quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

LOCAIS QUE DEIXARAM MARCAS NA MINHA JUVENTUDE

(A ARCA DA FONTE)
Para finalizar estas “recordações” dos locais que foram um marco na minha juventude, guardei propositadamente para o fim a Arca da Fonte.
A minha imaginação leva-me ainda ao tempo em que as seis bicas corriam abundantemente, primeiro da “nascente”, devidamente protegida por uma casinha, onde o “DAVAN” em dias de bom humor nos deixava espreitar o borbulhar da água a brotar entre duas pequenas rochas, e que não sei porque cargas de água teimávamos encostar o ouvido à porta, pela meia-noite altura em que se ouvia o “nascer” da mesma. Mais tarde substituída por um reservatório, e ao lado por um motor que bombeava para os depósitos da Escola a água suficiente, e para que as bicas corressem e a água chegasse para regar as Hortas do Cidral, do Manel Biga, do Chico Garcia, dos Salomé, do Fontes, do Nicolau, e ainda sobrasse para encher os tanques, para a lavagem das roupas do dia a dia.
Mas na Arca da Fonte lavava-se outra roupa...e ainda hoje se lava... é a chamada lavagem da roupa suja... não ao alcance de todos...mas só de alguns mais espevitados que gostam de ter a “escrita em dia”. Ainda hoje quando por qualquer motivo, tenho que pernoitar no Alandroal, é certo e sabido que o final da noite è passada na Arca da Fonte.
Na minha juventude, era o local de encontro para combinar as “faenas” nocturnas, e era ali que todos nos juntávamos, para deliberar os planos de acção, normalmente concretizados nas Sociedades, que fechavam à meia-noite, e para onde depois convergíamos para o resto da noitada, e “fazer o ponto da situação”.
Encostados à parede, sentados no “poial”, se aquelas paredes falassem, se aqueles mármores tivessem ouvidos quanto não poderiam contar de inconfidências, de mágoas, de alegrias de momentos bem ou mal vividos, poderiam ser testemunho.
O Jerónimo passava, com a sua chocolateira de café, a caminho do forno do Zé Cuco, onde iria amassar e cozer o pão que pelas sete estava à venda, (ainda? Já sei que vão ser os primeiros fregueses!) .
O rouxinol cantava as alvoradas nas frondosas árvores do Cidral, (hii, já é tão tarde!).
Já agora esperamos pela camioneta das seis, o Piçarra já deve estar a abrir e bebemos um cacau, sempre aquece...
Então até logo...mas logo não podemos ficar até tão tarde...

Tá bem tá.... a Arca da Fonte tira o sono...ou serão as conversas?

Saudações Marroquinas
Xico Manel

9 comentários:

Anónimo disse...

Xico Manel!!! Fizeste-me chorar...
HOMERP

Anónimo disse...

Isso era dantes amigo Chico agora nem as conversas se aproveitam nem os conversadores. Já nem a carreira das seis passa quanto mais o cacau do Piçarra.
Deus te conserve para nos ires recordando estes tempos que já não voltam
Manuel

Anónimo disse...

Acompanho amiúde os textos em que o Sr. Xico Manel fala dos locais que marcaram a sua infância. E, tirando um ou outro pormenor de pouca importância, estou de acordo com o que escreve.
Mas hoje, Sr. Francisco Manuel, tenha a santa paciência, venho aqui dizer que há um aspecto que o Sr. deu de barato e com o qual eu não concordo nada.

Com que então « aquelas paredes não falam e aqueles mármores não têm ouvidos ! ? ».

Engano seu. Aquelas paredes e aqueles mármores sempre falaram e sempre tiveram ouvidos.
E não só as paredes e mármores da Arca da Fonte.
Todas as paredes e mármores do Alandroal ouvem e falam.
E os xistos também.
Agora, depois dos arranjos do Arrequiz, da Praça da República e do Caminho da Fonte, parece que até já o granito tem esse dom.

Eu bem sei que o Alandroal é uma terra muito misteriosa, mas - passe o paradoxo - é também uma terra em que tudo se sabe. Por vezes até se sabe demais.
E quando não se sabe, inventa-se.

Quantos de nós, alandroalenses, não vimos e ouvimos conterrâneos nossos, pelas ruas, aparentemente, a falar sózinhos ?
Engano nosso.
Falavam com as paredes.
Falavam e recebiam resposta.
Se assim não fosse porque é que a conversa era tão animada ?

Eu próprio mantenho, por vezes, intermináveis conversas com as paredes quando regresso a casa, lá pelas horas em que mestre Jerónimo, costumava ir fazer o pão.

