009, como teria sido desejável - e até possível - foi penosamente que assistimos, desde então, a uma espécie de campanha eleitoral permanente até às eleições presidenciais de domingo passado. Uns, na esperança de que Cavaco Silva assuma o dever patriótico de desencadear a mudança ou, melhor dizendo, de criar condições para essa mudança, outros, pelo contrário, exactamente na esperança de que tal não aconteça.
Cavaco Silva, face à "cooperação estratégica" que definira em 2006, apresentou-se agora, em 2011, falando de "magistratura activa". Embora não tenha clarificado o seu alcance, "magistratura activa" significará com certeza um Presidente que usará plenamente todos os seus poderes, que tentará ajudar a sociedade portuguesa a superar a crise, que será exigente e que terá sentido de patriotismo. Que falará verdade. Que dirá ao país para onde podemos ir.
Tendo ganho as eleições à primeira volta e possuidor de uma legitimidade política refrescada, Cavaco Silva está agora na invejável posição de poder usar o seu maior poder, o poder de dissolução da Assembleia da República, a chamada "bomba atómica", que o eleitorado compreendê-lo-á bem. Não estou a defender a dissolução da Assembleia da República já, nem sequer acho que Cavaco Silva o vá fazer, pelo menos, a curto prazo. Estou apenas a constatar a invejável posição em que Cavaco Silva se encontra.
Dito isto, talvez se perceba então a reacção dos vários partidos políticos a começar pelo partido do Governo e pelo próprio Governo, que tentam desesperadamente diminuir a dimensão da vitória de Cavaco Silva e, ao mesmo tempo, dizer que não será pelo Governo que não existirá estabilidade institucional e um bom relacionamento entre o Governo e a Presidência da República, na tentativa de empurrar para Cavaco Silva o ónus de qualquer eventual mau relacionamento entre estes dois órgãos de soberania.
Por outro lado, à direita do PS, o PSD, de forma inteligente, diga-se, soube aliviar a pressão sem, no entanto, esvaziar o balão. Ao ter declarado não querer aproveitar-se do resultado das eleições presidenciais e ao ter dito que está inteiramente nas mãos do Governo evitar qualquer crise política, o PSD empurra para o PS e para o Governo a responsabilidade pela sua eventual existência. Já o CDS, apesar de, de forma surpreendentemente inábil, ter querido, logo na noite eleitoral, capitalizar o resultado das eleições presidenciais, também tenta empurrar para o PSD a responsabilidade de não haver uma coligação pré-eleitoral entre o PSD e o CDS, vulgo, uma nova AD, descartada que finalmente foi – e bem - a proposta para uma coligação PS, PSD e CDS, sem Sócrates.
À esquerda do PS, assiste-se a um Bloco de Esquerda a empurrar para o PS, por um lado, e para o Governo, por outro - por razões, portanto, diferentes - a responsabilidade do mau resultado de Manuel Alegre. Já em relação ao futuro, também o Bloco de Esquerda e o PCP tentam empurrar para o Governo a responsabilidade por uma eventual crise política, ao garantirem que jamais votarão favoravelmente uma moção de censura vinda do PSD e/ou do CDS. Ou seja, o que querem deixar claro é que não será nunca por responsabilidade do PCP ou do BE – eles assim o dizem – que o PSD e o CDS voltarão ao Governo de Portugal.
Em conclusão, depois do jogo de sombras, que se seguiu ao resultado das eleições legislativas de 2009 - em que todos se mediam uns aos outros desconfiando de tudo e de todos - e depois do jogo de espelhos, quando as eleições presidenciais passaram a estar presentes - em que o que interessava era apenas e só a reacção imediata do eleitorado -, assistimos agora, após a eleição do Presidente da República e, pelo menos, até à sua tomada de posse, ao jogo do empurra. Resta saber se, depois de tanto jogo, não é Portugal que vai perder.
Lisboa, 27 de Janeiro de 2011
Martim Borges de Freitas
1 comentário:
Martim Borges de Freitas, Portugal já perdeu.
E não é com mais do mesmo que vai voltar a ganhar.
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