sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CRÓNICA DE OPINIÃO DA RÁDIO DIANA/FM

Martim Borges de Freitas - Rei e Senhor


Sexta, 31 Dezembro 2010 09:37
Vai agora começar a campanha eleitoral propriamente dita para as presidenciais de 2011. Alguém já deu por isso? – apetece perguntar! Os debates ocorreram e a partir deles pouco se alterou. Se Cavaco Silva entrou na corrida já ganhador, nela continua rei e senhor. O debate com Manuel Alegre chegou mesmo a ser surpreendente pela forma como Cavaco Silva encostou o adversário às cordas. Quando me lembro de que, há cinco anos, havia uma certa direita embevecida com Manuel Alegre e que até nele terá votado ... não consigo deixar de imaginar as suas caras hoje! Mas o facto é que estas eleições presidenciais não despertam a atenção de quase ninguém. E as razões são várias.
Em primeiro lugar, devido à situação de crises sobrepostas em que Portugal se encontra. Depois, devido aos poderes que detém o Presidente da República. Depois, também, pela forma como Cavaco Silva exerceu o seu primeiro mandato. Por último, pelo descrédito em que se encontra hoje a classe política. Pela mistura de todas estas razões, as pessoas pressentem que Cavaco Silva já ganhou, que não usará por livre iniciativa a chamada "bomba atómica", ou seja, não dissolverá por iniciativa própria a Assembleia da República, e que, pelos outros poderes de que dispõe, a vida das pessoas não será substancialmente alterada a partir do dia 23 de Janeiro. E, todavia, já muitos foram os que anotaram na sua agenda para 2011 a realização de eleições legislativas.
Se aquelas razões são razões suficientes para que as pessoas não se interessem pelas eleições presidenciais, outras duas há que agravam ainda mais esse desinteresse e que têm a ver com o que separa os vários candidatos.
A primeira linha de separação entre candidatos diz respeito ao seu espaço político-partidário próprio e à sua base social de apoio. Cavaco Silva e Francisco Lopes, estão, sob este ponto de vista, a salvo. Já Manuel Alegre se encontra na mais difícil das posições: refém do Governo e do PS, por um lado, e refém do Bloco de Esquerda, por outro, com a agravante de ter em Cavaco Silva um defensor e praticante da "cooperação estratégica".
A segunda linha de separação entre os candidatos tem a ver com a situação actual do país e deriva directamente do Orçamento do Estado para 2011. Aqui, só Francisco Lopes e, vá lá, condescendamos, Fernando Nobre, podem afirmar uma linha política contrária à seguida no Orçamento do Estado para 2011. Quanto aos outros candidatos, todos eles estão comprometidos com o Orçamento do Estado para 2011. De resto, esta linha de separação entre candidatos não tem consequências apenas para o desenrolar das suas próprias campanhas eleitorais; tem também consequências, limitativas, para todos os partidos políticos, excepto para o PCP. É que, Cavaco Silva é apoiado pelo PSD e pelo CDS, mas se o PSD está em linha com Cavaco Silva em matéria orçamental, já o CDS, não. Por outro lado, Manuel Alegre é apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda, mas se o PS está em linha com Manuel Alegre, já o Bloco de Esquerda, não. Portanto, admitindo que os partidos políticos quisessem dar uma ajuda para tornar esta campanha das presidenciais um bocadinho mais interessante, o que duvido, não o vão poder fazer sob pena de tornar ainda mais confuso o que já de si é bastante confuso.
Ora, toda esta confusão, não tendo sido deliberada, é, no entanto, reveladora do estado a que política portuguesa chegou e da recorrente inaptidão dos que se têm sentado nas cadeiras do poder. Dos partidos e dos governos. Eis por que Cavaco Silva é rei e senhor à entrada de uma campanha eleitoral que, salvo qualquer facto extraordinário, ditará a sua reeleição.
Martim Borges de Freitas

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