Se assim não fosse como é que nós sabíamos que o Pêro Rodrigues tinha sido « preso por amigo, preso por leal » ?

Só porque o Luís de Camões o disse ?
Mas se o Luís de Camões era um poeta, senhores !
E, como poeta, ouvia aqui e contava ali. ( muito bem, aliás )
Cá para mim foram os xistos do castelo que lhe contaram.

Espero ter exemplificado bem o que queria dizer.

Cumprimentos


Orson Callabreze

Anónimo disse...

Caro Chico,fizeste chorar o Homero... e a mim fizeste-me rir... eu explico:

Naquele tempo, aos domingos de manhã as figuras ditas importantes do Alandroal, passe a expressão, sentavam-se à porta da farmácia do Pita em amena cavaqueira..., vendo passar os transeuntes(as)... ou rindo das conversas sempre apimentadas do Dr. Xavier.
Num desses domingos, o Dr. Matias vendo a família descer a praça, após a missa, levantou-se e despediu-se dos companheiros: «até logo meus senhores... são horas de almoço»... e encaminhou-se para o seu destino. Ao mesmo tempo, uma rapaziada já graúda, entre os quais estava o João Fitas, um tal Vitorino Salomé e talvez o Coelhinho ( são os únicos que recordo), brincava com um balde cheio de água que atiravam uns aos outros, mas do lado oposto à farmácia. E mal o Dr. Matias dobrou a esquina da fonte, em direcção ao seu almoço, levou em cheio com o balde de água da brincadeira..., por cima do seu fato domingueiro.
O doutor seguiu, imperturbável, o seu caminho...

PS: desconheço quem foi o autor da baldada!

Obrigado Chico por nos fazeres recordar estes episódios.
Um abraço do AC

Anónimo disse...

Comungando

F. Manuel, o teu texto fez-me desbobinar um role de recordações.
Recordei as noites de cinema, tardes de jogo de bola, o colégio, a esplanada e sobretudo os amigos e as amizades que ainda preduram.
Estrados de vida que nos faz recordar e continuar a viver, em busca daquilo que fomos, do somos e daquilo que poderemos ainda ser.
Foi no dia de ontem que projectámos o de hoje e neste, alicerçamos o de amanhã e assim de degrau em degrau, nos vamos moldando, em imprevisto por nós desconhecidos. A recordação e a saudade são emoções que nos impulsam para a descoberda de nós mesmo.
Vamos continuar recordando.

UM BOM ANO.
Hélder Salgado

Anónimo disse...

Ó Chico:
"DAVAN" ?
Dá aí uma ajuda que não me lembro.
AC

xpto disse...

Amigo AC a figura do "Velho Davan" existiu mesmo no Alandroal.
Parece-me que morava nas Eiras do Ravasco e tinha ligação ao Mata Pintos e ao Chão Frio .
Aparece no texto porque estava convencido que a sua profissão era vigiar as retretes publicas, fiscalizar o Jardim das Meninas e pôr termo a "brigas" dos gaiatos e não os deixar "empanturrar" de maçanicas alem de pôr o motor da água a trabalhar.
Em conversa com a Fátima, ela não se lembra do Davam e afirma que as funções a que me referi eram desempenhadas pelo Humberto, a quem o meu sogro alcunhou de "O Mosca".
Devo portanto estar a fazer uma grande confusão (já lá vão quase 60 anos)
Assim solicito a um dos nossos comtemporaneos que desfaçam as duvidas.
Eu fico agradecido.
Um abraço
Xico

30 Dezembro, 2010 08:59

Anónimo disse...

O Davan era realmente o guardas retretes e era anterior ao Humberto.
Devias tambem recordar o velho Eurico que durante muitos anos fez a recolha do lixo e o transporte da carne do matadoro para o talho.
Em termos de lugares devias tambem recordar o choupal,a volta de circunvalação as bispas e as idas nocturnas à horta do Manel Biga...

xpto disse...

Muito obrigado pelo esclarecimento.
Eu cá tinha as minhas razões (afinal a memória ainda funciona)
Duplamente agradecido pelas sugestões que vão dar azo a várias "recordações".
Estou por exemplo a lembrar-me quando atropelei o Davan e o "emborquei " para a valeta.
E quando o Padre Afonso se mascarou no Carnaval de Padre e foi "meditar" para as Bispas e quase fazia uma confissão.

Bons tempos...não é amigo?
Já lá vão resta-nos recordá-los.
Bom ano
Xico